Uncategorized

Muitas Vezes Lázaro


Ontem eu morri de novo.

 

Foi inesperado, como quase sempre, mas foi estranho, de repente; tudo bem que eu já vinha com essas dores no peito há alguns dias, mas não tinha noção de que era fatal. Contando com esta já é a décima quarta vez. Deus está sempre comigo.

 

A primeira foi quando nasci. Natimorto, o médico deu a palmada, não chorei, era carne fria de criança morta. Minha mãe chorou, meu pai chorou. Eu não.

 

Pelo menos enquanto estava nos braços deles. Fui mandado para o necrotério, isso é que a mãe contava, e lá, junto com meus outros amigos mortos, dei meu primeiro sopro. Fui carregado de volta, identificado, uma alegria enorme para a minha família. O Hospital foi processado. Erro médico. Mas não foi culpa deles, era um milagre.

 

Sempre fui uma pessoa normal.

 

Cresci como um garoto que não tem nada de diferente dos outros, e de fato nunca tive. Os mesmos medos, mesmas brincadeiras, mesmas pequenas maldades infantis. Só digo isso pra ninguém pensar que sou um santo. Nunca fui e nem pretendo. Não é o fato de Deus estar sempre comigo que fez a dona Gessy gostar mais de mim. Pergunte pra ela e o cachorrinho que matei com veneno de rato. Foi sem querer. O prato estava na pia, minha mãe estava fazendo uma visita aos vizinhos, eu também estava lá. Coloquei o prato no chão. Sassá, Xaxá, não lembro o nome do cachorro, eu tinha cinco anos. Ele comeu, começou a ganir, cuspiu uma gosminha vermelha e branca. Eu chorei dessa vez. Levei uma surra. Dona Gessy amava Xaxá ou Sassá. Eu não sabia o que era amor, nem o que era morte ainda. Não me lembrava.

 

Eu gostava de subir em árvores. Morri pela segunda vez assim. Dessa eu me lembro. Fui pegar jambo, dois amigos meus estavam junto. Matheus subiu comigo, Tomás ficou embaixo, segurando uma sacola. Eu estava empolgado. Bem-te-vis são pássaros arredios. Um jambo roxo de enorme estava sendo bicado por um. Era longe. O galho em que eu estava aguentava o meu peso. Lembro até hoje, gostava de ir na farmácia e subir na balança. 36,12. O galho aguentava isso. O problema é que escorreguei. Não sei no quê, talvez um pedaço de jambo bicado. Eu estiquei o braço, o passarinho voou, ainda vi os morcegos dormindo na copa. Galhos e tronco correndo diante dos meus olhos até o chão. O meu pescoço fez um barulho, “trec”. Doeu. Eu tinha oito anos.

 

E qual não foi espanto, algumas horas depois. Hospital de novo. Minha mãe segurava a minha mão, o médico dizia que tinha de me levar e eu disse “foi o passarinho”.

 

Aí começou minha fama de santo.

 

Minha mãe contava, o primeiro registro da maternidade não mentia: natimorto. O Hospital confirmou. A notícia se espalhou. Eu era famoso, e não julgue pela minha aparência agora, eu era famoso. Não sorria, você.

 

Peregrinações para a minha cidade. Filas enormes, “eu te abençoo, com a graça de Deus, Jesus Cristo, Virgem Maria e a proteção dos anjos”, foi o que o padre me ensinou. Decorei. E dizia isso várias vezes por dia, todo mundo me amava. Eu queria ir para a escola, queria subir no jambeiro de novo, queria badocar o bem-te-vi que tinha quebrado o meu pescoço. Eu não podia mais. A professora vinha pra minha casa, à noite. Meus pais começaram a ganhar dinheiro. Não, eles não eram desonestos, davam uma boa parte para a igreja, que eu sei. Doações e mais doações. Ganhei fama de milagreiro. A TV veio pra minha casa várias vezes, eu gostava de me ver na TV. Eu tomava muita coca-cola, comia muito bolo, todo mundo me paparicava. Eu tinha brinquedos, mas quase não brincava. “Eu te abençoo, com a graça de Deus, Jesus Cristo, Virgem Maria e a proteção dos anjos”, minha infância.

