Contos

1

Obviamente ele não sabia o que esperar. Deixou-se levar pela madrugada. Aquele frio na espinha que todos nós sentimos, amigo leitor, aquele calafrio que dá quando estamos sozinhos andando à noite pelas ruas fedorentas da cidade. Só – ele e Deus. O rio reflete as sombras, alguns cracudos andando, outros dormindo, gente passando a conta gotas, o amor é somente uma gosma naqueles baixos meretrícios. E lá vai o nosso herói andando ao redor do rio, sem saber o que esperar da vida.

Ele pensa que talvez um taxi passe, ou alguém lhe pergunte as horas, ou alguém tentaria assaltá-lo. Estava meio bêbado, uma garrafa de vinho vagabundo na mão esquerda, uma pedra invisível no pescoço ao atravessar a ponte entre goles. A bexiga apertada, enquanto o céu enganava um azul bem mequetrefe, céu sem lua, uma garça fedorenta balança as asas e nenhum pio de coruja.

Por que esse azul escroto? – questionou nosso herói, enquanto o dia tomava forma. Não sabemos, nem podemos te responder, cara. Continua teu vagar.

E lá vai ele, já do outro lado, entre estátuas, árvores, poças e buracos. A calçada mais bonita do mundo, toda fodida. Nosso herói samba entre a merda e joga a garrafa no rio. Estava amanhecendo. Parou num poste em frente à livraria. Bem, nessas horas que se foda a metafísica. Esperou um táxi, qualquer merda mesmo. Tava a fim de ir pra casa.

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piadas de caserna

O general estava sempre cavalgando seu corcel ao redor da base e nunca falava com ninguém. Apenas dava voltas e ficava observando o comportamento de todos com seu olhar reprovador e semblante carrancudo. Às vezes algo dava errado – o que nós nunca sabíamos direito o que tinha sido – e ele mandava chamar alguém à sua barraca até que mais tarde o pelotão de fuzilamento estava pronto e tínhamos que cumprir nosso papel. Mas eram poucas as vezes em que isso acontecia, afinal não podíamos gastar munição com nossos companheiros tanto assim, de modo que tínhamos uma grande liberdade no acampamento. Passávamos a maior parte do tempo jogando cartas, esperando o chefe do Rancho trazer mais cigarros, vinho e álcool em barra para esquentarmos as latas de feijão e a água para o café.

Os dois capitães às vezes saíam voluntariamente da roda de cartas e iam até à barraca do general – que não era mesmo um general, mas um major – e voltavam com missões para nós. Isso não costumava se repetir muito nos últimos dias e a ideia de pegar nossos rifles, pistolas, facas, mantimentos e partir floresta adentro até uma cidade pequena ou vilarejo  saquear, matar, trocar tiros com inimigos até a morte nos entediava. Quando saíamos em missão o general ficava em seu corcel nos observando, fumando um charuto, com sua pistola prateada, talvez num gesto que considerava como fonte de bons fluídos e boa sorte para nós, mas não havia como saber suas intenções, pois ele nunca falava com ninguém.

Uma noite fui em missão com um companheiro que chamávamos de rato. Rato e eu tínhamos que seguir dois quilômetros a sudoeste do posto 14 e cortar todos os fios que encontrássemos em meio às árvores. Mais meio quilômetro adiante havia um pequeno acampamento onde alguns fugitivos civis se escondiam. Lá eles não tinham muitos mantimentos, mas como eram fugitivos parte do nosso dever era fazer de suas vidas um pequeno inferno. Fomos. Levamos cada um uma granada, uma pistola de 15 tiros, fósforos e nossos punhais de lâminas de 20 centímetros cada. Era uma missão difícil, por isso quanto menos soldados envolvidos, melhor, para não chamar a atenção das tropas inimigas, que poderiam a qualquer momento atacar nossa base.

A parte de cortar os fios foi fácil, apesar de nossa curta caminhada ser chata e cansativa porque tínhamos que subir nas árvores a cada som suspeito que ouvíamos, e numa guerra qualquer barulho pode significar a morte chegando, certa, com seus dentes afiados e sua baba ácida. Encontramos alguns cabos e os cortamos com nossos punhais. Rato trouxera uma garrafa de aguardente e bebemos um pouco depois de terminarmos de cortar os fios.

