Contos

O restaurante

A única sugestão é nunca parar de almoçar ou sair. Era simples o lugar: algumas mesas de plástico amarelas, forradas transversalmente por toalhas de plástico quadriculadas em vermelho claro e escuro. Paredes azuis caiadas, a parede esquerda com um calendário de Nosso Senhor MhorramedisTo pendurado e a direita com uma televisão preto-e-branco presa num suporte quase ao teto, ligada no jornal do meio-dia. Duas garçonetes servindo os pratos feitos e uns poucos clientes exibindo nos ombros um tanto caídos e cansados a vitória que tiveram na vida.

2029 foi um ano interessante, dizia a Tv.

Jonas era um desses clientes. Almoçava, e viu descer de dentro das mangas do terno de um velho sentado à mesa ao lado duas mãos delgadas, com unhas longas e os dedos mais finos que ele já tinha visto. Jonas comia macarronada, com bastante molho e almondegas, mas estacou com o garfo a meio caminho da boca quando viu a cena, fazendo o macarrão gorduroso de molho de tomate escorrer de volta para o prato.  O velho, a despeito da deformidade nas mãos e do olhar insistente de Jonas, pegou com habilidade o talher e começou a comer.

O prato do velho se compunha de uma porção pequena de feijão preto, macarrão sem molho, guisado de boi e salada simples, composta por alface, tomate e cebola, mergulhados em vinagre. Gelando, um copo de suco, talvez de laranja, pela cor amarelada do líquido que continha.

Marcela, uma das garçonetes e totalmente alheia à cena que Jonas observava, cambaleou nos sapatos e deixou cair em cima de Silvana, uma cliente que comia duas mesas atrás de Jonas, um prato de almoço. Marcela corou de vergonha e pediu desculpas, totalmente sem jeito. Tão sem jeito que sua língua escorregou da boca e parou no colo de Silvana, que gritou todos os dentes no rosto de Marcela. Diante de tamanha ofensa, Marcela gritou seus dentes também, em resposta. As duas se engalfinharam numa briga barulhenta e espalhafatosa. Os pedaços de ambas – cacos de carne e sangue – caíam às cascatas pelo chão. Pararam por não ter mais o que cair.

Habmael, o cozinheiro, aproveitou para recolher Marcela e Silvana numa panela grande e garantir o guisado de boi – especialidade da casa – do dia seguinte.

Enquanto isso, o velho comia com muito gosto e não parou para olhar para trás ou para os lados uma única vez.  Jonas achava curioso como aqueles dedos finos seguravam com elegância o garfo, e gostava do jeito garboso com que o velho furava os pedaços de carne e os levava à boca, apaixonadamente, mas sem muita efusão.

2029 entrará para a História como o ano em que tudo fez sentido, disse a Tv.

Jonas abaixou a cabeça em direção ao próprio prato e continuou a comer, então. Porém foi mais uma vez interrompido pelos dedos finos do velho, que passaram em frente aos seus olhos e depositaram um guardanapo de papel, dobrado, sobre seu prato cheio. Jonas, pois, olhou novamente para o lado e recebeu em suas retinas a visão de uma piscada de olho do velho. Um velho com a boca gordurosa de feijão e carne. Manuseando o guardanapo de papel e o desdobrando, Jonas percebeu um número de telefone e um nome. O guardanapo absorveu a gordura do macarrão e Jonas usou isto para colá-lo em cima da mesa enquanto assistiu o velho se levantar e sair do restaurante, abrindo caminho por entre a nuvem de poeira que servia de porta. Pôde perceber que as mangas agora cobriam as curiosas mãos do velho, que saiu.

Houve um estrondo.

Um estrondo. E o velho voltou, atirado com força, numa explosão, de volta ao restaurante, derrubando algumas mesas vazias da entrada.  Um corpo ferido e um terno roto, exibindo agora obscenamente as mãos delgadas. Junto com cheiro do novo guisado de boi com os pedaços da garçonete e da cliente, veio Habmael com seu facão e cortou o velho em muitos cubinhos de carne sangrada.

Isso, é claro, serviu de alerta. Nunca pare de almoçar ou saia. Os clientes, já contáveis nos dedos de uma mão, curvaram mais ainda os ombros. Darlene, a outra garçonete, foi ajudar Habmael a recolher os pedaços do velho com uma bandeja de aço inox.

Habmael fitou Jonas, segurando um dos dedos do velho na mão esquerda, e falou serenamente que no peito dos desafinados também bate um coração, entregando o dedo a Jonas.

Este entendeu de pronto, amassou o guardanapo colado em sua mesa, afinal não precisaria mais ligar, e voltou a comer seu macarrão.