 

Fugi. Coloquei um pano na cabeça de madrugada. Eu tinha doze anos. Corri cidade afora. Todos dormiam, eu não. E tinha uma casa aberta bem depois da praça, um monte de gente falando alto. Mais tarde eu vim saber que aquilo era um cabaré. E lá eu morri pela terceira vez. Foi rápido. Não sei por quê. Entrei lá e todos me reconheceram: “é o santo, o santinho, o menino que ressuscitou!”, e uma mulher, uma velha, o nome dela era Carmem. Me pegou pela mão e disse, “volta pra casa, menino! Vou te levar”, e eu disse que não queria. Chorei alto, eu não queria mesmo, queria correr mundo. Não sei o motivo. Tiros e tiros. Todo mundo correu. Minha nuca estava quente. Eu vi todo mundo indo embora.

 

Hospital de novo. Dessa vez tinha muita gente. E quando eu acordei, um mundo de gritos. Uma gritaria danada. Eu estava vivo de novo. “Meu filho”, minha mãe me agarrou. E gente chorou e se ajoelhou. Eu estava com fome.

 

Eu comecei a ficar na igreja. Se lembrou da história? Não? Como não? Eu era famoso.

 

Visitava os doentes. Vi muitos moribundos. Ainda não falei como é morrer, não é?

 

Morrer é dormir sem sonhar. Nada de túnel. Eu vi isso várias vezes. São nossas memórias. Elas se apagam, como um filme queimando, já viu? Assim mesmo. Morrer é seco. Primeiro não vemos, depois não sentimos, depois não respiramos, depois não ouvimos mais. Morrer é seco. Dormir sem sonhar.

 

Na igreja eu ficava numa cadeira alta, atrás do padre. As pessoas vinham, beijavam a minha mão. Eu dizia as mesmas palavras: “eu te abençoo, com a graça de Deus, Jesus Cristo, Virgem Maria e a proteção dos anjos”, mas o padre começou a me convencer a não dizer apenas isso. Ele queria que algumas pessoas conversassem comigo, que eu desse conselhos. E eu conversava. “Se não souber a resposta diga: reze sempre”. E eu fazia isso. Era apenas uma vez por dia. Tinha vezes que não vinha ninguém, então eu ficava somente na cadeira alta. Os encontros eram na sacristia. Eram sempre pessoas importantes. O prefeito foi lá muitas vezes. Fazendeiros também. Me perguntavam de tudo: se ia voltar a chover, se iam ganhar a eleição, se eram traídos. Eu dizia “reze sempre”. A filha de um fazendeiro, José Medeiros, se chamava Rosalva. Ela queria casar. Eu tinha 15 anos. Eu sabia o que era o amor. Demorava a sair do banheiro da sacristia. Eu queria encontrar Rosalva.

 

Fugi outra vez. Eu estava cheio daquilo tudo, queria ir na fazenda de José Medeiros. Madrugada de novo. O padre acordou, e eu briguei com ele. Bati nele com uma cadeira, “não vá, meu filho, pelo amor de Deus”. Eu corri. Muita gente lá fora, amontoada. Eles estavam lá por mim. Alguns acordaram, “o santo”, correram para mim. Eu coloquei para fora o meu sexo. Urinei. Gritei, “eu sou satanás!”.  Gritaria, e eu repeti, “eu sou satanás!” Corri pelo meio das pessoas, me arranhavam, eram milhares, eram milhões, era gente do mundo inteiro, eu passei pelo mundo inteiro, apanhei, mas passei pelo mundo inteiro. Entrei num mato. Alguns entraram também, mas eu entrei mais. Subi montanhas, desci morros, dormi na chuva. Passei por vilarejos, entrava em mato de novo. Uma cobra picou o meu pescoço. Não doeu muito. Inchou muito. Senti a ferida pesar. Sentei no pé de um umbuzeiro. Era tarde. Foi a minha morte mais bonita, o sol descendo o horizonte, o campo baixo, os bois pastando ao longe. Muita gente queria morrer assim. Eu morri assim, chorei de emoção.

