Contos

Indo e voltando, na estrada


Ela está no banheiro nesse momento, o bebê dorme aqui na minha frente. Uma loucura, é bem verdade, sair por aí, sem destino, sem muito dinheiro, à road movie. Minha vida, nesse exato momento, é um grande roadie movie. Cinema, Aspirinas e Urubus, born to be wild.

Quando me apaixonei, ela já estava grávida. Ela também disse que se apaixonou por mim de repente, toda paixão é de repente, eu devia ter dito a ela. Não fez diferença. Praticamente nove meses de restrições, de um envolvimento quase insubstancial. Me privei de muitas coisas por causa dessa paixão, acredito que ela também. Tempo difícil.

Até que nasceu a criança.

Um menino, se chama Leonardo.

Nove meses. É um senhor tempo, eu que tinha paixões que não duravam 48 horas. E quando me ferro na merda de amar, é uma situação tão estranha como essa. Imagino que seja da vida. Saibam, amigos, eu pensei sobre isso durante todos esses meses, e ainda não entendi. O que sei é que quando finalmente nasceu a criança, pus a moça na parede: e agora, porra? Ela não sabia responder, nem eu sabia sugerir nada.

Até que deu um estalo.

Surgi na casa dela, lembro da cena, ela dava de mamar, sentada numa cadeira de balanço no terraço, o sol penetrava em raios bem divididos pelos galhos e folhas do pé de jambo no quintal, o chão repleto de flores vermelhas. Lindo!

Não importa, é claro, mas prometi para mim mesmo escrever isso quando, finalmente, estivesse escrevendo sobre isso. Pois foi exatamente assim que se deu.

Ela sorriu quando me viu. Oi, meu amor, exatamente essas palavras.

Vamos embora daqui, eu disse.

O quê?

Vamos embora, pra algum lugar, não importa.

Ficamos nos olhando, até que ela pediu para que eu explicasse o que queria dizer.

Expliquei o meu plano. Eu, que sempre tive a pecha de louco, de psicopata, de drogado, normal um plano como esse. Ela aceitar é que foi, para mim, a maior loucura que eu já tinha ouvido na vida. Esperava um não, um vamos pensar. Não precisei persuadi-la nem um pouco! Foi assim, imediato, um outro sorriso, um beijo tenro que trocamos, o bebê dormindo calmamente com o bico do seio na boca. Uma tarde iluminada por não sei quantos anjos voadores.

Ela ficou alisando o meu rosto por um tempo, um jeito de mãe. Que inferno, pensei, mulheres são todas iguais. Então se levantou e foi dentro de casa, não havia ninguém. Demorou um tempo. Acendi um cigarro, depois outro, depois outro, assistindo a tarde ir embora. Fiquei cuidando do bebê, ele não sairia de perto de mim nunca, eu decidi naquela hora.

Quando ela apareceu, tinha uma maleta, vamos agora?, perguntou.

Fomos.

Dirigindo, eu disse que talvez hoje escrevesse um poema para ela. Ela disse, ah…, com muita ternura.

Ah…, quando ela me diz isso, fico completamente desarmado. Trouxe comigo muitas folhas de papel, quatro lápis, é o que faço aqui, agora, nessa mesa de restaurante de estrada. Escrevo sobre tudo isso, o coração quicando entre a garganta e o estômago.

Ainda não escrevi o poema.

Não sei, é a torrente, você pode ver por este texto em si, tanta coisa passando pela minha cabeça. Talvez não haja coisa mais poética que a própria situação de se deixar levar por esse sentimento.

Leonardo não é meu filho. Ele dorme. Por que ainda consigo achá-lo lindo? A porção dela que tem nele deve fazer isso e, acredito, com tudo o que sentimos juntos durante esse tempo, ele também deve ter um pouco de mim.

Porra, e como isso me faz rir.

Calor do cão aqui, mas pedi um café. O gosto me atrai, o que diabo ela tanto faz no banheiro?

Sabem os anjos que vi voando naquela tarde? Pousaram todos para ninar Leonardo aqui na minha frente, não há moscas, não há poeira, não há esses carros estacionados, nem essa TV no telejornal falando de enchentes no sudeste. Garçons pra lá e pra cá, funcionários no balcão, de touca descartável. Não há nada, apenas anjos parados vendo o pequenino dormir.

Ontem nós dormimos no carro, parados num posto de gasolina para caminhoneiros. Clima de aventura, nossa primeira noite na estrada, emocionante.

Que demora.

Mas, que aconteceu?

***

Puta

***

que

***

pariu!

***

Ainda estou transtornado, mas vou terminar essa porra.

Ela sumiu, meus caros, como eu sou otário! Ficamos só Leonardo e eu naquele bar, por horas. Um garçom disse que viu quando ela entrou num carro, um celta cinza, e se foi. O cara lá fora, que fica guardando os carros, também viu.

Foda, foda, foda.

Eu chutei um monte de coisa no chão e quase me desesperei. Quase pego a arma, que desde que ela disse sim, estava no porta-luvas, e dou um tiro em alguém. O pior que agora a porra do anjinho acordou e não para de berrar. Não sei o que fazer. Vadia do inferno, a vontade é jogar esse entulho, esse pirralho filho de uma putona, pela janela.

Ainda faço isso quando te encontrar, sua vagabunda. E ainda te faço engolir esse texto de merda, os lápis, e toda a resma de papel que comprei pra escrever o romance da nossa nova vida.

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2 comentários sobre “Indo e voltando, na estrada

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