Contos

Hálito de Fogo


Bina estirava farinha. Suas filhas mais jovens, Faiga e Asisa, a auxiliavam. Desde as horas altas de sol o marido Loth estava fora. A cidade estava em polvorosa. Loth não disse para onde ia, e não era costume dos homens de seu povo travar diálogo com suas mulheres. Ao contrário dos outros homens de Sodoma, Loth tinha sua fé em Ywh, e não em Baal. De certo modo, não importava a ocasião importante que ocorria na cidade. Mas a ela, mesmo tendo forte sua fé em Ywh, se esforçava para satisfazer os grandes guerreiros sodomitas. Vivia ali, era o mais correto a se fazer. Loth era comerciante, havia uma reputação a conservar entre o povo daquela cidade. Mas desde a volta das tropas sodomitas para as muralhas, Loth não estava em casa.

Loth sentado às portas da cidade, ao lado do jerico que o levara para lá, observando o crepúsculo. A balbúrdia que saía dos portões era inquietante. Sodoma havia desolado Zoar, acampamento dos enlitas, povo que havia desafiado a soberania da cidade, ameaçando o rei dos sodomitas, Enqui. A vizinha Gomorra também tomara parte de Sodoma sobre o desafio dos enlitas e se aliou aos sodomitas na batalha. Muitos corpos forravam o chão de Zoar, e os abustres rodeavam os céus do vilarejo. As tropas vitoriosas regressaram para suas respectivas muralhas numa marcha poderosa. Em Sodoma, os homens em festa enchiam a praça da cidade, empunhando vinho, malte, dançando, cantando. O cheiro do assar de duzentos e oitenta e sete carneiros fazendo o ar adquirir sabor.

Loth havia deixado sua mulher, Bina, e suas jovens filhas, Faiga e Asisa, cuidando da casa enquanto esperava ao pé dos portões. O sol já espreitava sob os montes das Terras Altas, indo embora. Ele sabia, era o momento, algo teria de acontecer.

Foi então que ele viu os quatro.

***

As quatro figuras no alto do monte observavam as cidades em festa. Eram quatro homens distintos, três em capas brancas, vestimenta de viajantes ricos, e um vestindo uma túnica de couro de cordeiro, também luxuosa. Um homem alto, com uma barba longa e olhar imponente, se destacava sobre eles. Vestia uma capa muito alva. Seu nome era um mistério. Uns o chamavam Elohim, outros apenas de El. Alguns Yawe, outros Adonai. Não importava. O que era importante é que seu nome, qualquer um deles, impunha um temor abismal nos espíritos que o ouviam. Tudo em relação a esse homem, se é que o podemos chamar assim, era temível, temerário. Seu poder, o qual ele não tinha pudor em demonstrar em atos mesquinhos e crueis, parecia ilimitado.

Junto do homem alto dois outros, mais baixos, servos deste. Tinham um aspecto delicado e rostos bonitos, apesar de, em seus olhares, estar presente uma chama que rescendia homicídios. Seus nomes eram Lucibel e Samael, e eram os servos prediletos e de confiança de Elohim. Vestiam capas iguais a de seu mestre.

Junto com eles, Abrão. Um velho patriarca de um grupo nômade. Seu respeito por Elohim era imenso, sentia por aquele homem alto e forte um respeito, temor e admiração quer eram maiores que seu próprio espírito. Era capaz de qualquer coisa para agradá-lo.

– Vês?, disse Elohim a Abrão, Aquelas cidades lá embaixo, Sodoma e Gomorra, fervendo dentro das muralhas. Até parece que desconhecem o meu poder. O que pensam esses infiéis? Dei-lhes tudo, tudo, mas seus muros são cheios de corrupção. Acham que são melhores que eu. Acham que Baal, ora veja, é mais poderoso que eu. Eu que lhes dei a vida, eu que lhes soprei a existência, eu que lhes dei uma terra, que lhes afiei as espadas. E honram sacrifícios aos chicotes de Baal.

Um grande guerreiro de Nínive, Baal, mas fui eu quem comandei suas tropas, disse Elohim.

– Sim, vejo, disse Abrão.

Abrão pensava nas ovelhas, cordeiros e carneiros que vendia aos sodomitas e gorromitas. Havia se instado nas Terras Altas para fincar uma rota de comércio com o povo daquelas cidades. Sentiu o ódio na voz do grande Elohim e temeu.

– O que vós pretendeis fazer, El Shadai?, disse Abrão.

– Sodoma e Gomorra, nesta festa depois da batalha contra os enlitas, digo-te, Abrão, arderão nas chamas de mil danações. E minha palavra é A Palavra. O meu sopro é O Sopro. Minha decisão é Suprema.

