Contos

Conversa, carinho, sábado de tarde, num dia frio.


Ô meu gatinho, o que mais me irrita é o vento. A gente depois de uma idade vai perdendo o rijo, vai ganhando um ranço. A pele vai enchendo de pinta. O vento bate e friu, haja frio. E é qualquer ventinho. Eu gosto de ficar no quintal, aguo as plantinhas, dou água pros cachorros, pros gatos, pros periquitos. Gosto de escutar o piadinho repetido deles, piá, piá, piá. Mas é só bater um ventinho pra eu ficar batendo banguela, o queixo cima-baixo, toda me tremendo, que nem pau verde.

Então eu puxo uma coberta no meu quartinho, vou pra poltrona e ligo a televisão. Mas só pra ouvir o murmurado mesmo, que não gosto de assistir. Ligo a televisão e me dano a fazer crochê. Corredor de mesa, lenço, cada coisinha linda que eu vendo pros vizinhos. Dá pra tirar um trocadinho, ajuda quando se depende da pensão do velho defunto, que era contínuo do jornal, ou seja, é bem pouquinha. Uma vez fiz uma capa linda, dos babadinhos e catotinhas, pra virgem santíssima da igreja daqui. Vou pra lá e eu já rezei tanto, já disse tanta missa que nem presto muita atenção, já sei tudinho de cor e salteado. Fico olhando a capa que fiz. Duas semanas de trabalho. Me enchendo de orgulho.

Eita pelinho bonito o seu. Depois dou uma bolinha pra você.

Hoje não tem missa. Eu fico em casa vendo os bichinhos, ralho com a gata célia, que só vive embaixo da mesa de jantar, ralho com o cachorro doguinha, porque ele é arteiro tanto, visse? Antes desse pessoal de hoje falar em estresse eu já sabia que isso era, ô se.

Meu filho Marinho veio ontem aqui. Deixou meu remédio, falou do menino dele, Otávio, que já tá na faculdade. Ciências Sociais. Não sei o que danado faz isso, mas se é faculdade, é importante. No meu tempo só tinha engenheiro, médico e advogado. Hoje é que fica essa variação toda, todo mundo quer dar pitaco em tudo, é invenção atrás de outra. Não gosto, mas o mundo não é gosto, é mundo. Gira só e a gente olha.

Gosto é gosto e eu tenho os meus. Um é fazer doce. Doce de abacate, de caju, de goiaba. Fazia tanto. Hoje nem me canso, mas dá vontade. Mas colher de pau acaba por lascar o braço. Mas eu sou boa doceira, visse? Otávio, menino, chupava os dedinhos se abrindo. Agora já é um moço, mas de vez em quando ele pede, “vozinha, faça um docinho que vou aí.” O bichinho. Bichinha de mim, que já tô só os pedacinhos, é o que digo pra ele. Fico triste de não poder agradar assim meu netinho.

Hoje é sábado. Dia infernal. É som alto, é bebedeira. A vizinhada no debunde e quando me veem é um tal de “bom dia, dona Neuza” pra cá, “boa tarde, vó”, pra lá. Nem respondo, pra não dizer uma coisa. Olha o forró, olha.

Pronto, começou a barulhada…

Já dá pra ouvir, né, meu gatinho? Se aninhe aqui no meu colo, vá, que começou a cachorrada.

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