Contos

O restaurante


A única sugestão é nunca parar de almoçar ou sair. Era simples o lugar: algumas mesas de plástico amarelas, forradas transversalmente por toalhas de plástico quadriculadas em vermelho claro e escuro. Paredes azuis caiadas, a parede esquerda com um calendário de Nosso Senhor MhorramedisTo pendurado e a direita com uma televisão preto-e-branco presa num suporte quase ao teto, ligada no jornal do meio-dia. Duas garçonetes servindo os pratos feitos e uns poucos clientes exibindo nos ombros um tanto caídos e cansados a vitória que tiveram na vida.

2029 foi um ano interessante, dizia a Tv.

Jonas era um desses clientes. Almoçava, e viu descer de dentro das mangas do terno de um velho sentado à mesa ao lado duas mãos delgadas, com unhas longas e os dedos mais finos que ele já tinha visto. Jonas comia macarronada, com bastante molho e almondegas, mas estacou com o garfo a meio caminho da boca quando viu a cena, fazendo o macarrão gorduroso de molho de tomate escorrer de volta para o prato.  O velho, a despeito da deformidade nas mãos e do olhar insistente de Jonas, pegou com habilidade o talher e começou a comer.

O prato do velho se compunha de uma porção pequena de feijão preto, macarrão sem molho, guisado de boi e salada simples, composta por alface, tomate e cebola, mergulhados em vinagre. Gelando, um copo de suco, talvez de laranja, pela cor amarelada do líquido que continha.

Marcela, uma das garçonetes e totalmente alheia à cena que Jonas observava, cambaleou nos sapatos e deixou cair em cima de Silvana, uma cliente que comia duas mesas atrás de Jonas, um prato de almoço. Marcela corou de vergonha e pediu desculpas, totalmente sem jeito. Tão sem jeito que sua língua escorregou da boca e parou no colo de Silvana, que gritou todos os dentes no rosto de Marcela. Diante de tamanha ofensa, Marcela gritou seus dentes também, em resposta. As duas se engalfinharam numa briga barulhenta e espalhafatosa. Os pedaços de ambas – cacos de carne e sangue – caíam às cascatas pelo chão. Pararam por não ter mais o que cair.

Habmael, o cozinheiro, aproveitou para recolher Marcela e Silvana numa panela grande e garantir o guisado de boi – especialidade da casa – do dia seguinte.

Enquanto isso, o velho comia com muito gosto e não parou para olhar para trás ou para os lados uma única vez.  Jonas achava curioso como aqueles dedos finos seguravam com elegância o garfo, e gostava do jeito garboso com que o velho furava os pedaços de carne e os levava à boca, apaixonadamente, mas sem muita efusão.

2029 entrará para a História como o ano em que tudo fez sentido, disse a Tv.

Jonas abaixou a cabeça em direção ao próprio prato e continuou a comer, então. Porém foi mais uma vez interrompido pelos dedos finos do velho, que passaram em frente aos seus olhos e depositaram um guardanapo de papel, dobrado, sobre seu prato cheio. Jonas, pois, olhou novamente para o lado e recebeu em suas retinas a visão de uma piscada de olho do velho. Um velho com a boca gordurosa de feijão e carne. Manuseando o guardanapo de papel e o desdobrando, Jonas percebeu um número de telefone e um nome. O guardanapo absorveu a gordura do macarrão e Jonas usou isto para colá-lo em cima da mesa enquanto assistiu o velho se levantar e sair do restaurante, abrindo caminho por entre a nuvem de poeira que servia de porta. Pôde perceber que as mangas agora cobriam as curiosas mãos do velho, que saiu.

Houve um estrondo.

Um estrondo. E o velho voltou, atirado com força, numa explosão, de volta ao restaurante, derrubando algumas mesas vazias da entrada.  Um corpo ferido e um terno roto, exibindo agora obscenamente as mãos delgadas. Junto com cheiro do novo guisado de boi com os pedaços da garçonete e da cliente, veio Habmael com seu facão e cortou o velho em muitos cubinhos de carne sangrada.

Isso, é claro, serviu de alerta. Nunca pare de almoçar ou saia. Os clientes, já contáveis nos dedos de uma mão, curvaram mais ainda os ombros. Darlene, a outra garçonete, foi ajudar Habmael a recolher os pedaços do velho com uma bandeja de aço inox.

Habmael fitou Jonas, segurando um dos dedos do velho na mão esquerda, e falou serenamente que no peito dos desafinados também bate um coração, entregando o dedo a Jonas.

Este entendeu de pronto, amassou o guardanapo colado em sua mesa, afinal não precisaria mais ligar, e voltou a comer seu macarrão.

2029 não foi apenas um ano, foi um sonho bom que passou, disse a Tv.

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