Enquanto seguíamos ao encontro dos fugitivos ele me confessou que traficava maconha antes da guerra. Que vendia a estudantes universitários e que era um jeito tranquilo de ganhar uns trocados porque ele tinha cliente certos e de boa família. Disse a ele que eu limpava piscinas e ele me deu mais um pouco de aguardente, até que começamos a andar mais devagar e com os ouvidos mais abertos, sem falar. O acampamento de fugitivos nada mais era que uma pequena barraca de camping com brasas de fogueira, a fumaça subindo, branca, em frente, numa minúscula clareira no meio do mato. Fomos até lá devagar e sacamos nossas pistolas, eu parei na frente e rato do lado direito. Demos alguns tiros e algumas coisas gritaram lá dentro, então abri a barraca com meu punhal e pude ver que a barraca abrigava uma família, homem, mulher e um bebê entre os dois. O homem estava com muito sangue no peito e balbuciava algo virando a cabeça pra lá e pra cá. A mulher segurava um rifle, mas ela tremia tanto que só conseguiria atirar quando amanhecesse. O bebê chorava. Rato pegou o bebê e deu um tiro na cabeça do homem agonizante. Arrastei a mulher para fora e a joguei no chão. Com meu punhal rasguei seu vestido. Ela sangrava do braço direito e tinha um corte profundo na barriga. Passei um pouco de sangue na sua vagina e a estuprei, dando de vez em quando socos em sua cara para que se acalmasse. Rato tinha dado alguns chutes no bebê, que não mais chorava. Então ele desperdiçou o restante de aguardente no corpinho imóvel e acendeu um fósforo. Gozei dentro da mulher, que chorava baixo, e me levantei. Rato saiu de junto da bolinha de fogo e veio estuprar a mulher também. Dessa vez ela não gritou. Até gemeu. Acho que gostou. Levamos a mulher como prisioneira, mas ela não aguentou caminhar muito então rato cortou a garganta dela e voltamos à nossa base lamentando ter estragado a aguardente toda.

Outro dia, rato foi à barraca do general e horas mais tarde gastávamos algumas balas com ele em mais um daqueles pelotões de fuzilamento que só serviam para que gastássemos nossa munição à toa.

Ultimamente vínhamos jogando muito pôquer, e apostávamos cigarros, sendo que uma vez fiquei devendo quatro maços ao sargento e o chefe do Rancho disse que estava estritamente proibido de aumentar minha ração para mais de dois maços por semana. O sargento, que chamávamos de tampa, resolveu então que eu o pagaria deixando que ele me desse doze socos na cara, três para cada maço de cigarros. Aceitei, perdendo todos os dentes da frente e a visão do olho esquerdo, o que realmente me atrapalhava quando tinha que usar o rifle. O general viu toda a cena rodeando a base em cima de seu corcel e acho que foi uma das poucas vezes em que tive a impressão de o ver sorrindo, apesar deu estar ocupado demais cuspindo sangue para ver qualquer coisa ao meu redor.

Uma vez o diabo em pessoa, com cascos, chifres, tridente e cheiro de enxofre, veio desafiar-nos no pôquer. O general ficou bravo com a presença de lúcifer e desmontou do corcel para se enfurnar em sua barraca, de modo que os dois capitães foi que tiveram que ouvir o que satanás tinha para dizer. E ele disse que queria nossas almas caso perdêssemos, o que aceitamos de cara. Foi um jogo emocionante, mas o diabo acabou perdendo um dos chifres para o chefe do Rancho e como não tinha charutos para dar ao sargento, teve que pagar levando dezesseis socos no rosto. Nunca mais ele voltou.

Comíamos feijão e era uma manhã de sol quando o chefe do Rancho e um dos capitães trouxeram um prisioneiro da floresta. Disseram que se tratava de um major inimigo, e o general montado no corcel veio para junto do prisioneiro para vê-lo melhor. Fiquei incumbido de amarrá-lo a uma grande tora de madeira e de meia em meia hora bater-lhe com uma barra de ferro nas pernas. No começo achei divertido levantar da mesa de carteado e bater no major inimigo, mas depois minhas mãos começaram a criar calos e ele não gritava mais de dor, apesar de ainda estar vivo. Depois da oitava surra que apliquei nele preparei uma caneca de café bem preto para aguentar melhor fazer o meu serviço. Tomei alguns goles de vinho também. Depois da décima surra as pernas dele não pareciam mais pernas, então perguntei a um dos capitães se eu poderia bater mais em cima. O capitão viu o estado das minhas mãos e disse que eu já tinha feito um ótimo trabalho e que poderia jogar minhas cartas e descansar. Um soldado que chamávamos de pudim ficou no meu lugar com as surras e depois eu soube ele tinha que bater nos braços do major inimigo.

Certo dia eu estava bêbado e estava brigando com um soldado que chamávamos de sarampo quando vimos um clarão seguido de um grande barulho. Uma enorme explosão vinda da parte sudoeste à nossa base fazia subir uma coluna gigantesca de fogo, a qual olhamos assustados enquanto pegávamos nossos rifles e o maior número de mantimentos possível para fugir dali. O general estava em sua barraca e saiu fulo da vida com a confusão, mas mesmo assim ninguém ouviu sua voz. O corcel estava amarrado ao lado da barraca, agitado, empinando as patas dianteiras e relinchando. Esperamos alguns minutos até o general acalmar o cavalo e um dos capitães foi para junto dele, para receber ao ouvido a ordem. O general queria que ficássemos a postos mas sem sair da base. Eu estava com os dois olhos abertos e o rifle apontando para a direção sudoeste. Era muito ruim usar o rifle sendo cego de um olho. Tive a oportunidade de reaprender a atirar quando fuzilei um grupo de civis que tínhamos recolhido de um outro refúgio, bem maior e organizado. Era um grupo de crianças em torno de nove anos de idade, e foi muito difícil pegar a prática de acertar bem no meio da testa, de modo que tive que matar umas doze para pegar novamente o jeito. Todos estávamos alertas esperando as tropas inimigas finalmente virem ao nosso encontro. Ficamos assim por horas, mas nada veio. Aos poucos fomos relaxando nossas posições e o general subiu novamente em seu corcel para rondar a base. Sarampo e eu esquecemos nossa briga, mas quando relembramos já estávamos com o sangue frio.

