Contos

O monstro que esqueceu


Capítulo 1

Tinha dormido entre as folhas húmidas do mato. Não se preocupara com serpentes, víboras, venenos, feras. Por algum motivo, nada podia perturbá-lo.

Em sua cabeça, a tormenta imediata dos sonhos, que repetiam as coisas que ocorreram no seu dia.

E que dia era aquele?

Acordou e rugiu por entre as árvores, e seu grito reverberou entre os bichos. Bandos e bandos de pássaros revoaram, matilhas de cães, antas, cervos e todas as bestas terrenas se espalharam para longe de sua proximidade.

Sabia que poderia repelir toda e qualquer existência de sua rude presença. Só não sabia por quê. Nem quem era.

Então a angústia do desconhecimento tomou sua face, e ele rugiu outra vez, batendo no peito, pulando; e o barulho que fazia era o mais tenebroso da floresta.

Capítulo 2

Respirou fundo e era o ar em seus pulmões. “Ar” veio rapidamente a sua cabeça, ele viu que era bom. Lembrou que o ar era puro e era um dos elementos da vida. “Vida” veio à sua cabeça, então ele pôs a mão no estômago e este se manifestava de forma barulhenta e dolorosa.

E “ar” era concreto, porém invisível, e “vida” era invisível, porém concreto, e “fome” era invisível e doloroso.

Anotou mentalmente suas descobertas. A memória vinha aos poucos, com as mudanças que sentia no seu corpo. Sentir era antes da memória. O que fazia era nomear. Então ele disse que sentir era o primordial aspecto. Tudo o que se sentisse era nominado.

Então ele ficou feliz e gritou novamente. E todos os seres viventes ficaram ainda mais distante. Mas agora ele sabia, e saber era tudo.

E pela “vida”, tomou um galho de árvore e comeu. Descobriu o “sabor”. Engoliu, descobrindo a “saciedade”.

Capítulo 3

Sentia cada coisa e nomeava. Cores, plantas, sons, e todas as coisas que conseguia entrar em contato.

Mas a cada nova descoberta, ele exultava com tal força que mais e mais os outros seres, semelhantes ou não, se afastavam.

E ele seguia caminhando e descobrindo. Não sabendo, ainda, que, de um jeito ou de outro, estava sozinho.

Capítulo 4

E sentir fazia com que se esquecesse de quem era, e que estava sozinho.

Capítulo 5

E nada poderia mudar isso, pois aos poucos, quanto mais ele sabia sobre as coisas mais simples, mais os outros se afastavam de sua presença.

E como era feliz descobrindo tudo ao seu redor e dentro de si. Até que tudo o que tinha pra se ver assim, em sua situação, acabou.

E ele descobriu o “tédio”.

Capítulo 6

Um dia disse, abrir-me-ei e verei-me por dentro, e o fez, e isto era o “sangue” e aquilo era o “estômago” e aquilo outro era o “fígado” e cada vez mais e mais deu nome a tudo o que encontrava dentro de si.

Não era muita coisa, então, quando verfiicou tudo, ele se fechou e seguiu à procura de algo diferente.

Capítulo 7

Muito e muito tempo se passou. Ele foi ficando velho e, aos poucos, foi perdendo a voz. Rugia apenas para espantar o invariável tédio de, finalmente, tudo saber e tudo sentir. O que ele não sabia é que, quanto mais frágil e silencioso ficava, mais as outras criaturas perdiam o medo dele.

Caminhava, dormia, caminhava, descansava e numa época não mais rugia, apenas andava, senhor de tudo o que via, sabendo tudo o que viu.

Capítulo 8

Um dia ele ruiu. Caiu no chão e foi sentindo cada vez menos. Não sabia o que significava aquilo. Chamou para si de “morte”.

Os seres aos poucos foram se aproximando para ver a morte daquele ser.

Sua vista era cada vez mais turva e suas forças cada vez mais brandas. A miríade de coisas novas que pouco a pouco o rodeavam o deixavam feliz, e, em sua cabeça, foi dando nome a tudo o que conseguia ver, mas eram nomes impronunciáveis, numa linguagem que só os moribundos coneguem distinguir.

Capítulo 9

E, no último sopro, viu que faltava uma coisa a se nomear. Ele mesmo.

Fechou os olhos e dentro de si disse: meu nome é Eu.

E tossiu, como um último rugido de felicidade, o suficiente para afastar, por poucos momentos, os demais seres que vinham comer sua carcaça.

Capítulo 10

Acordou no mato. Era noite. Lembrava de tudo. O pio da coruja passou por sua cabeça, então ele teve medo.

Ficou acordado até amanhecer.

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