Contos, Filmes toscos ou não

365


O velho rodopiava o copo de uísque sem gelo enquanto fumava seu cachimbo. A biblioteca tinha um ar antigo, de coisa velha e muito usada. Com muita coisa a dizer, provavelmente. O velho fazia anéis de fumaça, matutando. Tomou um longo gole de uísque, percorreu com o dedo a página amarelada do livro em sua frente e fez uma anotação no bloco de notas ao seu lado.

“Abrasax”

Carregou a perna do x até mais longe, olhou para o teto e encheu novamente o copo de uísque.

O silêncio era ensurdecedor, quase podia ser tocado. Apenas as chamas das velas no altar do outro lado da sala ainda faziam algum som, quase imperceptível. O velho continuava a estudar o livro antigo, e entre goles, baforadas, e bocejos, adormecera.

Acordou em sobressalto. Os raios de sol começaram a entrar pela janela. Dormira sobre as páginas do velho livro. Um filete de baba escorria do canto da boca. Limpou, levantou-se e caminhou até a janela. A rua, estranhamente, estava vazia. Uma paz intensa tomou conta do velho, que foi até a mesa buscar seu cachimbo, quando atentou para a sua mão.

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Suas pernas tremeram.

Estava lá, nas costas da mão. O número. Tentou apagá-lo esfregando o dedo por cima. Não conseguiu. Tomado por uma mistura de medo e curiosidade foi até o lavabo, tentar retirar aquela marca de sua mão. Enquanto caminhava, percebera um som no ar. Uma espécie de chiado, que cutucou seus ouvidos de uma forma incômoda e esquisita. Com procurou ver de onde vinha o som. Seguiu aquele barulho com o ouvido. Quanto mais caminhava, mais alto o barulho se tornava.

Acabou por perceber de que vinha do quarto da governanta.

– AHHHHHHHHHHHHHH

O velho chorava deitado no chão, ao pé da cama. Ao seu lado, uma cobra molenga e pegajosa, vermelha, se aninhava. Depois outra. Depois outra. Depois outra.
Ela estava de pé, sobre a cama. As tripas escorrendo pelas pernas. As mãos soltando esguichos de sangue e pus. A boca exalando um hálito pior que a putrefação de mil cadáveres.

– Olhe pra mim, velho, disse a governanta.

O velho vomitava no chão, se contorcendo de dor. O colo molhado de urina, as nádegas úmidas, pegajosas e fedorentas de merda.

O velho cambaleava pela rua vazia, sujo, chorando.

– Abrasax, disse, Azatoth, Athanatos, Samaël!

O céu continuava com a mesma cor de crepúsculo. Atrás de si, a sua mansão colonial, em chamas. O mundo vazio, desolado.

– Assim é minha terra. Essa é minha hora, disse a governanta, expelindo tripas, entre vômito e secreções que escorriam da boca.

O velho não tinha forças, mas tentou correr para longe. Correu o quanto as pernas puderam aguentar, baseando-se numa força que não sabia que tinha. Entrou pela primeira porta aberta que vira. Uma sala vazia, onde havia uma mesa de centro, belamente arrumada, um sofá de couro, quadros e retratos nas paredes, uma estante repleta de livros, um lustre elegante. Um porta ao fim do cômodo.

Acocorou-se atrás da porta e esperou. A porta se abriu. Um hálito pestilento atingiu seu rosto.

– Satirus…, disse o velho.

– Agla, estou aqui, baliu Satirus, enquanto seu cão de olhos vermelhos rosnava e o rodeava freneticamente.

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