São recordações que guardamos dentro do coração. Um dia as tropas inimigas finalmente vieram, e desde então nunca mais tivemos paz.

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Dia de caça

O coletor A2-SXS, como um falcão, adejava o ar com cheiro de ovos podres acima das ruínas que brilhavam intensamente, num dourado ofuscante e opressor. Se ele pudesse captar os sons externos, a despeito do paramento que o protegia da alta concentração de H2S, ouviria o chiar constante dos toneis de combustível enterrados abaixo da há muito inabitada Tóquio.

No peito de Tóquio chorava um blues, diria alguém do século XX. O coletor analisava minuciosamente a superfície em busca de duendes.

Os duendes vieram com o gás, quando os grandes reservatórios vazaram. E tudo a ver com o século XX, onde a síntese de ouro estava em alta. Com o grande vazamento de 1983, e a consequente morte de todos os alquimistas japoneses, as grandes Torres de Alimentação e Síntese explodiram em uníssono, sendo o som mais alto já registrado no planeta até então. O metal fumegante voou e cobriu toda a superfície da cidade, e quem não morreu queimado e mumificado pelo ouro, morreu intoxicado pelo gás sulfídrico que vazava de todos os poros da terra.

Mas os espíritos das matas são imortais. Atraídos pelo ouro em abundância, atravessaram os oceanos em cima de suas mães d’água para conseguir o seu quinhão.

O ouro, após tantos anos da era sintética, era obsoleto para os homens. Aquele planeta tóxico quase não interessava ao restante da humanidade, na base lunar. Mas a caça, com a morte total da fauna não humana, era moda. E os únicos seres que se mostravam naquele planeta falecido eram os duendes, refestelando-se no ouro abaixo das nuvens de ácido sulfúrico e tempestades dignas de Vênus.

O coletor A2-SXS voejava por entre os trovões. Já estava ali há duas horas e sabia que não restava mais do que vinte minutos para que precisasse retornar à nave e renovar a camada de proteção do traje.

Acelerou e percebeu um duende negro, nu em pelo, como eles ficavam em Tóquio,  em cima de um ônibus fóssil dourado. Tinha que ser rápido, então ajustou o lança-redes acoplado a seu braço esquerdo à potência 80, o direcionou e disparou. O duende negro se debateu a princípio, mas a malha da rede era de um material fino e resistente, então ele parou de se mexer quando sua pele começou a sangrar. O coletor carregou a rede com sua caça pelos ares e, um pouco mais ao sul, adentrou sua nave.

Depois da desinfecção, o duende foi guardado numa pequena jaula de ouro onde havia sido deixado um pouco de frutas frescas, fabricadas na cozinha da nave. O pequeno duende começou a comer imediatamente, afinal há anos, desde a morte severa das árvores, não comia frutas frescas. O coletor A2-SXS, sentado em uma poltrona de feltro azul manejando uma taça de vinho tinto, observava sua nova aquisição, satisfeito.

O duende comeu todas as frutas, que estavam cortadas em cubos, e soltou um arroto fino. Depois se agarrou a um lingote de ouro que estava dentro da jaula e dormiu, serenamente, afinal a única coisa que pode deixar um duende tranquilo é uma boa quantidade de ouro.

O coletor terminou seu vinho e foi até um painel na nave, em outro compartimento, onde inicializou o processo de dissecação e curtume.

O pequeno duende negro foi agarrado por garras mecânicas e estripado por um braço robô de ponta afiada e cortante como um bisturi. Deu um grito fino enquanto suas pequenas tripas escorreram moles por fundo da jaula, e sua pele foi posta ao contrário pelas garras que o seguravam, com o bisturi mecânico desfiando os músculos, extraindo, assim, o esqueleto sem desmontá-lo, com perfeição. O cérebro ainda dentro do crânio, os olhos ainda mexendo. As tripas e os músculos foram engolidos por um buraco que se abriu no fundo da jaula de ouro. Um outro braço mecânico, de ponta fina, extraía o cérebro do duende, depois de furar os olhinhos e puxá-los, com acurácia.

A pele foi mergulhada numa solução salina num compartimento no fundo da jaula; depois, secada rapidamente, envernizada, e expelida para uma câmara de aquecimento.  O esqueleto, após a extração de todo o seu conteúdo e limpeza, também foi mergulhado na solução, secado e envernizado, porém foi envolvido numa redoma de plástico transparente, que foi preenchida com silicone e uma base colada em seu fundo.

O coletor A2-SXS aguardou 40 minutos e foi até a jaula. O esqueleto e a pele já estavam preparados. Gravou um nome numa placa de prata no suporte do recipiente onde estava o pequeno esqueleto do duende e puxou uma tela onde estava estendida a pequena pele, agora desidratada e com uma boa aparência.

A nave, após as 4 horas de viagem habituais, se acoplou, automaticamente, à Base Lunar XIX, setor IV, compartimento SXS, onde o coletor morava com sua esposa. A casa do coletor era agradável, e não havia nada muito diferente de uma casa terrestre dos anos 80 do século XX.

