Poeminhas, Velharias

Amor profundo


A dor de tua morte no peito ainda estala
então desenterro teu corpo frio desta vala.
Te quero de novo, quero mais do que tudo,
desço então com vigor até da cova, o fundo.
Com um pé de cabra, apressado tranco,
retiro você deste seu caixão branco.
Penso naquilo que vivemos juntos,
e acaricio teus cabelos, da terra, hirsutos.

Acendo a lanterna e fito o teu belo rosto,
angelical, como um jardim no paraíso posto.
Tua partida recente ainda é minha dor,
por isso te contemplo nesse pálido fervor.
O gélido toque de tuas gordas bochechas
me lembra as odes, poemas e endechas.
Tua face, tranquila, de morta infantil,
incita-me à mordida, atitude pueril.
Tua carne está dura, muito fria e imunda,
mesmo assim te mastigo, do prazer que me inunda.

Desnudo teu cadáver, pela vida, com viço,
queria estar contigo, do mundo, omisso.
Seus seios, tão hirtos, bonitos e recentes…
Lembro-me deles vivos… Deixaram-me demente.
Teu sexo, ainda novo, permanece sem máculas,
não vou penetrar, é profano, mal de gárgulas.
Prefiro fazer como vim planejando, sem vícios,
e para te ter, te faço outros orifícios.

Tua carne é lânguida, doce e saborosa,
de ti quero um pedaço, minha saudosa morta.
Depois de fazer um buraco em teu ventre
e bombear com prazer de demoníaco ente,
guardo-te de volta em tua boa urna.
Levarei um retalho deste amor que se afunda.
Corto com candura tua partes gordas
e as ponho num saco, no silêncio isto ecoa,
mas só tenho os mortos como companhia,
então não mais temo, medo não tem valia.

Quero de ti um último contato,
por isso é que levo teu corpo em pedaços.
Vou guardar tudo estocado no freezer
e comer aos poucos, à francesa, como dizem.
Não adianta pra mim ter só te estrangulado
e depois disso tudo, teu túmulo violado.
Desde que te vi, o amor me tomou inteiro
então, com tua essência, quero uma mistura de veio
que penetra a rocha com toda virtude
e dela se torna parte e também vicissitude.

Por isso, te tomo de minha posse total,
sou teu, minha bela, somos bem e mal.

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Desenterrei este texto do fundo do baú. Estou numa fase de leitura, mas quero postar, então vai este bicho.

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