2029 não foi apenas um ano, foi um sonho bom que passou, disse a Tv.

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Hálito de Fogo

Bina estirava farinha. Suas filhas mais jovens, Faiga e Asisa, a auxiliavam. Desde as horas altas de sol o marido Loth estava fora. A cidade estava em polvorosa. Loth não disse para onde ia, e não era costume dos homens de seu povo travar diálogo com suas mulheres. Ao contrário dos outros homens de Sodoma, Loth tinha sua fé em Ywh, e não em Baal. De certo modo, não importava a ocasião importante que ocorria na cidade. Mas a ela, mesmo tendo forte sua fé em Ywh, se esforçava para satisfazer os grandes guerreiros sodomitas. Vivia ali, era o mais correto a se fazer. Loth era comerciante, havia uma reputação a conservar entre o povo daquela cidade. Mas desde a volta das tropas sodomitas para as muralhas, Loth não estava em casa.

Loth sentado às portas da cidade, ao lado do jerico que o levara para lá, observando o crepúsculo. A balbúrdia que saía dos portões era inquietante. Sodoma havia desolado Zoar, acampamento dos enlitas, povo que havia desafiado a soberania da cidade, ameaçando o rei dos sodomitas, Enqui. A vizinha Gomorra também tomara parte de Sodoma sobre o desafio dos enlitas e se aliou aos sodomitas na batalha. Muitos corpos forravam o chão de Zoar, e os abustres rodeavam os céus do vilarejo. As tropas vitoriosas regressaram para suas respectivas muralhas numa marcha poderosa. Em Sodoma, os homens em festa enchiam a praça da cidade, empunhando vinho, malte, dançando, cantando. O cheiro do assar de duzentos e oitenta e sete carneiros fazendo o ar adquirir sabor.

Loth havia deixado sua mulher, Bina, e suas jovens filhas, Faiga e Asisa, cuidando da casa enquanto esperava ao pé dos portões. O sol já espreitava sob os montes das Terras Altas, indo embora. Ele sabia, era o momento, algo teria de acontecer.

Foi então que ele viu os quatro.

***

As quatro figuras no alto do monte observavam as cidades em festa. Eram quatro homens distintos, três em capas brancas, vestimenta de viajantes ricos, e um vestindo uma túnica de couro de cordeiro, também luxuosa. Um homem alto, com uma barba longa e olhar imponente, se destacava sobre eles. Vestia uma capa muito alva. Seu nome era um mistério. Uns o chamavam Elohim, outros apenas de El. Alguns Yawe, outros Adonai. Não importava. O que era importante é que seu nome, qualquer um deles, impunha um temor abismal nos espíritos que o ouviam. Tudo em relação a esse homem, se é que o podemos chamar assim, era temível, temerário. Seu poder, o qual ele não tinha pudor em demonstrar em atos mesquinhos e crueis, parecia ilimitado.

Junto do homem alto dois outros, mais baixos, servos deste. Tinham um aspecto delicado e rostos bonitos, apesar de, em seus olhares, estar presente uma chama que rescendia homicídios. Seus nomes eram Lucibel e Samael, e eram os servos prediletos e de confiança de Elohim. Vestiam capas iguais a de seu mestre.

Junto com eles, Abrão. Um velho patriarca de um grupo nômade. Seu respeito por Elohim era imenso, sentia por aquele homem alto e forte um respeito, temor e admiração quer eram maiores que seu próprio espírito. Era capaz de qualquer coisa para agradá-lo.

– Vês?, disse Elohim a Abrão, Aquelas cidades lá embaixo, Sodoma e Gomorra, fervendo dentro das muralhas. Até parece que desconhecem o meu poder. O que pensam esses infiéis? Dei-lhes tudo, tudo, mas seus muros são cheios de corrupção. Acham que são melhores que eu. Acham que Baal, ora veja, é mais poderoso que eu. Eu que lhes dei a vida, eu que lhes soprei a existência, eu que lhes dei uma terra, que lhes afiei as espadas. E honram sacrifícios aos chicotes de Baal.

Um grande guerreiro de Nínive, Baal, mas fui eu quem comandei suas tropas, disse Elohim.

– Sim, vejo, disse Abrão.

Abrão pensava nas ovelhas, cordeiros e carneiros que vendia aos sodomitas e gorromitas. Havia se instado nas Terras Altas para fincar uma rota de comércio com o povo daquelas cidades. Sentiu o ódio na voz do grande Elohim e temeu.

– O que vós pretendeis fazer, El Shadai?, disse Abrão.

– Sodoma e Gomorra, nesta festa depois da batalha contra os enlitas, digo-te, Abrão, arderão nas chamas de mil danações. E minha palavra é A Palavra. O meu sopro é O Sopro. Minha decisão é Suprema.

