Contos

piadas de caserna


O general estava sempre cavalgando seu corcel ao redor da base e nunca falava com ninguém. Apenas dava voltas e ficava observando o comportamento de todos com seu olhar reprovador e semblante carrancudo. Às vezes algo dava errado – o que nós nunca sabíamos direito o que tinha sido – e ele mandava chamar alguém à sua barraca até que mais tarde o pelotão de fuzilamento estava pronto e tínhamos que cumprir nosso papel. Mas eram poucas as vezes em que isso acontecia, afinal não podíamos gastar munição com nossos companheiros tanto assim, de modo que tínhamos uma grande liberdade no acampamento. Passávamos a maior parte do tempo jogando cartas, esperando o chefe do Rancho trazer mais cigarros, vinho e álcool em barra para esquentarmos as latas de feijão e a água para o café.

Os dois capitães às vezes saíam voluntariamente da roda de cartas e iam até à barraca do general – que não era mesmo um general, mas um major – e voltavam com missões para nós. Isso não costumava se repetir muito nos últimos dias e a ideia de pegar nossos rifles, pistolas, facas, mantimentos e partir floresta adentro até uma cidade pequena ou vilarejo  saquear, matar, trocar tiros com inimigos até a morte nos entediava. Quando saíamos em missão o general ficava em seu corcel nos observando, fumando um charuto, com sua pistola prateada, talvez num gesto que considerava como fonte de bons fluídos e boa sorte para nós, mas não havia como saber suas intenções, pois ele nunca falava com ninguém.

Uma noite fui em missão com um companheiro que chamávamos de rato. Rato e eu tínhamos que seguir dois quilômetros a sudoeste do posto 14 e cortar todos os fios que encontrássemos em meio às árvores. Mais meio quilômetro adiante havia um pequeno acampamento onde alguns fugitivos civis se escondiam. Lá eles não tinham muitos mantimentos, mas como eram fugitivos parte do nosso dever era fazer de suas vidas um pequeno inferno. Fomos. Levamos cada um uma granada, uma pistola de 15 tiros, fósforos e nossos punhais de lâminas de 20 centímetros cada. Era uma missão difícil, por isso quanto menos soldados envolvidos, melhor, para não chamar a atenção das tropas inimigas, que poderiam a qualquer momento atacar nossa base.

A parte de cortar os fios foi fácil, apesar de nossa curta caminhada ser chata e cansativa porque tínhamos que subir nas árvores a cada som suspeito que ouvíamos, e numa guerra qualquer barulho pode significar a morte chegando, certa, com seus dentes afiados e sua baba ácida. Encontramos alguns cabos e os cortamos com nossos punhais. Rato trouxera uma garrafa de aguardente e bebemos um pouco depois de terminarmos de cortar os fios.

Enquanto seguíamos ao encontro dos fugitivos ele me confessou que traficava maconha antes da guerra. Que vendia a estudantes universitários e que era um jeito tranquilo de ganhar uns trocados porque ele tinha cliente certos e de boa família. Disse a ele que eu limpava piscinas e ele me deu mais um pouco de aguardente, até que começamos a andar mais devagar e com os ouvidos mais abertos, sem falar. O acampamento de fugitivos nada mais era que uma pequena barraca de camping com brasas de fogueira, a fumaça subindo, branca, em frente, numa minúscula clareira no meio do mato. Fomos até lá devagar e sacamos nossas pistolas, eu parei na frente e rato do lado direito. Demos alguns tiros e algumas coisas gritaram lá dentro, então abri a barraca com meu punhal e pude ver que a barraca abrigava uma família, homem, mulher e um bebê entre os dois. O homem estava com muito sangue no peito e balbuciava algo virando a cabeça pra lá e pra cá. A mulher segurava um rifle, mas ela tremia tanto que só conseguiria atirar quando amanhecesse. O bebê chorava. Rato pegou o bebê e deu um tiro na cabeça do homem agonizante. Arrastei a mulher para fora e a joguei no chão. Com meu punhal rasguei seu vestido. Ela sangrava do braço direito e tinha um corte profundo na barriga. Passei um pouco de sangue na sua vagina e a estuprei, dando de vez em quando socos em sua cara para que se acalmasse. Rato tinha dado alguns chutes no bebê, que não mais chorava. Então ele desperdiçou o restante de aguardente no corpinho imóvel e acendeu um fósforo. Gozei dentro da mulher, que chorava baixo, e me levantei. Rato saiu de junto da bolinha de fogo e veio estuprar a mulher também. Dessa vez ela não gritou. Até gemeu. Acho que gostou. Levamos a mulher como prisioneira, mas ela não aguentou caminhar muito então rato cortou a garganta dela e voltamos à nossa base lamentando ter estragado a aguardente toda.