Sua esposa, após beijá-lo com ternura, expôs o esqueleto do pequeno duende na estante, e pediu ajuda ao seu marido para pendurar a pele na parede. Um duende negro era uma aquisição e tanto. E trazia boa sorte, dizia o costume, pois a energia vital daqueles pequenos seres se voltava a outras funções, boas, já que não havia mais o que fazer com o corpo completamente mutilado. Os duendes são imortais, mas não podem se mexer sem os músculos, como qualquer um de nós.

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O restaurante

A única sugestão é nunca parar de almoçar ou sair. Era simples o lugar: algumas mesas de plástico amarelas, forradas transversalmente por toalhas de plástico quadriculadas em vermelho claro e escuro. Paredes azuis caiadas, a parede esquerda com um calendário de Nosso Senhor MhorramedisTo pendurado e a direita com uma televisão preto-e-branco presa num suporte quase ao teto, ligada no jornal do meio-dia. Duas garçonetes servindo os pratos feitos e uns poucos clientes exibindo nos ombros um tanto caídos e cansados a vitória que tiveram na vida.

2029 foi um ano interessante, dizia a Tv.

Jonas era um desses clientes. Almoçava, e viu descer de dentro das mangas do terno de um velho sentado à mesa ao lado duas mãos delgadas, com unhas longas e os dedos mais finos que ele já tinha visto. Jonas comia macarronada, com bastante molho e almondegas, mas estacou com o garfo a meio caminho da boca quando viu a cena, fazendo o macarrão gorduroso de molho de tomate escorrer de volta para o prato.  O velho, a despeito da deformidade nas mãos e do olhar insistente de Jonas, pegou com habilidade o talher e começou a comer.

O prato do velho se compunha de uma porção pequena de feijão preto, macarrão sem molho, guisado de boi e salada simples, composta por alface, tomate e cebola, mergulhados em vinagre. Gelando, um copo de suco, talvez de laranja, pela cor amarelada do líquido que continha.

Marcela, uma das garçonetes e totalmente alheia à cena que Jonas observava, cambaleou nos sapatos e deixou cair em cima de Silvana, uma cliente que comia duas mesas atrás de Jonas, um prato de almoço. Marcela corou de vergonha e pediu desculpas, totalmente sem jeito. Tão sem jeito que sua língua escorregou da boca e parou no colo de Silvana, que gritou todos os dentes no rosto de Marcela. Diante de tamanha ofensa, Marcela gritou seus dentes também, em resposta. As duas se engalfinharam numa briga barulhenta e espalhafatosa. Os pedaços de ambas – cacos de carne e sangue – caíam às cascatas pelo chão. Pararam por não ter mais o que cair.

Habmael, o cozinheiro, aproveitou para recolher Marcela e Silvana numa panela grande e garantir o guisado de boi – especialidade da casa – do dia seguinte.

Enquanto isso, o velho comia com muito gosto e não parou para olhar para trás ou para os lados uma única vez.  Jonas achava curioso como aqueles dedos finos seguravam com elegância o garfo, e gostava do jeito garboso com que o velho furava os pedaços de carne e os levava à boca, apaixonadamente, mas sem muita efusão.

2029 entrará para a História como o ano em que tudo fez sentido, disse a Tv.

Jonas abaixou a cabeça em direção ao próprio prato e continuou a comer, então. Porém foi mais uma vez interrompido pelos dedos finos do velho, que passaram em frente aos seus olhos e depositaram um guardanapo de papel, dobrado, sobre seu prato cheio. Jonas, pois, olhou novamente para o lado e recebeu em suas retinas a visão de uma piscada de olho do velho. Um velho com a boca gordurosa de feijão e carne. Manuseando o guardanapo de papel e o desdobrando, Jonas percebeu um número de telefone e um nome. O guardanapo absorveu a gordura do macarrão e Jonas usou isto para colá-lo em cima da mesa enquanto assistiu o velho se levantar e sair do restaurante, abrindo caminho por entre a nuvem de poeira que servia de porta. Pôde perceber que as mangas agora cobriam as curiosas mãos do velho, que saiu.

Houve um estrondo.

Um estrondo. E o velho voltou, atirado com força, numa explosão, de volta ao restaurante, derrubando algumas mesas vazias da entrada.  Um corpo ferido e um terno roto, exibindo agora obscenamente as mãos delgadas. Junto com cheiro do novo guisado de boi com os pedaços da garçonete e da cliente, veio Habmael com seu facão e cortou o velho em muitos cubinhos de carne sangrada.

Isso, é claro, serviu de alerta. Nunca pare de almoçar ou saia. Os clientes, já contáveis nos dedos de uma mão, curvaram mais ainda os ombros. Darlene, a outra garçonete, foi ajudar Habmael a recolher os pedaços do velho com uma bandeja de aço inox.

Habmael fitou Jonas, segurando um dos dedos do velho na mão esquerda, e falou serenamente que no peito dos desafinados também bate um coração, entregando o dedo a Jonas.

Este entendeu de pronto, amassou o guardanapo colado em sua mesa, afinal não precisaria mais ligar, e voltou a comer seu macarrão.

2029 não foi apenas um ano, foi um sonho bom que passou, disse a Tv.