Abrão tremia diante daquele homem gigantesco. Sua voz era como o trovão, seus olhos como relâmpagos, suas mãos, clavas pesadas.

– Senhor, disse, mas, e o povo das cidades?

– Morrerão todos em lava e enxofre, riu Elohim. Samael e Lucibel riram junto.

Abrão mordiscara o lábio inferior diante daquelas risadas. Era risos crueís, sanguinários. Olhou para as cidades, vendo a luz das festas alcançando os céus naquele fim de tarde.

– Senhor, mas, e os inocentes daquelas cidades?, questionou Abrão.

Elohim ainda ria.

– Ora essa, respondeu irônico, vejam, Samael e Lucibel, a inocência dos pastores! hahahaha

Samael e Lucibel abriram seus belos rostos em sonoras gargalhadas.

– Claro que não há inocentes, sentenciou Elohim, parando de rir. Seus servos também pararam, de súbito.

Abrão ficou em silêncio por um minuto. Refletia sobre aquilo. Suas maiores fontes de riqueza iriam ruir pelas mãos implacáveis de Elohim e ele nada podia fazer a respeito. E o senhor havia prometido que voltaria ao mesmo local de seu acampamento atual daqui a um ano. Como sobreviveria sem o comércio com os sodomitas e gomorritas? Pensou nos seus pares, em sua velha esposa Sarai, na gravidez enfeitiçada que Elohim prometera para ela mais cedo. Precisava tentar converser o mestre em declinar sua decisão.

– Senhor, disse, mas, não querendo desafiar vossa autoridade, e se existirem cinquenta inocentes dentre todos em Sodoma, destruiríeis ainda assim, vós, aquela cidade?

Elohim abrira novamente um sorriso diante de Abrão.

– Como assim, ancião?

Abrão tomara coragem.

– Proponho o seguinte, ó senhor dos exércitos, criador dos céus e da terra, mandeis vossos servos Samael e Lucibel para Sodoma. Se lá houver cinquenta inocentes, peço-vos que poupe as cidades do cruel destino que traçastes…

El Shadai olhou para Abrão com ternura.

– Faço-te melhor proposta, disse Elohim, Se existirem cinco, apenas cinco sodomitas inocentes, poupo as cidades da destruição.

Abrão abriu, dessa vez, um sorriso franco. Não se enganara. O senhor era misericordioso e bom. Não é possível que não haja cinco pessoas boas em Sodoma. Esta batalha ele, o velho Abrão, havia vencido.

***

Loth reconhecia, mesmo à distância, aquelas silhuetas. Engoliu em seco ao ver a figura do mais alto dos homens ali em cima. Ao lado da figura mais alta, um homem curvado, numa túnica escura. Era o mestre Abrão, ao lado do senhor dos exércitos. Os havia encontrado mais cedo nas Terras Altas. Voltara à Sodoma porque sentira que precisava voltar. Pra que ainda não sabia. Algo grande, e não era a vitória sobre os enlitas, estava para acontecer.

Tinha tanta atenção nas figuras lá em cima que não se importava mais com o barulho que vinha dos portões. O fato é que ter novamente o Mestre El Shaday, Ywh, sob suas vistas era um momento sublime.

Percebeu então que as outras duas figuras de branco desciam a encosta. Vinham em passos lentos, em direção a Sodoma. Era isso. Montou seu jerico e foi em direção aos homens que desciam.

– Não!, distinguiu-se lá fora uma voz, não queremos essas duaas ordinariazinhas! Traga aqui fora teus visitantes, para que os conheçamos!

A gritaria tornou-se infernal.

Samael e Lucibel, que estiveram inertes por todos esses minutos, entreolharam-se. Lucibel passou pela família de Loth, postou-se diante da porta e a abriu.

Uma luz, visível apenas aos que lá fora estavam, cegou a todos os homens que clamavam pelos corpos de Samel e Lucibel.

Os gritos, antes de euforia, tornaram-se brados pavor. Crianças, que acompanhavam o cortejo dos guerreiros aos estrangeiros, tão estranhos, foram pisoteadas. Muitos morreram naquelas trevas, criadas tão rapidamente por Lucibel, por meio daquela luz.

Loth, Bina e as filhas pararam, atônitos. Lucibel fechou a porta e Samael, num sorriso angélico, disse, calmamente:

– Loth, somos emissários de Ywh. Nosso senhor não tem andado satisfeito com a corrupção do povo dessa cidade, nem de sua vizinha, Gomorra. Fomos mandados para cá para verificar se aqui, nesta cidade, havia pelo menos cinco inocentes pelos deveríamos poupar estas cidades. Mas desde que chegamos aqui, perseguidos por estes infiéis, percebo que apenas tu, tu e tua família, quatro pessoas, são dignos da piedade do senhor.