Outro dia, rato foi à barraca do general e horas mais tarde gastávamos algumas balas com ele em mais um daqueles pelotões de fuzilamento que só serviam para que gastássemos nossa munição à toa.

Ultimamente vínhamos jogando muito pôquer, e apostávamos cigarros, sendo que uma vez fiquei devendo quatro maços ao sargento e o chefe do Rancho disse que estava estritamente proibido de aumentar minha ração para mais de dois maços por semana. O sargento, que chamávamos de tampa, resolveu então que eu o pagaria deixando que ele me desse doze socos na cara, três para cada maço de cigarros. Aceitei, perdendo todos os dentes da frente e a visão do olho esquerdo, o que realmente me atrapalhava quando tinha que usar o rifle. O general viu toda a cena rodeando a base em cima de seu corcel e acho que foi uma das poucas vezes em que tive a impressão de o ver sorrindo, apesar deu estar ocupado demais cuspindo sangue para ver qualquer coisa ao meu redor.

Uma vez o diabo em pessoa, com cascos, chifres, tridente e cheiro de enxofre, veio desafiar-nos no pôquer. O general ficou bravo com a presença de lúcifer e desmontou do corcel para se enfurnar em sua barraca, de modo que os dois capitães foi que tiveram que ouvir o que satanás tinha para dizer. E ele disse que queria nossas almas caso perdêssemos, o que aceitamos de cara. Foi um jogo emocionante, mas o diabo acabou perdendo um dos chifres para o chefe do Rancho e como não tinha charutos para dar ao sargento, teve que pagar levando dezesseis socos no rosto. Nunca mais ele voltou.

Comíamos feijão e era uma manhã de sol quando o chefe do Rancho e um dos capitães trouxeram um prisioneiro da floresta. Disseram que se tratava de um major inimigo, e o general montado no corcel veio para junto do prisioneiro para vê-lo melhor. Fiquei incumbido de amarrá-lo a uma grande tora de madeira e de meia em meia hora bater-lhe com uma barra de ferro nas pernas. No começo achei divertido levantar da mesa de carteado e bater no major inimigo, mas depois minhas mãos começaram a criar calos e ele não gritava mais de dor, apesar de ainda estar vivo. Depois da oitava surra que apliquei nele preparei uma caneca de café bem preto para aguentar melhor fazer o meu serviço. Tomei alguns goles de vinho também. Depois da décima surra as pernas dele não pareciam mais pernas, então perguntei a um dos capitães se eu poderia bater mais em cima. O capitão viu o estado das minhas mãos e disse que eu já tinha feito um ótimo trabalho e que poderia jogar minhas cartas e descansar. Um soldado que chamávamos de pudim ficou no meu lugar com as surras e depois eu soube ele tinha que bater nos braços do major inimigo.

Certo dia eu estava bêbado e estava brigando com um soldado que chamávamos de sarampo quando vimos um clarão seguido de um grande barulho. Uma enorme explosão vinda da parte sudoeste à nossa base fazia subir uma coluna gigantesca de fogo, a qual olhamos assustados enquanto pegávamos nossos rifles e o maior número de mantimentos possível para fugir dali. O general estava em sua barraca e saiu fulo da vida com a confusão, mas mesmo assim ninguém ouviu sua voz. O corcel estava amarrado ao lado da barraca, agitado, empinando as patas dianteiras e relinchando. Esperamos alguns minutos até o general acalmar o cavalo e um dos capitães foi para junto dele, para receber ao ouvido a ordem. O general queria que ficássemos a postos mas sem sair da base. Eu estava com os dois olhos abertos e o rifle apontando para a direção sudoeste. Era muito ruim usar o rifle sendo cego de um olho. Tive a oportunidade de reaprender a atirar quando fuzilei um grupo de civis que tínhamos recolhido de um outro refúgio, bem maior e organizado. Era um grupo de crianças em torno de nove anos de idade, e foi muito difícil pegar a prática de acertar bem no meio da testa, de modo que tive que matar umas doze para pegar novamente o jeito. Todos estávamos alertas esperando as tropas inimigas finalmente virem ao nosso encontro. Ficamos assim por horas, mas nada veio. Aos poucos fomos relaxando nossas posições e o general subiu novamente em seu corcel para rondar a base. Sarampo e eu esquecemos nossa briga, mas quando relembramos já estávamos com o sangue frio.

São recordações que guardamos dentro do coração. Um dia as tropas inimigas finalmente vieram, e desde então nunca mais tivemos paz.

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