Contos

Uma noite, assim chuvosa, me enfiei na cama ensopado, e que cama mais gostosa.


Tava chovendo pra cacete, eu não conseguia dormir, não tinha nada que prestasse na tv, no rádio, a internet tava uma merda.

Até que pensei, Porra, eu quero ver o mundo. Mas não ficar na janela. Quer saber, foda-se.

Vou ver como as coisas estão mesmo lá fora.

Um homem precisa desafiar a natureza pelo menos uma vez na vida.

E nada melhor do que fazer isso quando se está entediado em seu apartamento no trilionésimo andar de uma torre de babel de gente alva, cheirosa e de vocabulário rico.

Isso aí.

Pus a cara na vidraça e o negócio tava mal pra caramba lá fora, tudo era uma nuvem cinzenta, fria, molhada, eu tava dentro de um algodão doce que trovejava. Puta merda.

Coloquei uma camiseta, calcei as primeiras sandálias que encontrei e dei o lavra.

O elevador sem música e tal, no espelho vi que minha cara até que não tava tão mal pra um insone desgraçado.

Lá embaixo, já dá pra imaginar, aquele inferno todo, água pra tudo quanto é lado, vento, árvores balançando, etc. Fiquei pra lá e pra cá. Bem, melhor que ficar vendo aquela massa cinza borrada lá de cima.

Até que cansei de molhar as canelas e fui prum toldinho branco que armaram lá embaixo, não sei pra quê.

E não é que me deparo com a loirinha Ana.

Oi, eu digo.

Oi, e ela tava com aqueles dois olhos bem vidrados nalguma coisa. Devia estar fumada.

Renato, ela disse.

Ok, vamos ao fatos, Renato não é nem nunca foi o meu nome, talvez ela tivesse confundido, qualquer coisa do tipo, mas eu dei corda, ver no que isso ia dar e tal.

Olá, eu disse, que chuva danada.

Pois é.

O que você tá fazendo por aqui?

Nada. Filosofando, ela disse.

Porra, imaginei, tá chapada.

Filosofando?

É.

No quê?

Na vida, no mundo, na chuva. Nunca mais tinha brincado de chuva.

Hum. Pois é, nem eu.

Záz, na hora rolou um relâmpago.

Viu?, ela disse, é isso que quero. A tempestade, a revolta.

Claro… E na mesma hora o trovão.

Pois é, ela disse. E você?

Eu to aqui. O tédio me consome, loirinha, sou um cara terrivelmente entediado. O mundo não suporta minha classe.

Hahaha, disse, irônica.

Pois bem, ficamos de papinho besta mesmo.  Ela disse que eu parecia que tinha o rei na barriga, então eu falei, claro, não só na barriga, eu sou, eu fui, eu vou, rei da coreia, do japão, da rússia, de Barishnikhov e Kalashnikhov, do marrocos. Sou um opulento rei islâmico-oriental-africano-que-não-suporta-a-vida-no-trilionésimo-andar-de-um-apartamento-pequeno-num-prédio-tão-grande-quanto-meu-título.

Ela olhava pra mim viajadona, com certeza tava fumada. Rimos um monte também. Sempre bom falar umas merdas. Eu me chapo também, loirinha, só pedir, ok?

Vamos pra piscina?

Porra, não tava a fim de nado, mas eu tava molhado mesmo.

Vamos, eu disse.

Bem, eu pensei, ela tá doidona, madrugada, tamos sozinhos, bem que dava pra rolar alguma coisa. Melhoraria uns mil por cento meu resto de noite.

Tirei minha roupa, fiquei só de cueca, mas poderia ter ficado nu, acho que ela nem ia notar, de tão doidona. Sei que ela entrou de pijama mesmo.

Ficamos nadando feito duas criancinhas e tal, aquela viadagem toda. Mas foi divertido.

Até que ela veio nadando até mim, pijama amarelo ensopado, olhos vidrados em alguma coisa que estava bem atrás da minha cabeça, bem atrás mesmo, afinal ela me encarava, mas pra mim ela não olhava, com certeza. Bem, me atravessava com olhar. Pensei, vem cá, loirinha, que vou te atravessar também, hahaha.

Então ela vem toda delicada, põe a mão por detrás da minha cabeça e empurra pra baixo.

Porra, não é que a pequenininha tem força?

Fiquei lutando por um tempo, achei que era brincadeira, sei lá, mas tava foda. Teve uma hora eu já tava quase me fu, então não tive outra escolha.

Me agarrei nas pernas da loirinha, apertei a bunda dela e mordi a coxa com força. Mas ela tava empurrando mais e mais minha cabeça pra baixo, não tava nem aí. Já tava sem ar.

Meti os braços pra cima e peguei nos braços da loirinha. Lutamos por mais um tempo, sei que consegui me safar, é lógico, como estaria dizendo essa paradinha para vossa mercê, né?

Fiquei tossindo que só a porra na beira da piscina. Ana, histérica, bolava pelo chão, rindo de não-sei-o-quê. Desgraçada.

Diabólica. Sei que fui pelas paredes, me guiando, pernas bambas, deixando aquele riso satânico de loirinha pra trás, até o elevador.

Cheguei em casa ensopado, quase recomposto. Tirei a cueca, atravessei o ap e me meti na cama, molhado mesmo.

Dormi feito uma pedra. Foi bom. Agradeço a Ana loirinha por isso.

O que é que um pouquinho de vida real não faz com suas disfunções do sono, não é mesmo?

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PS: escrevi essa brincadeira baseado no texto “nascido rei”, de Anny Stone. Espero que ela aceite na esportiva, rs.

http://desconcertopessoal.blogspot.com/2010/08/nascido-rei.html

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7 comentários sobre “Uma noite, assim chuvosa, me enfiei na cama ensopado, e que cama mais gostosa.

  1. Anna disse:

    Meu, viajei legal no texto.
    a propósito… Oi, meu nome é Anna, e eu sou loira o.o’ (sério!)
    Acho que por isso me senti no texto.

    Muito bom 🙂

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