Bina observava Loth conversar com os estrangeiros. Eram homens belos, de gestos delicados e vozes suaves, que já tinham demonstrado do que eram capazes de fazer quando contrariados. Eram homens perfeitos: belos, altivos, nobres e fortes. Uma espécie de febre começara a percorrer seu corpo. Percebera que Faiga e Asisa olhavam, curiosas, para os dois homens. Tudo, de repente, começou a girar ao redor dela. Loth sentara no chão, enquanto os dois estranhos permaneciam de pé. Faiga e Asisa, de repente, começaram a se despir.

Algo muito estranho estava acontecendo com Bina. O calor agora era insuportável. Precisava se livrar de sua túnica, senão sua pele iria queimar. Tirou-a rapidamente, deixando-a escorregar pelo seu corpo. Já tinha mais de quarenta, mas ainda tinha encantos. Seus seios eram firmes e suas nádegas, rígidas. Tinha pernas tão ou mais voluptuosas que as de suas filhas, e seu rosto ainda era belo. Não reparara, antes, o quanto era bonita. Mesmo depois de tantos filhos, sete, todas mulheres.

Faiga e Asisa foram até o pai, Loth, que também estava nu, o membro rígido. Bina sentiu uma vontade avassaladora de abocanhar aquele membro. As duas meninas foram ao pai e o abraçaram. Bina também foi. Samael e Lucibel apenas olhavam.

***

Loth, esposa, filhas e os dois estrangeiros foram nas casas das outras filhas de Loth e Bina. Mas não havia ninguém. Todos estavam na grande orgia que ocorria no centro de Sodoma. Caminharam até lá, e avistaram os corpos, homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, todos fodendo, aos gritos. O vinho escorria pelo chão, deixando o chão arenoso uma papa roxa. O palácio de Baal, no lado oposto, estava repleto de cadáveres pendurados. No parapeito, um jardim suspenso imponente e majestoso, o rei Enqui e a família real, numa orgia bizarra. A filha caçula do rei, de oito anos, defecava nos seios da velha mãe do rei, que espalhava a merda por eles. Enqui lambia as fezes nos seios de sua mãe e beijava a boca de seu irmão, Anu. O povo, embaixo, fazia coisas parecidas. Sangue, mijo, merda, pus, vômito, esperma, os fluidos mais diversos passavam de boca em boca, de pênis em pênis, vagina em vagina, ânus em ânus. Cabeças de bebês eram cortadas, para que as mulheres lubrificassem seus corpos com sangue. Pênis e clitóris eram arrancados às dentadas. Chicotes estalavam no ar, nas costas nuas dos mais de vinte mil brincantes.

Loth e os outros desistiram de procurar os parentes em meio a tanta bagunça e tanta gente. Não havia mais tempo a perder.

– Onde estão os estrangeiros?, atentou Loth, para Bina.

Haviam sumido.

***

Abrão ainda esperava, junto com Elohim, o retorno dos dois servos. Evitava olhar para o seu senhor, mas sentia que a presença dele estava mais pesada. Olhou para as duas cidades à noite e imaginou o que ocorria por dentro daqueles muros.

É AGORA!

Elohim, com sua voz de trovão, quase matou Abrão de susto. Nisso, o velho tomara coragem para observar o seu senhor. Os olhos brilhavam como duas labaredas, o sorriso era diamantes enfileirados a receber os raios do sol. Nunca vira algo daquela espécie. Elohim havia se tornado uma figura bizarra e medonha. Um medo profundo se abatera sobre Abrão. Virou o rosto para a planície e viu as primeiras bolas de fogo caindo sobre as cidades.

**

Loth, mulher e filhas correram o mais rápido que puderam para os portões de Sodoma. O fogo e o enxofre já tomavam conta do lugar. Homens, mulheres, e crianças. Tochas de carne e sangue. Por onde olhavam havia o horror. Um horror muito maior do que qualquer um já imaginara. Corriam por suas vidas. Eram tementes à Ywh, não mereciam aquele destino.

Correram por vielas de escombros e cadáveres. As chamas eram altas como palácios, poderosas como deuses. Chegaram aos portões, mas eles estavam fechados.

Loth, chorando, para os céus: – Ó, senhor, por quê?!

Bina observava seu marido, desesperada. Ywh, deus, o senhor, era realmente poderoso. Todo aquele caos era a prova. O temor, era isso que todos precisavam ter, o temor. Ywh, El Shaday, não era qualquer um. Era o senhor dos exércitos! Jeová, Ywh, Yawe! Postou-se de joelhos ante o portão fechado. Loth e suas filhas, agarradas a ele, seguiram seu exemplo.