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Hálito de Fogo

Bina estirava farinha. Suas filhas mais jovens, Faiga e Asisa, a auxiliavam. Desde as horas altas de sol o marido Loth estava fora. A cidade estava em polvorosa. Loth não disse para onde ia, e não era costume dos homens de seu povo travar diálogo com suas mulheres. Ao contrário dos outros homens de Sodoma, Loth tinha sua fé em Ywh, e não em Baal. De certo modo, não importava a ocasião importante que ocorria na cidade. Mas a ela, mesmo tendo forte sua fé em Ywh, se esforçava para satisfazer os grandes guerreiros sodomitas. Vivia ali, era o mais correto a se fazer. Loth era comerciante, havia uma reputação a conservar entre o povo daquela cidade. Mas desde a volta das tropas sodomitas para as muralhas, Loth não estava em casa.

Loth sentado às portas da cidade, ao lado do jerico que o levara para lá, observando o crepúsculo. A balbúrdia que saía dos portões era inquietante. Sodoma havia desolado Zoar, acampamento dos enlitas, povo que havia desafiado a soberania da cidade, ameaçando o rei dos sodomitas, Enqui. A vizinha Gomorra também tomara parte de Sodoma sobre o desafio dos enlitas e se aliou aos sodomitas na batalha. Muitos corpos forravam o chão de Zoar, e os abustres rodeavam os céus do vilarejo. As tropas vitoriosas regressaram para suas respectivas muralhas numa marcha poderosa. Em Sodoma, os homens em festa enchiam a praça da cidade, empunhando vinho, malte, dançando, cantando. O cheiro do assar de duzentos e oitenta e sete carneiros fazendo o ar adquirir sabor.

Loth havia deixado sua mulher, Bina, e suas jovens filhas, Faiga e Asisa, cuidando da casa enquanto esperava ao pé dos portões. O sol já espreitava sob os montes das Terras Altas, indo embora. Ele sabia, era o momento, algo teria de acontecer.

Foi então que ele viu os quatro.

***

As quatro figuras no alto do monte observavam as cidades em festa. Eram quatro homens distintos, três em capas brancas, vestimenta de viajantes ricos, e um vestindo uma túnica de couro de cordeiro, também luxuosa. Um homem alto, com uma barba longa e olhar imponente, se destacava sobre eles. Vestia uma capa muito alva. Seu nome era um mistério. Uns o chamavam Elohim, outros apenas de El. Alguns Yawe, outros Adonai. Não importava. O que era importante é que seu nome, qualquer um deles, impunha um temor abismal nos espíritos que o ouviam. Tudo em relação a esse homem, se é que o podemos chamar assim, era temível, temerário. Seu poder, o qual ele não tinha pudor em demonstrar em atos mesquinhos e crueis, parecia ilimitado.

Junto do homem alto dois outros, mais baixos, servos deste. Tinham um aspecto delicado e rostos bonitos, apesar de, em seus olhares, estar presente uma chama que rescendia homicídios. Seus nomes eram Lucibel e Samael, e eram os servos prediletos e de confiança de Elohim. Vestiam capas iguais a de seu mestre.

Junto com eles, Abrão. Um velho patriarca de um grupo nômade. Seu respeito por Elohim era imenso, sentia por aquele homem alto e forte um respeito, temor e admiração quer eram maiores que seu próprio espírito. Era capaz de qualquer coisa para agradá-lo.

– Vês?, disse Elohim a Abrão, Aquelas cidades lá embaixo, Sodoma e Gomorra, fervendo dentro das muralhas. Até parece que desconhecem o meu poder. O que pensam esses infiéis? Dei-lhes tudo, tudo, mas seus muros são cheios de corrupção. Acham que são melhores que eu. Acham que Baal, ora veja, é mais poderoso que eu. Eu que lhes dei a vida, eu que lhes soprei a existência, eu que lhes dei uma terra, que lhes afiei as espadas. E honram sacrifícios aos chicotes de Baal.

Um grande guerreiro de Nínive, Baal, mas fui eu quem comandei suas tropas, disse Elohim.

– Sim, vejo, disse Abrão.

Abrão pensava nas ovelhas, cordeiros e carneiros que vendia aos sodomitas e gorromitas. Havia se instado nas Terras Altas para fincar uma rota de comércio com o povo daquelas cidades. Sentiu o ódio na voz do grande Elohim e temeu.

– O que vós pretendeis fazer, El Shadai?, disse Abrão.

– Sodoma e Gomorra, nesta festa depois da batalha contra os enlitas, digo-te, Abrão, arderão nas chamas de mil danações. E minha palavra é A Palavra. O meu sopro é O Sopro. Minha decisão é Suprema.

Abrão tremia diante daquele homem gigantesco. Sua voz era como o trovão, seus olhos como relâmpagos, suas mãos, clavas pesadas.

– Senhor, disse, mas, e o povo das cidades?

– Morrerão todos em lava e enxofre, riu Elohim. Samael e Lucibel riram junto.

Abrão mordiscara o lábio inferior diante daquelas risadas. Era risos crueís, sanguinários. Olhou para as cidades, vendo a luz das festas alcançando os céus naquele fim de tarde.

– Senhor, mas, e os inocentes daquelas cidades?, questionou Abrão.

