Contos

Sonho de grapefruit


Roxana sonhava frutas cítricas. E debulhava canções fúteis com doçura e acidez. Seu banho era ouvido por todos os apartamentos do seu prédio. Sua espera no ponto de ônibus era a estática e a estética  do encanto. Era a beleza, a ternura e o sonho enfiados em calças xadrez, moleton rosa e fones de ouvido. A capa dos desenhos no fichário dos braços, os lábios murmurando o pop, a arte.

Duas vezes viu na internet e disse que queria ter nascido nos 80. Mas suas células datavam de 96.

Roxana tinha os olhos de um azul quase roxo, e cabelos castanhos quase loiros.

E cada palavra que dizia era ornamentada pelos quases da adolescência. Quase gostava de Justin – Timberlake, TV ou Bieber. Quase via televisão e chorava, como quase ria no twitter e quase mostrou a rosura das laranjinhas inchadas na twitcam.

Roxana era apaixonada por dois meninos e uma menina. Mas não falava. Falava que tinha um lindinho urso pooh, mas na verdade sempre quis ter um maior.

Um dia Roxana pensou, e se eu fosse planta, qual seria?

Viu a mãe abrir com os dedos uma tangerina. Pediu um bago, que doce.

Mas no orkut viu a foto de alguém. Uma laranja vermelha por dentro, legendada “sonho de grapefruit”.

Grapefruit era o que queria ser.

Anotou no caderno, mudou todos os nicks possíveis: grapefruitrox.

Exibia-se suculenta, macia, minha vidinha linda em jpgs, phps e htmls.

Assim que eu a conheci. Minha perambulância pela internetosfera. Eu, sozinho, solteiro, esquecido. Me apaixono fácil demais. E pra morrer de amor é descascar toranja.

Só mandei scrap. Dei follow. Dei msn por direct message. Tão simpática, minha lua, minha ninfa.

Me escondo atrás de fakes. Ela visse meu rosto, meu peito? Morreria de medo. Pra ela sou Lucas, lu, sou de 95, ouço fresno, vejo two and a hal men e queria tatuar uma cidade no braço.

Passamos horas conversando. O que pulou meu coração quando perguntou, tem cam?

Vou comprar, eu disse.

Baixei uma fakewebcam e procurei vídeos de algum menino parecido com lu. Foi difícil. Não foi trabalho, queria muito ver minha Roxana ali pra mim, sozinha e toda, brincando de capricho com meus pedidos de mostra aqui, mostra ali.

Como dói lembrar.

Aqueles peitinhos, a barriguinha tão linda, a flor suculenta entre as coxas. E mostrava tudo tão rápido.

Todo dia isso, eu na covardia de mim, Lucas-fresno-two-and-a-half-men.

Mas hoje Roxana não entrou no msn. Hoje ela não atendeu o celular. Não atualizou o twitter. Fiquei vendo vídeos, tentando rir. Paro e me abuso, machuco, pra ver aquelas fotos, como o biquíni laranja modela aquela delicadeza. A florzinha debruçada na cama, rindo, nua como a vida. O que dizer daquele biquinho, da boquinha na webcam? Cadê, meu amorzinho?

Hoje não tem graça.

Olho as paredes, a pesada presença de nada no meu apartamento. Cada ponto da escuridão amalgamado no meu tédio. Eu, de tantos anos e décadas, sendo sugado pela efemeridade e devaneio de um bulbinho, recém-flor, sempre distante e pueril.

São quatro da manhã. Às seis tenho que estar em pé pra ir na firma. Com que cara? E esse vazio da garganta, do estômago, do peito?

Ah, meu sonho de grapefruit, fala comigo hoje, fala… Não sou nada sem você. Um dia te encontro, linda florzinha laranja. Um dia a gente se vê.

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