As portas abriram lentamente, deixando um espaço mínimo para que passasse a família. Levantaram-se rápido e correram em direção à liberdade, quando dois cães enormes apareceram junto deles.

– Vão! Para as Terras Altas, latiu um deles, Não era para vós terdes saído, mas Ywh demonstrou misericórdia convosco.

Loth e sua família seguiram adiante, enquanto um dos cães ainda latia:

– NÃO OLHEM PARA TRÁS, OU TERÃO UM DESTINO PIOR QUE O DESSAS PESSOAS!

***

Muito minutos que eles corriam. Bina não aguentava mais. Uma mulher não podia, quase nunca, dirigir-se ao seu homem, mas era uma situação excepcional, não se aguentava. havia de subverter as leis de deus, seria perdoada.

– Para onde vamos?, perguntou a Loth.

– Não sei, respondeu ele, não se importando com o pecado da esposa. O mensageiro disse que devíamos ir para as Terras Altas, mas não há como com esse fogo na planície.

– Então, o que faremos, ela perguntou.

– Penso em dormir em Zoar, disse Loth, finalmente.

– Zoar? Mas a cidade está cheia de cadáveres!, gritou Bina.

Faiga e Asisa observaram a mãe, espantadas.

Loth desferiu um tabefe na orelha de Bina. Acertou-lhe um soco no rosto, e o sangue escorreu do nariz dela, que despencou no chão.

– Infiel!, disse Loth, Dirige-se a mim de forma tão insolente e ainda por cima grita?! Cadela, bruta! Inferno para você!

Escarrou em cima de Bina. As filhas, abraçadas ao pai, fizeram o mesmo. Loth espancou Bina com muitos chutes no rosto e na barriga, depois voltou-se para as filhas:

– Vamos! Deixemos esta prostituta aos abutres! Ywh, nosso senhor, Elohim, que cuide do destino dessa infiel!

Então foram a passos rápidos em direção aos destroços de Zoar, enquanto Bina jazia no chão, tossindo sangue.

***

O hálito de fogo tocava seu rosto. O som dos gritos dos condenados empurrava-se pra dentro de seus ouvidos. O calor do inferno acariciava seus ombros.

Bina abriu os olhos.

Não havia mais sinal de Loth ou de suas filhas. Não queria ir para Zoar, pois se Loth a visse, matava. Não sabia o que fazer. Um medo profundo tomou conta do seu coração.

Lembrou-se do que ocorrera em sua casa, mais cedo. Os servos de Elohim tinham enfeitiçado a família.

– É preciso que conheçam o pecado, disse Samael.

Então um calor tomara conta de seu corpo. Ela, as filhas e Loth fizeram sexo com avidez. Gozou no pênis do seu marido e nas línguas e dedos das filhas, enquanto era sodomizada. Ajudou Loth a deflorar as duas, pela frente e por trás. E engoliu todo o esperma do pênis do marido, que havia passado da boca de Asisa para a de Faiga e, finalmente, para a sua.

– Agora podemos ir. Sodoma ruirá, disse Lucibel.

Um arrependimento pesado caíra sobre o espírito de Bina. Fora enfeitiçada por aqueles estrangeiros, servos de Elohim, e tinha certeza de que eles eram os cães que os haviam orientado nos portões de Sodoma. Uma revolta tomou conta de Bina que, mesmo dolorida e ensanguentada, usou de toda força para levantar-se. Vingar-se-ia daqueles malditos servos de Elohim, Samael e Lucibel. Era preciso. De algum modo, eles quem acabaram com sua vida, com a cidade, com a paz que existia. Teve medo de Elohim e dos novos tempos que ele traria para o mundo. Os homens sempre foram perdidos, tinha noção, mas sob o domínio dele, seria muito pior, tinha certeza.

Precisava fazer algo quanto a isso.

Voltou-se para a cidade em chamas. Viu as muralhas caírem, enfraquecidas, sob as montanhas de fogo. Nos céus, um par de olhos, duas estrelas lançando dois relâmpagos. O sol espreitando de leve no horizonte. Um horror extremo passou por sua cabeça. Queria voltar-se, mas não podia. Não conseguia se mexer. Até que tudo escureceu.

Virara uma estátua de sal, que se desfez ao primeiro hálito morno que a brisa trouxe naquela manhã que começava.