Elohim ainda ria.

– Ora essa, respondeu irônico, vejam, Samael e Lucibel, a inocência dos pastores! hahahaha

Samael e Lucibel abriram seus belos rostos em sonoras gargalhadas.

– Claro que não há inocentes, sentenciou Elohim, parando de rir. Seus servos também pararam, de súbito.

Abrão ficou em silêncio por um minuto. Refletia sobre aquilo. Suas maiores fontes de riqueza iriam ruir pelas mãos implacáveis de Elohim e ele nada podia fazer a respeito. E o senhor havia prometido que voltaria ao mesmo local de seu acampamento atual daqui a um ano. Como sobreviveria sem o comércio com os sodomitas e gomorritas? Pensou nos seus pares, em sua velha esposa Sarai, na gravidez enfeitiçada que Elohim prometera para ela mais cedo. Precisava tentar converser o mestre em declinar sua decisão.

– Senhor, disse, mas, não querendo desafiar vossa autoridade, e se existirem cinquenta inocentes dentre todos em Sodoma, destruiríeis ainda assim, vós, aquela cidade?

Elohim abrira novamente um sorriso diante de Abrão.

– Como assim, ancião?

Abrão tomara coragem.

– Proponho o seguinte, ó senhor dos exércitos, criador dos céus e da terra, mandeis vossos servos Samael e Lucibel para Sodoma. Se lá houver cinquenta inocentes, peço-vos que poupe as cidades do cruel destino que traçastes…

El Shadai olhou para Abrão com ternura.

– Faço-te melhor proposta, disse Elohim, Se existirem cinco, apenas cinco sodomitas inocentes, poupo as cidades da destruição.

Abrão abriu, dessa vez, um sorriso franco. Não se enganara. O senhor era misericordioso e bom. Não é possível que não haja cinco pessoas boas em Sodoma. Esta batalha ele, o velho Abrão, havia vencido.

***

Loth reconhecia, mesmo à distância, aquelas silhuetas. Engoliu em seco ao ver a figura do mais alto dos homens ali em cima. Ao lado da figura mais alta, um homem curvado, numa túnica escura. Era o mestre Abrão, ao lado do senhor dos exércitos. Os havia encontrado mais cedo nas Terras Altas. Voltara à Sodoma porque sentira que precisava voltar. Pra que ainda não sabia. Algo grande, e não era a vitória sobre os enlitas, estava para acontecer.

Tinha tanta atenção nas figuras lá em cima que não se importava mais com o barulho que vinha dos portões. O fato é que ter novamente o Mestre El Shaday, Ywh, sob suas vistas era um momento sublime.

Percebeu então que as outras duas figuras de branco desciam a encosta. Vinham em passos lentos, em direção a Sodoma. Era isso. Montou seu jerico e foi em direção aos homens que desciam.

– Não!, distinguiu-se lá fora uma voz, não queremos essas duaas ordinariazinhas! Traga aqui fora teus visitantes, para que os conheçamos!

A gritaria tornou-se infernal.

Samael e Lucibel, que estiveram inertes por todos esses minutos, entreolharam-se. Lucibel passou pela família de Loth, postou-se diante da porta e a abriu.

Uma luz, visível apenas aos que lá fora estavam, cegou a todos os homens que clamavam pelos corpos de Samel e Lucibel.

Os gritos, antes de euforia, tornaram-se brados pavor. Crianças, que acompanhavam o cortejo dos guerreiros aos estrangeiros, tão estranhos, foram pisoteadas. Muitos morreram naquelas trevas, criadas tão rapidamente por Lucibel, por meio daquela luz.

Loth, Bina e as filhas pararam, atônitos. Lucibel fechou a porta e Samael, num sorriso angélico, disse, calmamente:

– Loth, somos emissários de Ywh. Nosso senhor não tem andado satisfeito com a corrupção do povo dessa cidade, nem de sua vizinha, Gomorra. Fomos mandados para cá para verificar se aqui, nesta cidade, havia pelo menos cinco inocentes pelos deveríamos poupar estas cidades. Mas desde que chegamos aqui, perseguidos por estes infiéis, percebo que apenas tu, tu e tua família, quatro pessoas, são dignos da piedade do senhor.

Bina observava Loth conversar com os estrangeiros. Eram homens belos, de gestos delicados e vozes suaves, que já tinham demonstrado do que eram capazes de fazer quando contrariados. Eram homens perfeitos: belos, altivos, nobres e fortes. Uma espécie de febre começara a percorrer seu corpo. Percebera que Faiga e Asisa olhavam, curiosas, para os dois homens. Tudo, de repente, começou a girar ao redor dela. Loth sentara no chão, enquanto os dois estranhos permaneciam de pé. Faiga e Asisa, de repente, começaram a se despir.

Algo muito estranho estava acontecendo com Bina. O calor agora era insuportável. Precisava se livrar de sua túnica, senão sua pele iria queimar. Tirou-a rapidamente, deixando-a escorregar pelo seu corpo. Já tinha mais de quarenta, mas ainda tinha encantos. Seus seios eram firmes e suas nádegas, rígidas. Tinha pernas tão ou mais voluptuosas que as de suas filhas, e seu rosto ainda era belo. Não reparara, antes, o quanto era bonita. Mesmo depois de tantos filhos, sete, todas mulheres.

