Contos, Filmes toscos ou não

Nada de novo na terra dos mortos


“Místico, perfila sobre as mesas longas tuas oitocentas e quatorze pernas. Lembras a todos quem és, abres a porta com o solfejo do teu hálito, lambas as pangeias de sal incrustadas nas partes internas dos crânios das bestas. Agla. Samaël. Azatoth.

Athanatos. Ascendas sobre o sangue da terra. Escorras sobre o magma, lances teus olhos de quatrocentas e trinta seis safiras por sobre as cabeças incrédulas. Bestial!

Satani, ave. Louvo-te em mil e setecentas línguas, tudo o que for pronunciável na Terra é em tua honra. Ave, satani.”

Disse as palavras, o velho, e esperou sobre o túmulo enquanto o frio da madrugada cutucava seus ossos. Bramia, de forma supostamente mágica, um fêmur encimado por uma pequena caveira de marfim. A escuridão da noite adensara-se mais, percebia isso. Finalmente chegara a hora suprema. Sabia.

Enquanto isso o coveiro contava as notas que havia recebido do velho para entrar no cemitério aquela hora. Sempre bom ganhar um extra, não era a primeira vez que aquele maluco tinha aparecido por ali.

O velho continuava a bramir seu cetro bizarro enquanto percebia os sons da noite. Grilos fremiam, corujas piavam, ratos tiritavam. Escutava as asas dos mosquitos, sentia o cheiro das baratas. O túmulo de mármore à sua frente não dera nenhum sinal.

O coveiro guardou o dinheiro no bolso da calça e acendeu um cigarro. O pastor alemão que o ajudava a tomar conta do cemitério dormitava calmamente amarrado ao gradil ao seu lado, em contrapartida aos movimentos estranhos do velho, num dos jazigos perpétuos de uma importante família da cidade.

O velho parecia desesperado. Não sabia o que tinha feito de errado. Já era pra tudo ter acontecido…

Esperou por mais cinco minutos então parou de bramir o cetro, cabisbaixo.

Soturnamente, foi em direção ao coveiro.

– Parece que hoje não…, disse o coveiro.

– Não, respondeu o velho, olhando-o tristemente.

O coveiro acompanhou o velho até o portão do cemitério e o observou caminhar noite adentro, voltou pra sua cadeira e acendeu outro cigarro. O cachorro se aninhava ainda mais no chão, entrando num sono profundo. Nada de novo na terra dos mortos.

A luz levemente surgia no céu e um nevoeiro começou a tomar conta da manhã. O coveiro, com frio, desamarrou o cachorro e entrou com ele na tumba, fechando a grade atrás de si. Tirou os sapatos, as calças, e a camisa. Assim que tirou a roupa, transfigurou-se. Pegou o dinheiro que o velho lhe dera e engoliu, fazendo um barulho monstruoso com a garganta. Afiou seus cascos numa pedra jogada no chão e baliu alto, deixado um fedor de enxofre muito forte da sua respiração. O cachorro abriu os olhos, vermelhos como fogo, e tossiu uma gosma verde e pegajosa no chão arenoso da tumba. Um estrondo e o chão se abriu em uma rachadura flamejante, de brilho intenso. O coveiro afagou a cabeça do cão, que o mordeu, fazendo o sangue fedorento escorrer pela mão.

– Bom menino, disse o coveiro, descendo junto com o cachorro pela rachadura na terra, que se fechou silenciosamente com os primeiros raios do sol.

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