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Papo furado, Poeminhas

uma espécie de budismo

cada vez que boto o pé na rua
vem na cabeça uma vontade crua
de por aí cometer uma meia dúzia
de violências

cada passo torto na calçada
faz ferver esse monstro

.

o corpo repleto de sinais de nascença
e não sei quantos tardios
prenunciando um câncer mortal

no fundo do coração
o desejo de pisar num tapete de crânios

!

tocar um violão a cada suicídio
uma guitarra em cada assassinato
e um tambor nos massacres

;

e a cada pedido
de amor ao próximo
a doença cresce
e corrói
até o fim (eu sei)

,

isso é pedir demais, mas

me deixem aqui com meu ódio

 

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FERIADO

hoje é o dia
lá do zumbi
dia da lança
sangue fluir
pelo chicote
de chocolate
hoje é o dia

da passagem

dia do peixe
padre marcelo
do exorcismo
de madalena
hoje é o dia
do pão e vinho
suor no monte
terço e novena

o mar se abrindo
lá no egito
hoje é o dia
trinta dinheiros
da forca e a força
num romãzeiro

só satanás
comendo carne

hoje é o dia

da passagem

amém então
é feriado
para quem crê
e pra quem não
amém amém
barriga cheia

praia sol
televisão

amém amém

amém irmão

todos que comem
com a novela
ou com a paixão
do zefirelli

com o azul dos olhos
de jesus cristo

com a branca tez
dos palestinos

hoje é o dia
se bebe sangue
se tira espinhas
ninguém imune
à má cozinha
hoje é o dia

feliz passagem
é sexta feira
parece sábado
quanta besteira

é só comer
deitar dormir
falar bobagem
com todo mundo
deus abençoe

eu e você

hoje é o dia
daqui domingo

feliz passagem
feliz passagem

deus abençoe
daqui domingo

feliz passagem
feliz passagem

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Muitas Vezes Lázaro

Ontem eu morri de novo.

 

Foi inesperado, como quase sempre, mas foi estranho, de repente; tudo bem que eu já vinha com essas dores no peito há alguns dias, mas não tinha noção de que era fatal. Contando com esta já é a décima quarta vez. Deus está sempre comigo.

 

A primeira foi quando nasci. Natimorto, o médico deu a palmada, não chorei, era carne fria de criança morta. Minha mãe chorou, meu pai chorou. Eu não.

 

Pelo menos enquanto estava nos braços deles. Fui mandado para o necrotério, isso é que a mãe contava, e lá, junto com meus outros amigos mortos, dei meu primeiro sopro. Fui carregado de volta, identificado, uma alegria enorme para a minha família. O Hospital foi processado. Erro médico. Mas não foi culpa deles, era um milagre.

 

Sempre fui uma pessoa normal.

 

Cresci como um garoto que não tem nada de diferente dos outros, e de fato nunca tive. Os mesmos medos, mesmas brincadeiras, mesmas pequenas maldades infantis. Só digo isso pra ninguém pensar que sou um santo. Nunca fui e nem pretendo. Não é o fato de Deus estar sempre comigo que fez a dona Gessy gostar mais de mim. Pergunte pra ela e o cachorrinho que matei com veneno de rato. Foi sem querer. O prato estava na pia, minha mãe estava fazendo uma visita aos vizinhos, eu também estava lá. Coloquei o prato no chão. Sassá, Xaxá, não lembro o nome do cachorro, eu tinha cinco anos. Ele comeu, começou a ganir, cuspiu uma gosminha vermelha e branca. Eu chorei dessa vez. Levei uma surra. Dona Gessy amava Xaxá ou Sassá. Eu não sabia o que era amor, nem o que era morte ainda. Não me lembrava.

 

Eu gostava de subir em árvores. Morri pela segunda vez assim. Dessa eu me lembro. Fui pegar jambo, dois amigos meus estavam junto. Matheus subiu comigo, Tomás ficou embaixo, segurando uma sacola. Eu estava empolgado. Bem-te-vis são pássaros arredios. Um jambo roxo de enorme estava sendo bicado por um. Era longe. O galho em que eu estava aguentava o meu peso. Lembro até hoje, gostava de ir na farmácia e subir na balança. 36,12. O galho aguentava isso. O problema é que escorreguei. Não sei no quê, talvez um pedaço de jambo bicado. Eu estiquei o braço, o passarinho voou, ainda vi os morcegos dormindo na copa. Galhos e tronco correndo diante dos meus olhos até o chão. O meu pescoço fez um barulho, “trec”. Doeu. Eu tinha oito anos.

 

E qual não foi espanto, algumas horas depois. Hospital de novo. Minha mãe segurava a minha mão, o médico dizia que tinha de me levar e eu disse “foi o passarinho”.

 

Aí começou minha fama de santo.

 

Minha mãe contava, o primeiro registro da maternidade não mentia: natimorto. O Hospital confirmou. A notícia se espalhou. Eu era famoso, e não julgue pela minha aparência agora, eu era famoso. Não sorria, você.

