Contos

Dia de caça


O coletor A2-SXS, como um falcão, adejava o ar com cheiro de ovos podres acima das ruínas que brilhavam intensamente, num dourado ofuscante e opressor. Se ele pudesse captar os sons externos, a despeito do paramento que o protegia da alta concentração de H2S, ouviria o chiar constante dos toneis de combustível enterrados abaixo da há muito inabitada Tóquio.

No peito de Tóquio chorava um blues, diria alguém do século XX. O coletor analisava minuciosamente a superfície em busca de duendes.

Os duendes vieram com o gás, quando os grandes reservatórios vazaram. E tudo a ver com o século XX, onde a síntese de ouro estava em alta. Com o grande vazamento de 1983, e a consequente morte de todos os alquimistas japoneses, as grandes Torres de Alimentação e Síntese explodiram em uníssono, sendo o som mais alto já registrado no planeta até então. O metal fumegante voou e cobriu toda a superfície da cidade, e quem não morreu queimado e mumificado pelo ouro, morreu intoxicado pelo gás sulfídrico que vazava de todos os poros da terra.

Mas os espíritos das matas são imortais. Atraídos pelo ouro em abundância, atravessaram os oceanos em cima de suas mães d’água para conseguir o seu quinhão.

O ouro, após tantos anos da era sintética, era obsoleto para os homens. Aquele planeta tóxico quase não interessava ao restante da humanidade, na base lunar. Mas a caça, com a morte total da fauna não humana, era moda. E os únicos seres que se mostravam naquele planeta falecido eram os duendes, refestelando-se no ouro abaixo das nuvens de ácido sulfúrico e tempestades dignas de Vênus.

O coletor A2-SXS voejava por entre os trovões. Já estava ali há duas horas e sabia que não restava mais do que vinte minutos para que precisasse retornar à nave e renovar a camada de proteção do traje.

Acelerou e percebeu um duende negro, nu em pelo, como eles ficavam em Tóquio,  em cima de um ônibus fóssil dourado. Tinha que ser rápido, então ajustou o lança-redes acoplado a seu braço esquerdo à potência 80, o direcionou e disparou. O duende negro se debateu a princípio, mas a malha da rede era de um material fino e resistente, então ele parou de se mexer quando sua pele começou a sangrar. O coletor carregou a rede com sua caça pelos ares e, um pouco mais ao sul, adentrou sua nave.

Depois da desinfecção, o duende foi guardado numa pequena jaula de ouro onde havia sido deixado um pouco de frutas frescas, fabricadas na cozinha da nave. O pequeno duende começou a comer imediatamente, afinal há anos, desde a morte severa das árvores, não comia frutas frescas. O coletor A2-SXS, sentado em uma poltrona de feltro azul manejando uma taça de vinho tinto, observava sua nova aquisição, satisfeito.

O duende comeu todas as frutas, que estavam cortadas em cubos, e soltou um arroto fino. Depois se agarrou a um lingote de ouro que estava dentro da jaula e dormiu, serenamente, afinal a única coisa que pode deixar um duende tranquilo é uma boa quantidade de ouro.

O coletor terminou seu vinho e foi até um painel na nave, em outro compartimento, onde inicializou o processo de dissecação e curtume.

O pequeno duende negro foi agarrado por garras mecânicas e estripado por um braço robô de ponta afiada e cortante como um bisturi. Deu um grito fino enquanto suas pequenas tripas escorreram moles por fundo da jaula, e sua pele foi posta ao contrário pelas garras que o seguravam, com o bisturi mecânico desfiando os músculos, extraindo, assim, o esqueleto sem desmontá-lo, com perfeição. O cérebro ainda dentro do crânio, os olhos ainda mexendo. As tripas e os músculos foram engolidos por um buraco que se abriu no fundo da jaula de ouro. Um outro braço mecânico, de ponta fina, extraía o cérebro do duende, depois de furar os olhinhos e puxá-los, com acurácia.

A pele foi mergulhada numa solução salina num compartimento no fundo da jaula; depois, secada rapidamente, envernizada, e expelida para uma câmara de aquecimento.  O esqueleto, após a extração de todo o seu conteúdo e limpeza, também foi mergulhado na solução, secado e envernizado, porém foi envolvido numa redoma de plástico transparente, que foi preenchida com silicone e uma base colada em seu fundo.

O coletor A2-SXS aguardou 40 minutos e foi até a jaula. O esqueleto e a pele já estavam preparados. Gravou um nome numa placa de prata no suporte do recipiente onde estava o pequeno esqueleto do duende e puxou uma tela onde estava estendida a pequena pele, agora desidratada e com uma boa aparência.

A nave, após as 4 horas de viagem habituais, se acoplou, automaticamente, à Base Lunar XIX, setor IV, compartimento SXS, onde o coletor morava com sua esposa. A casa do coletor era agradável, e não havia nada muito diferente de uma casa terrestre dos anos 80 do século XX.

Sua esposa, após beijá-lo com ternura, expôs o esqueleto do pequeno duende na estante, e pediu ajuda ao seu marido para pendurar a pele na parede. Um duende negro era uma aquisição e tanto. E trazia boa sorte, dizia o costume, pois a energia vital daqueles pequenos seres se voltava a outras funções, boas, já que não havia mais o que fazer com o corpo completamente mutilado. Os duendes são imortais, mas não podem se mexer sem os músculos, como qualquer um de nós.

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