Abrão tremia diante daquele homem gigantesco. Sua voz era como o trovão, seus olhos como relâmpagos, suas mãos, clavas pesadas.

– Senhor, disse, mas, e o povo das cidades?

– Morrerão todos em lava e enxofre, riu Elohim. Samael e Lucibel riram junto.

Abrão mordiscara o lábio inferior diante daquelas risadas. Era risos crueís, sanguinários. Olhou para as cidades, vendo a luz das festas alcançando os céus naquele fim de tarde.

– Senhor, mas, e os inocentes daquelas cidades?, questionou Abrão.

Elohim ainda ria.

– Ora essa, respondeu irônico, vejam, Samael e Lucibel, a inocência dos pastores! hahahaha

Samael e Lucibel abriram seus belos rostos em sonoras gargalhadas.

– Claro que não há inocentes, sentenciou Elohim, parando de rir. Seus servos também pararam, de súbito.

Abrão ficou em silêncio por um minuto. Refletia sobre aquilo. Suas maiores fontes de riqueza iriam ruir pelas mãos implacáveis de Elohim e ele nada podia fazer a respeito. E o senhor havia prometido que voltaria ao mesmo local de seu acampamento atual daqui a um ano. Como sobreviveria sem o comércio com os sodomitas e gomorritas? Pensou nos seus pares, em sua velha esposa Sarai, na gravidez enfeitiçada que Elohim prometera para ela mais cedo. Precisava tentar converser o mestre em declinar sua decisão.

– Senhor, disse, mas, não querendo desafiar vossa autoridade, e se existirem cinquenta inocentes dentre todos em Sodoma, destruiríeis ainda assim, vós, aquela cidade?

Elohim abrira novamente um sorriso diante de Abrão.

– Como assim, ancião?

Abrão tomara coragem.

– Proponho o seguinte, ó senhor dos exércitos, criador dos céus e da terra, mandeis vossos servos Samael e Lucibel para Sodoma. Se lá houver cinquenta inocentes, peço-vos que poupe as cidades do cruel destino que traçastes…

El Shadai olhou para Abrão com ternura.

– Faço-te melhor proposta, disse Elohim, Se existirem cinco, apenas cinco sodomitas inocentes, poupo as cidades da destruição.

Abrão abriu, dessa vez, um sorriso franco. Não se enganara. O senhor era misericordioso e bom. Não é possível que não haja cinco pessoas boas em Sodoma. Esta batalha ele, o velho Abrão, havia vencido.

***

Loth reconhecia, mesmo à distância, aquelas silhuetas. Engoliu em seco ao ver a figura do mais alto dos homens ali em cima. Ao lado da figura mais alta, um homem curvado, numa túnica escura. Era o mestre Abrão, ao lado do senhor dos exércitos. Os havia encontrado mais cedo nas Terras Altas. Voltara à Sodoma porque sentira que precisava voltar. Pra que ainda não sabia. Algo grande, e não era a vitória sobre os enlitas, estava para acontecer.

Tinha tanta atenção nas figuras lá em cima que não se importava mais com o barulho que vinha dos portões. O fato é que ter novamente o Mestre El Shaday, Ywh, sob suas vistas era um momento sublime.

Percebeu então que as outras duas figuras de branco desciam a encosta. Vinham em passos lentos, em direção a Sodoma. Era isso. Montou seu jerico e foi em direção aos homens que desciam.

– Não!, distinguiu-se lá fora uma voz, não queremos essas duaas ordinariazinhas! Traga aqui fora teus visitantes, para que os conheçamos!

A gritaria tornou-se infernal.

Samael e Lucibel, que estiveram inertes por todos esses minutos, entreolharam-se. Lucibel passou pela família de Loth, postou-se diante da porta e a abriu.

Uma luz, visível apenas aos que lá fora estavam, cegou a todos os homens que clamavam pelos corpos de Samel e Lucibel.

Os gritos, antes de euforia, tornaram-se brados pavor. Crianças, que acompanhavam o cortejo dos guerreiros aos estrangeiros, tão estranhos, foram pisoteadas. Muitos morreram naquelas trevas, criadas tão rapidamente por Lucibel, por meio daquela luz.

Loth, Bina e as filhas pararam, atônitos. Lucibel fechou a porta e Samael, num sorriso angélico, disse, calmamente:

– Loth, somos emissários de Ywh. Nosso senhor não tem andado satisfeito com a corrupção do povo dessa cidade, nem de sua vizinha, Gomorra. Fomos mandados para cá para verificar se aqui, nesta cidade, havia pelo menos cinco inocentes pelos deveríamos poupar estas cidades. Mas desde que chegamos aqui, perseguidos por estes infiéis, percebo que apenas tu, tu e tua família, quatro pessoas, são dignos da piedade do senhor.