Faiga e Asisa foram até o pai, Loth, que também estava nu, o membro rígido. Bina sentiu uma vontade avassaladora de abocanhar aquele membro. As duas meninas foram ao pai e o abraçaram. Bina também foi. Samael e Lucibel apenas olhavam.

***

Loth, esposa, filhas e os dois estrangeiros foram nas casas das outras filhas de Loth e Bina. Mas não havia ninguém. Todos estavam na grande orgia que ocorria no centro de Sodoma. Caminharam até lá, e avistaram os corpos, homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, todos fodendo, aos gritos. O vinho escorria pelo chão, deixando o chão arenoso uma papa roxa. O palácio de Baal, no lado oposto, estava repleto de cadáveres pendurados. No parapeito, um jardim suspenso imponente e majestoso, o rei Enqui e a família real, numa orgia bizarra. A filha caçula do rei, de oito anos, defecava nos seios da velha mãe do rei, que espalhava a merda por eles. Enqui lambia as fezes nos seios de sua mãe e beijava a boca de seu irmão, Anu. O povo, embaixo, fazia coisas parecidas. Sangue, mijo, merda, pus, vômito, esperma, os fluidos mais diversos passavam de boca em boca, de pênis em pênis, vagina em vagina, ânus em ânus. Cabeças de bebês eram cortadas, para que as mulheres lubrificassem seus corpos com sangue. Pênis e clitóris eram arrancados às dentadas. Chicotes estalavam no ar, nas costas nuas dos mais de vinte mil brincantes.

Loth e os outros desistiram de procurar os parentes em meio a tanta bagunça e tanta gente. Não havia mais tempo a perder.

– Onde estão os estrangeiros?, atentou Loth, para Bina.

Haviam sumido.

***

Abrão ainda esperava, junto com Elohim, o retorno dos dois servos. Evitava olhar para o seu senhor, mas sentia que a presença dele estava mais pesada. Olhou para as duas cidades à noite e imaginou o que ocorria por dentro daqueles muros.

É AGORA!

Elohim, com sua voz de trovão, quase matou Abrão de susto. Nisso, o velho tomara coragem para observar o seu senhor. Os olhos brilhavam como duas labaredas, o sorriso era diamantes enfileirados a receber os raios do sol. Nunca vira algo daquela espécie. Elohim havia se tornado uma figura bizarra e medonha. Um medo profundo se abatera sobre Abrão. Virou o rosto para a planície e viu as primeiras bolas de fogo caindo sobre as cidades.

**

Loth, mulher e filhas correram o mais rápido que puderam para os portões de Sodoma. O fogo e o enxofre já tomavam conta do lugar. Homens, mulheres, e crianças. Tochas de carne e sangue. Por onde olhavam havia o horror. Um horror muito maior do que qualquer um já imaginara. Corriam por suas vidas. Eram tementes à Ywh, não mereciam aquele destino.

Correram por vielas de escombros e cadáveres. As chamas eram altas como palácios, poderosas como deuses. Chegaram aos portões, mas eles estavam fechados.

Loth, chorando, para os céus: – Ó, senhor, por quê?!

Bina observava seu marido, desesperada. Ywh, deus, o senhor, era realmente poderoso. Todo aquele caos era a prova. O temor, era isso que todos precisavam ter, o temor. Ywh, El Shaday, não era qualquer um. Era o senhor dos exércitos! Jeová, Ywh, Yawe! Postou-se de joelhos ante o portão fechado. Loth e suas filhas, agarradas a ele, seguiram seu exemplo.

As portas abriram lentamente, deixando um espaço mínimo para que passasse a família. Levantaram-se rápido e correram em direção à liberdade, quando dois cães enormes apareceram junto deles.

– Vão! Para as Terras Altas, latiu um deles, Não era para vós terdes saído, mas Ywh demonstrou misericórdia convosco.

Loth e sua família seguiram adiante, enquanto um dos cães ainda latia:

– NÃO OLHEM PARA TRÁS, OU TERÃO UM DESTINO PIOR QUE O DESSAS PESSOAS!

***

Muito minutos que eles corriam. Bina não aguentava mais. Uma mulher não podia, quase nunca, dirigir-se ao seu homem, mas era uma situação excepcional, não se aguentava. havia de subverter as leis de deus, seria perdoada.

– Para onde vamos?, perguntou a Loth.

– Não sei, respondeu ele, não se importando com o pecado da esposa. O mensageiro disse que devíamos ir para as Terras Altas, mas não há como com esse fogo na planície.

– Então, o que faremos, ela perguntou.

– Penso em dormir em Zoar, disse Loth, finalmente.

– Zoar? Mas a cidade está cheia de cadáveres!, gritou Bina.

Faiga e Asisa observaram a mãe, espantadas.

Loth desferiu um tabefe na orelha de Bina. Acertou-lhe um soco no rosto, e o sangue escorreu do nariz dela, que despencou no chão.

– Infiel!, disse Loth, Dirige-se a mim de forma tão insolente e ainda por cima grita?! Cadela, bruta! Inferno para você!