 

Peregrinações para a minha cidade. Filas enormes, “eu te abençoo, com a graça de Deus, Jesus Cristo, Virgem Maria e a proteção dos anjos”, foi o que o padre me ensinou. Decorei. E dizia isso várias vezes por dia, todo mundo me amava. Eu queria ir para a escola, queria subir no jambeiro de novo, queria badocar o bem-te-vi que tinha quebrado o meu pescoço. Eu não podia mais. A professora vinha pra minha casa, à noite. Meus pais começaram a ganhar dinheiro. Não, eles não eram desonestos, davam uma boa parte para a igreja, que eu sei. Doações e mais doações. Ganhei fama de milagreiro. A TV veio pra minha casa várias vezes, eu gostava de me ver na TV. Eu tomava muita coca-cola, comia muito bolo, todo mundo me paparicava. Eu tinha brinquedos, mas quase não brincava. “Eu te abençoo, com a graça de Deus, Jesus Cristo, Virgem Maria e a proteção dos anjos”, minha infância.

 

Fugi. Coloquei um pano na cabeça de madrugada. Eu tinha doze anos. Corri cidade afora. Todos dormiam, eu não. E tinha uma casa aberta bem depois da praça, um monte de gente falando alto. Mais tarde eu vim saber que aquilo era um cabaré. E lá eu morri pela terceira vez. Foi rápido. Não sei por quê. Entrei lá e todos me reconheceram: “é o santo, o santinho, o menino que ressuscitou!”, e uma mulher, uma velha, o nome dela era Carmem. Me pegou pela mão e disse, “volta pra casa, menino! Vou te levar”, e eu disse que não queria. Chorei alto, eu não queria mesmo, queria correr mundo. Não sei o motivo. Tiros e tiros. Todo mundo correu. Minha nuca estava quente. Eu vi todo mundo indo embora.

 

Hospital de novo. Dessa vez tinha muita gente. E quando eu acordei, um mundo de gritos. Uma gritaria danada. Eu estava vivo de novo. “Meu filho”, minha mãe me agarrou. E gente chorou e se ajoelhou. Eu estava com fome.

 

Eu comecei a ficar na igreja. Se lembrou da história? Não? Como não? Eu era famoso.

 

Visitava os doentes. Vi muitos moribundos. Ainda não falei como é morrer, não é?

 

Morrer é dormir sem sonhar. Nada de túnel. Eu vi isso várias vezes. São nossas memórias. Elas se apagam, como um filme queimando, já viu? Assim mesmo. Morrer é seco. Primeiro não vemos, depois não sentimos, depois não respiramos, depois não ouvimos mais. Morrer é seco. Dormir sem sonhar.

 

Na igreja eu ficava numa cadeira alta, atrás do padre. As pessoas vinham, beijavam a minha mão. Eu dizia as mesmas palavras: “eu te abençoo, com a graça de Deus, Jesus Cristo, Virgem Maria e a proteção dos anjos”, mas o padre começou a me convencer a não dizer apenas isso. Ele queria que algumas pessoas conversassem comigo, que eu desse conselhos. E eu conversava. “Se não souber a resposta diga: reze sempre”. E eu fazia isso. Era apenas uma vez por dia. Tinha vezes que não vinha ninguém, então eu ficava somente na cadeira alta. Os encontros eram na sacristia. Eram sempre pessoas importantes. O prefeito foi lá muitas vezes. Fazendeiros também. Me perguntavam de tudo: se ia voltar a chover, se iam ganhar a eleição, se eram traídos. Eu dizia “reze sempre”. A filha de um fazendeiro, José Medeiros, se chamava Rosalva. Ela queria casar. Eu tinha 15 anos. Eu sabia o que era o amor. Demorava a sair do banheiro da sacristia. Eu queria encontrar Rosalva.

 

Fugi outra vez. Eu estava cheio daquilo tudo, queria ir na fazenda de José Medeiros. Madrugada de novo. O padre acordou, e eu briguei com ele. Bati nele com uma cadeira, “não vá, meu filho, pelo amor de Deus”. Eu corri. Muita gente lá fora, amontoada. Eles estavam lá por mim. Alguns acordaram, “o santo”, correram para mim. Eu coloquei para fora o meu sexo. Urinei. Gritei, “eu sou satanás!”.  Gritaria, e eu repeti, “eu sou satanás!” Corri pelo meio das pessoas, me arranhavam, eram milhares, eram milhões, era gente do mundo inteiro, eu passei pelo mundo inteiro, apanhei, mas passei pelo mundo inteiro. Entrei num mato. Alguns entraram também, mas eu entrei mais. Subi montanhas, desci morros, dormi na chuva. Passei por vilarejos, entrava em mato de novo. Uma cobra picou o meu pescoço. Não doeu muito. Inchou muito. Senti a ferida pesar. Sentei no pé de um umbuzeiro. Era tarde. Foi a minha morte mais bonita, o sol descendo o horizonte, o campo baixo, os bois pastando ao longe. Muita gente queria morrer assim. Eu morri assim, chorei de emoção.