Bina observava Loth conversar com os estrangeiros. Eram homens belos, de gestos delicados e vozes suaves, que já tinham demonstrado do que eram capazes de fazer quando contrariados. Eram homens perfeitos: belos, altivos, nobres e fortes. Uma espécie de febre começara a percorrer seu corpo. Percebera que Faiga e Asisa olhavam, curiosas, para os dois homens. Tudo, de repente, começou a girar ao redor dela. Loth sentara no chão, enquanto os dois estranhos permaneciam de pé. Faiga e Asisa, de repente, começaram a se despir.

Algo muito estranho estava acontecendo com Bina. O calor agora era insuportável. Precisava se livrar de sua túnica, senão sua pele iria queimar. Tirou-a rapidamente, deixando-a escorregar pelo seu corpo. Já tinha mais de quarenta, mas ainda tinha encantos. Seus seios eram firmes e suas nádegas, rígidas. Tinha pernas tão ou mais voluptuosas que as de suas filhas, e seu rosto ainda era belo. Não reparara, antes, o quanto era bonita. Mesmo depois de tantos filhos, sete, todas mulheres.

Faiga e Asisa foram até o pai, Loth, que também estava nu, o membro rígido. Bina sentiu uma vontade avassaladora de abocanhar aquele membro. As duas meninas foram ao pai e o abraçaram. Bina também foi. Samael e Lucibel apenas olhavam.

***

Loth, esposa, filhas e os dois estrangeiros foram nas casas das outras filhas de Loth e Bina. Mas não havia ninguém. Todos estavam na grande orgia que ocorria no centro de Sodoma. Caminharam até lá, e avistaram os corpos, homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, todos fodendo, aos gritos. O vinho escorria pelo chão, deixando o chão arenoso uma papa roxa. O palácio de Baal, no lado oposto, estava repleto de cadáveres pendurados. No parapeito, um jardim suspenso imponente e majestoso, o rei Enqui e a família real, numa orgia bizarra. A filha caçula do rei, de oito anos, defecava nos seios da velha mãe do rei, que espalhava a merda por eles. Enqui lambia as fezes nos seios de sua mãe e beijava a boca de seu irmão, Anu. O povo, embaixo, fazia coisas parecidas. Sangue, mijo, merda, pus, vômito, esperma, os fluidos mais diversos passavam de boca em boca, de pênis em pênis, vagina em vagina, ânus em ânus. Cabeças de bebês eram cortadas, para que as mulheres lubrificassem seus corpos com sangue. Pênis e clitóris eram arrancados às dentadas. Chicotes estalavam no ar, nas costas nuas dos mais de vinte mil brincantes.

Loth e os outros desistiram de procurar os parentes em meio a tanta bagunça e tanta gente. Não havia mais tempo a perder.

– Onde estão os estrangeiros?, atentou Loth, para Bina.

Haviam sumido.

***

Abrão ainda esperava, junto com Elohim, o retorno dos dois servos. Evitava olhar para o seu senhor, mas sentia que a presença dele estava mais pesada. Olhou para as duas cidades à noite e imaginou o que ocorria por dentro daqueles muros.

É AGORA!

Elohim, com sua voz de trovão, quase matou Abrão de susto. Nisso, o velho tomara coragem para observar o seu senhor. Os olhos brilhavam como duas labaredas, o sorriso era diamantes enfileirados a receber os raios do sol. Nunca vira algo daquela espécie. Elohim havia se tornado uma figura bizarra e medonha. Um medo profundo se abatera sobre Abrão. Virou o rosto para a planície e viu as primeiras bolas de fogo caindo sobre as cidades.

**

Loth, mulher e filhas correram o mais rápido que puderam para os portões de Sodoma. O fogo e o enxofre já tomavam conta do lugar. Homens, mulheres, e crianças. Tochas de carne e sangue. Por onde olhavam havia o horror. Um horror muito maior do que qualquer um já imaginara. Corriam por suas vidas. Eram tementes à Ywh, não mereciam aquele destino.

Correram por vielas de escombros e cadáveres. As chamas eram altas como palácios, poderosas como deuses. Chegaram aos portões, mas eles estavam fechados.

Loth, chorando, para os céus: – Ó, senhor, por quê?!