 

Acordei não sei quanto tempo depois. Era dia de novo. Meu pescoço estava bom. Continuei caminhando. Eu esqueci Rosalva, pelo menos não queria mais ela. Já me bastava a liberdade.

 

Fiquei um tempo em um vilarejo no oeste. Cansei do mato. Primeiro eu pedia esmola, depois comecei a fazer uns bicos. Tomar cana nos botecos, andar com gente banguela. Eu via televisão, torcia para o Flamengo. Andei em cabarés, assim que eu descobri o que a casa de dona Carmem era. Descobri o que era o amor de verdade. Lúcia, Tônia, Xaiane, Laurinda, Lucrecia, Cindi, e um monte, um monte. E eu era valente, vinte anos na cara, valente. Ninguém me peitava. Morri uma vez assim. Tião do Campo Velho era pistoleiro. Queria Lucrecia, eu também. Ela disse, “vai com Cindi”, “não, esse fila da puta não vai me desafiar não”. Ele puxou um revolver eu disse “atira, baitola, bicha, atira, puto, fila da puta” e dei um murro nele. Foi só uma bala. Estourou minha cabeça, nem doeu. Ainda percebi que caí. Acordei num hospital de novo. Estava nu. Dessa vez eu tomei cuidado para que ninguém me visse. Era numa outra cidade. Peguei uma roupa branca num armário. Me misturei com as pessoas, andei pela cidade até encontrar de novo o mato. Antes de dormir no meio das plantas, do barulho dos bichos, eu pensei “Deus está sempre comigo”.

 

Passei um tempo alternando mato e cidades que eu encontrasse. Procurava sempre um calendário. Mendigo sempre. Assim contei os anos. Morri muitas vezes de fome. Quatro vezes. Dói por muito tempo. Você se sente vazio, desesperado, não consegue pensar, até que morre, com um aperto no peito. Da última vez, decidi não morrer mais assim. É muito indigno. Eu tinha trinta anos.

 

Quatro vezes mais eu morri tentando morrer de vez. Me joguei na frente do metrô. Senti meu corpo se despedaçar. Mas acordei inteiro. Um caminhão esmagou minha cabeça. Me joguei de uma ponte, queria morrer afogado. É a pior morte de todas. Você se sente desesperado, quer respirar, não pode segurar em nada. Morre ardendo no peito, na garganta. Muita água. Vomitei um tempo, depois que acordei num mangue. Da última foi por acaso. Tinha uma loja pegando fogo. Gente ao redor. Entrei lá, tentaram me impedir. Me joguei na labareda. Arde muito, mas depois você não sente nada. Você sufoca. Ainda tinha fumaça quando joguei escombros pra cima e levantei. Um bombeiro, chamado Carlos, me resgatou. Contei minha história pra ele, e ele ficou com essa mesma cara sua.

 

Me mandaram pra esse hospício e cá estou. Cansei de morrer. Envelheci, tomo remédios, durmo, vejo TV. Sonhar é bom, acostumei, não quero morrer de novo. Mas ontem eu morri. Estava na enfermaria, lençol cobria minha cara. Saí de lá, dei bom dia à Diana, enfermeira, aquela ali, morena, ó. Disse que não queria morrer de novo. Ela ficou espantada. Agora está falando com o diretor do hospício. Eu disse que quero sair, estou velho, não quero viver aqui mais. Quero correr mundo. Estou doente. Vou morrer muitas vezes ainda. Quero estar em paz dessa vez.

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “Muitas Vezes Lázaro

  1. Creio que já li este conto antes, no Orkut. A boa impressão ainda é a mesma. Seu jeito com as palavras é impressionante. É simples, mas é direto e por muitas vezes, sublime. Parabéns,gado
    Abraços.
    P.S: Obrigado pelos comentários sobre o nascimento de meu filho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s