Papo furado, Poeminhas

João da Liberdade


João da Praça era um templário moderno
que achava Sade um poeta maior
e cortava as unhas dos pés com classe.

Era um maestro do oculto
João dançava com lobos antes
de Holywood. Chupava os dentes
atrás dos pedaços de carne.

Dentes, esse luxo todo
disponível pra se chupar.

João cantava blues e brega
enquanto apontava para as estrelas
dos paralelepípedos.

João, mendigo, era a obra perfeita
que o útero da mãe terra recebeu
do sêmen de deus.

João não usava paletó
nem empurrava carrinho de compras
muito menos era cego de um olho.

João tinha a dignidade de um cachorro
que dorme à sombra de um sombreiro
na calçada. Aquele cachorro amarelo
de quem sentimos inveja caminhando
sob o sol das 11:30 enquanto a barriga
dele infla e desinfla, num sono confortável.

Uma caneca de plástico azul descascada
era um copo de escocês 12 anos
nas mãos de João.

E o filho da puta nem ligava.

Importar-se é pra massa ignóbil
e ignara.

Aliás, puta não. Putas não geram
Joões como esse nosso.

No mínimo era filho de uma
velha e sábia cortesã.

E daí?

Ele não dançava na calçada
nem demonstrava felicidade
ou satisfação.

Era um bom parasita
que nem sabia o que significa o ser.

Podia ser o príncipe de Mônaco
ou da Britânia, mas estava na rua.

Porque a rua é o mundo.
Porque limitar-se a ambicionar reinozinhos
é a demonstração mais absoluta
da própria pequenez.

Limitar-se a querer ser adorado
e/ou reverenciado é ser baixo,
imbecil, é se importar com minudências
tão ínfimas quanto as bactérias
que povoam a parte interna de suas unhas.

João não tinha título de nobreza
porque a liberdade de ser o soberano de lugar nenhum
é a mesma que confere a qualquer um de nós
a liberdade de ser soberano de todos os lugares.

Uma leva a outra, naturalmente.

E não precisa tomar consciência disso.
Não há utilidade nenhuma nessa consciência.

O que importa é agir.

Nem eu, nem você, nem ninguém que conheço
tem essa estirpe e essa coragem.

Apenas João da Praça. Mas ele não precisa saber disso.

E, principalmente, se isso um dia acabar,
ele não vai se importar.

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3 comentários sobre “João da Liberdade

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