Escarrou em cima de Bina. As filhas, abraçadas ao pai, fizeram o mesmo. Loth espancou Bina com muitos chutes no rosto e na barriga, depois voltou-se para as filhas:

– Vamos! Deixemos esta prostituta aos abutres! Ywh, nosso senhor, Elohim, que cuide do destino dessa infiel!

Então foram a passos rápidos em direção aos destroços de Zoar, enquanto Bina jazia no chão, tossindo sangue.

***

O hálito de fogo tocava seu rosto. O som dos gritos dos condenados empurrava-se pra dentro de seus ouvidos. O calor do inferno acariciava seus ombros.

Bina abriu os olhos.

Não havia mais sinal de Loth ou de suas filhas. Não queria ir para Zoar, pois se Loth a visse, matava. Não sabia o que fazer. Um medo profundo tomou conta do seu coração.

Lembrou-se do que ocorrera em sua casa, mais cedo. Os servos de Elohim tinham enfeitiçado a família.

– É preciso que conheçam o pecado, disse Samael.

Então um calor tomara conta de seu corpo. Ela, as filhas e Loth fizeram sexo com avidez. Gozou no pênis do seu marido e nas línguas e dedos das filhas, enquanto era sodomizada. Ajudou Loth a deflorar as duas, pela frente e por trás. E engoliu todo o esperma do pênis do marido, que havia passado da boca de Asisa para a de Faiga e, finalmente, para a sua.

– Agora podemos ir. Sodoma ruirá, disse Lucibel.

Um arrependimento pesado caíra sobre o espírito de Bina. Fora enfeitiçada por aqueles estrangeiros, servos de Elohim, e tinha certeza de que eles eram os cães que os haviam orientado nos portões de Sodoma. Uma revolta tomou conta de Bina que, mesmo dolorida e ensanguentada, usou de toda força para levantar-se. Vingar-se-ia daqueles malditos servos de Elohim, Samael e Lucibel. Era preciso. De algum modo, eles quem acabaram com sua vida, com a cidade, com a paz que existia. Teve medo de Elohim e dos novos tempos que ele traria para o mundo. Os homens sempre foram perdidos, tinha noção, mas sob o domínio dele, seria muito pior, tinha certeza.

Precisava fazer algo quanto a isso.

Voltou-se para a cidade em chamas. Viu as muralhas caírem, enfraquecidas, sob as montanhas de fogo. Nos céus, um par de olhos, duas estrelas lançando dois relâmpagos. O sol espreitando de leve no horizonte. Um horror extremo passou por sua cabeça. Queria voltar-se, mas não podia. Não conseguia se mexer. Até que tudo escureceu.

Virara uma estátua de sal, que se desfez ao primeiro hálito morno que a brisa trouxe naquela manhã que começava.

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Contos

Tapa-olho

Saí da taverna com os pés escorregando no vinho. Dez marujos vinham de punhal em mãos, aos meus calcanhares. Transformei-me em nuvem depois em gato então eles estremeceram diante do meu sorriso. Não podia fazer nada contra eles, bem visto, porém este tipo de coisa sempre mantinha distantes os perseguidores.

Minha mãe era uma bruxa e meu pai, dizia ela, belzebu. Não tenho cara de hebreu, mas mamãe era negra, azul e cinza, nas partes corretas. Lembro de suas íris e seu olhar de gata cega enquanto me amamentava.

Mas isso é de um tempo triste e distante, em outras terras. Agora, sangro. Lá, entre os dez, tem um com meu olho esquerdo espetado na lâmina sangrenta. Dor não sinto, não é isso. É ser ferido. Eu. Logo eu.

Não tenho Holandês Voador nem Triângulo das Bermudas, mas a cor da minha barba é conhecida em todos os mares.

Caminho ainda etéreo para minha nau, uso a órbita vazia como bainha pra minha adaga de rubis. No convés acendo meu cachimbo e plano com o espírito de todas as gaivotas mortas seguindo o cheiro das cascas de ovos rompidas pelos atobás.

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Contos, Papo furado, Poeminhas

Decepção

o homem que vou matar
senta do meu lado no ônibus
eu estava no fundo
e percebi: ele era estranho
o homem que eu vou matar
se aproximava demais
meu canivete
na mochila
abri-o
e o segurei dentro da bolsa
enquanto lia on the road
e carlo marx esperava
dean e sal paradise
em nova york
enquanto eu espreitava
no canto do olho
qualquer movimento
do homem que vou matar
uma única desculpa
pra cortar sua glote
vê-lo gorgolejar seu sangue
espirrar no meu livro
deixar minhas roupas e o chão
avermelhados
e eu saboreando aquelas duas palavras mágicas:
legítima defesa
legítima defesa
legítima defesa
overkill? desespero
eu seria assaltado
arma branca? preciso pra minhas aulas
riscar rochas e etc
desculpa perfeita
mas o homem que vou matar
não se mexe mais que alguns centímetros
para lá e para cá
ódio mortal
do homem que vou matar
seguro o cabo da faca
e espero
qualquer movimento brusco
tiro a mão de dentro da mochila
num relâmpago
e menos um pescoço inteiro no mundo
mas o homem que vou matar se levanta
calmamente
pede parada
vai embora
e mais uma vez
as circunstâncias
vencem minha sede de sangue
merda
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