Contos

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Obviamente ele não sabia o que esperar. Deixou-se levar pela madrugada. Aquele frio na espinha que todos nós sentimos, amigo leitor, aquele calafrio que dá quando estamos sozinhos andando à noite pelas ruas fedorentas da cidade. Só – ele e Deus. O rio reflete as sombras, alguns cracudos andando, outros dormindo, gente passando a conta gotas, o amor é somente uma gosma naqueles baixos meretrícios. E lá vai o nosso herói andando ao redor do rio, sem saber o que esperar da vida.

Ele pensa que talvez um taxi passe, ou alguém lhe pergunte as horas, ou alguém tentaria assaltá-lo. Estava meio bêbado, uma garrafa de vinho vagabundo na mão esquerda, uma pedra invisível no pescoço ao atravessar a ponte entre goles. A bexiga apertada, enquanto o céu enganava um azul bem mequetrefe, céu sem lua, uma garça fedorenta balança as asas e nenhum pio de coruja.

Por que esse azul escroto? – questionou nosso herói, enquanto o dia tomava forma. Não sabemos, nem podemos te responder, cara. Continua teu vagar.

E lá vai ele, já do outro lado, entre estátuas, árvores, poças e buracos. A calçada mais bonita do mundo, toda fodida. Nosso herói samba entre a merda e joga a garrafa no rio. Estava amanhecendo. Parou num poste em frente à livraria. Bem, nessas horas que se foda a metafísica. Esperou um táxi, qualquer merda mesmo. Tava a fim de ir pra casa.

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