 

Acordei não sei quanto tempo depois. Era dia de novo. Meu pescoço estava bom. Continuei caminhando. Eu esqueci Rosalva, pelo menos não queria mais ela. Já me bastava a liberdade.

 

Fiquei um tempo em um vilarejo no oeste. Cansei do mato. Primeiro eu pedia esmola, depois comecei a fazer uns bicos. Tomar cana nos botecos, andar com gente banguela. Eu via televisão, torcia para o Flamengo. Andei em cabarés, assim que eu descobri o que a casa de dona Carmem era. Descobri o que era o amor de verdade. Lúcia, Tônia, Xaiane, Laurinda, Lucrecia, Cindi, e um monte, um monte. E eu era valente, vinte anos na cara, valente. Ninguém me peitava. Morri uma vez assim. Tião do Campo Velho era pistoleiro. Queria Lucrecia, eu também. Ela disse, “vai com Cindi”, “não, esse fila da puta não vai me desafiar não”. Ele puxou um revolver eu disse “atira, baitola, bicha, atira, puto, fila da puta” e dei um murro nele. Foi só uma bala. Estourou minha cabeça, nem doeu. Ainda percebi que caí. Acordei num hospital de novo. Estava nu. Dessa vez eu tomei cuidado para que ninguém me visse. Era numa outra cidade. Peguei uma roupa branca num armário. Me misturei com as pessoas, andei pela cidade até encontrar de novo o mato. Antes de dormir no meio das plantas, do barulho dos bichos, eu pensei “Deus está sempre comigo”.

 

Passei um tempo alternando mato e cidades que eu encontrasse. Procurava sempre um calendário. Mendigo sempre. Assim contei os anos. Morri muitas vezes de fome. Quatro vezes. Dói por muito tempo. Você se sente vazio, desesperado, não consegue pensar, até que morre, com um aperto no peito. Da última vez, decidi não morrer mais assim. É muito indigno. Eu tinha trinta anos.

 

Quatro vezes mais eu morri tentando morrer de vez. Me joguei na frente do metrô. Senti meu corpo se despedaçar. Mas acordei inteiro. Um caminhão esmagou minha cabeça. Me joguei de uma ponte, queria morrer afogado. É a pior morte de todas. Você se sente desesperado, quer respirar, não pode segurar em nada. Morre ardendo no peito, na garganta. Muita água. Vomitei um tempo, depois que acordei num mangue. Da última foi por acaso. Tinha uma loja pegando fogo. Gente ao redor. Entrei lá, tentaram me impedir. Me joguei na labareda. Arde muito, mas depois você não sente nada. Você sufoca. Ainda tinha fumaça quando joguei escombros pra cima e levantei. Um bombeiro, chamado Carlos, me resgatou. Contei minha história pra ele, e ele ficou com essa mesma cara sua.

 

Me mandaram pra esse hospício e cá estou. Cansei de morrer. Envelheci, tomo remédios, durmo, vejo TV. Sonhar é bom, acostumei, não quero morrer de novo. Mas ontem eu morri. Estava na enfermaria, lençol cobria minha cara. Saí de lá, dei bom dia à Diana, enfermeira, aquela ali, morena, ó. Disse que não queria morrer de novo. Ela ficou espantada. Agora está falando com o diretor do hospício. Eu disse que quero sair, estou velho, não quero viver aqui mais. Quero correr mundo. Estou doente. Vou morrer muitas vezes ainda. Quero estar em paz dessa vez.

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Poeminhas

RIR E MORRER

por aí está
tudo tão torto
ser bom é um ato
de rebeldia

o caos é tudo
a ordem suprema
só se é livre
na anarquia

bandeiras balançam
para a direita
o amor na boca
dos assassinos

os meninos dançam
as meninas brigam
e se sufocam
nos proprios brios

o ser dinheiro
é admirado
a melancolia
é só doença

a simples chama
de um cigarro
é um terrorismo
inconsciência

estamos gauche
estamos bem
we are fine
we are ok

comemos merda
falamos baixo
e não pitamos
as nossas leis

adeus
adeus
mundo

é o que digo

desço e agradeço
faço como niezstche
encaro o abismo
abraço
e o beijo

adeus
adeus
mundo

é o que vou fazer

e nas profundezas
do meu inferno
vou rir e morrer

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