Bina observava seu marido, desesperada. Ywh, deus, o senhor, era realmente poderoso. Todo aquele caos era a prova. O temor, era isso que todos precisavam ter, o temor. Ywh, El Shaday, não era qualquer um. Era o senhor dos exércitos! Jeová, Ywh, Yawe! Postou-se de joelhos ante o portão fechado. Loth e suas filhas, agarradas a ele, seguiram seu exemplo.

As portas abriram lentamente, deixando um espaço mínimo para que passasse a família. Levantaram-se rápido e correram em direção à liberdade, quando dois cães enormes apareceram junto deles.

– Vão! Para as Terras Altas, latiu um deles, Não era para vós terdes saído, mas Ywh demonstrou misericórdia convosco.

Loth e sua família seguiram adiante, enquanto um dos cães ainda latia:

– NÃO OLHEM PARA TRÁS, OU TERÃO UM DESTINO PIOR QUE O DESSAS PESSOAS!

***

Muito minutos que eles corriam. Bina não aguentava mais. Uma mulher não podia, quase nunca, dirigir-se ao seu homem, mas era uma situação excepcional, não se aguentava. havia de subverter as leis de deus, seria perdoada.

– Para onde vamos?, perguntou a Loth.

– Não sei, respondeu ele, não se importando com o pecado da esposa. O mensageiro disse que devíamos ir para as Terras Altas, mas não há como com esse fogo na planície.

– Então, o que faremos, ela perguntou.

– Penso em dormir em Zoar, disse Loth, finalmente.

– Zoar? Mas a cidade está cheia de cadáveres!, gritou Bina.

Faiga e Asisa observaram a mãe, espantadas.

Loth desferiu um tabefe na orelha de Bina. Acertou-lhe um soco no rosto, e o sangue escorreu do nariz dela, que despencou no chão.

– Infiel!, disse Loth, Dirige-se a mim de forma tão insolente e ainda por cima grita?! Cadela, bruta! Inferno para você!

Escarrou em cima de Bina. As filhas, abraçadas ao pai, fizeram o mesmo. Loth espancou Bina com muitos chutes no rosto e na barriga, depois voltou-se para as filhas:

– Vamos! Deixemos esta prostituta aos abutres! Ywh, nosso senhor, Elohim, que cuide do destino dessa infiel!

Então foram a passos rápidos em direção aos destroços de Zoar, enquanto Bina jazia no chão, tossindo sangue.

***

O hálito de fogo tocava seu rosto. O som dos gritos dos condenados empurrava-se pra dentro de seus ouvidos. O calor do inferno acariciava seus ombros.

Bina abriu os olhos.

Não havia mais sinal de Loth ou de suas filhas. Não queria ir para Zoar, pois se Loth a visse, matava. Não sabia o que fazer. Um medo profundo tomou conta do seu coração.

Lembrou-se do que ocorrera em sua casa, mais cedo. Os servos de Elohim tinham enfeitiçado a família.

– É preciso que conheçam o pecado, disse Samael.

Então um calor tomara conta de seu corpo. Ela, as filhas e Loth fizeram sexo com avidez. Gozou no pênis do seu marido e nas línguas e dedos das filhas, enquanto era sodomizada. Ajudou Loth a deflorar as duas, pela frente e por trás. E engoliu todo o esperma do pênis do marido, que havia passado da boca de Asisa para a de Faiga e, finalmente, para a sua.

– Agora podemos ir. Sodoma ruirá, disse Lucibel.

Um arrependimento pesado caíra sobre o espírito de Bina. Fora enfeitiçada por aqueles estrangeiros, servos de Elohim, e tinha certeza de que eles eram os cães que os haviam orientado nos portões de Sodoma. Uma revolta tomou conta de Bina que, mesmo dolorida e ensanguentada, usou de toda força para levantar-se. Vingar-se-ia daqueles malditos servos de Elohim, Samael e Lucibel. Era preciso. De algum modo, eles quem acabaram com sua vida, com a cidade, com a paz que existia. Teve medo de Elohim e dos novos tempos que ele traria para o mundo. Os homens sempre foram perdidos, tinha noção, mas sob o domínio dele, seria muito pior, tinha certeza.

Precisava fazer algo quanto a isso.

Voltou-se para a cidade em chamas. Viu as muralhas caírem, enfraquecidas, sob as montanhas de fogo. Nos céus, um par de olhos, duas estrelas lançando dois relâmpagos. O sol espreitando de leve no horizonte. Um horror extremo passou por sua cabeça. Queria voltar-se, mas não podia. Não conseguia se mexer. Até que tudo escureceu.

Virara uma estátua de sal, que se desfez ao primeiro hálito morno que a brisa trouxe naquela manhã que começava.

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