Contos, Papo furado

Todo bêbado é um aforista


O denso ar do bar, acortinado pelas ansiedades de fumantes em polvorosa. Isso nem existe mais, talvez esse bar esteja em outra época. Não importa. Há pontas acesas, pescoços virando para o alto, para os lados. Cabeças se mexendo em gestos adragonados. Dois homens sentados numa mesa no canto. Os únicos que não fumam.

– É o câncer, meu filho, a única libertação possível.

– Qualquer morte é uma libertação.

– Não. Apenas a morte sofrida é uma libertação.

– E o que dizer do amor?

– O amor?

– Sim, o que dizer?

– O amor é para os cretinos.

– Deus te abençoe… Jesus pregava o amor.

– Exatamente.

– Quer dizer que todos nós, amigo, fomos libertados na cruz por um cretino?

– Deus não nos fez imagem e semelhança?

– E o que a morte tem a ver com o amor?

– Tudo.

– Nada.

– Pois é. São a mesma coisa. Ambos não existem.

– Morte e amor?

– Morte, amor, tudo, nada…

– E a cretinice?

– Essa existe e é contundente.

– Como o câncer.

– Claro. A maior das cretinices é não aceitar o câncer.

– A morte dolorida é o amor que devemos ter?

– Todo amor, pra ser amor, tem que ser ferido. Quem não amou nunca, deve morrer sofrendo. Já basta.

– Já basta? Amar, amigo, nunca foi necessário.

– Quem nunca sofreu não viveu. Quem é feliz ou é burro ou está morto.

– Então, o amor é felicidade.

– Não, a morte é felicidade.

– Então devemos morrer?

– Hmm… Sim. Mas aos poucos, senão não vale.

– Então todos seremos felizes um dia?

– Claro que não. Apenas os eleitos. Apenas o câncer liberta.

– E o que a cerveja tem a ver com tudo isso?

– Nada. Por isso é tão boa.

Levantaram os copos e brindaram. Respiraram fundo. Livres. Era uma noite longa.

O denso ar do bar, acortinado pelas ansiedades de fumantes em polvorosa. Isso nem existe mais, talvez esse bar esteja em outra época. Não importa. Há pontas acesas, pescoços virando para o alto, para os lados. Cabeças se mexendo em gestos adragonados. Dois homens sentados numa mesa no canto. Os únicos que não fumam.

– É o câncer, meu filho, a única libertação possível.

– Qualquer morte é uma libertação.

– Não. Apenas a morte sofrida é uma libertação.

– E o que dizer do amor?

– O amor?

– Sim, o que dizer?

– O amor é para os cretinos.

– Deus te abençoe… Jesus pregava o amor.

– Exatamente.

– Quer dizer que todos nós, amigo, fomos libertados na cruz por um cretino?

– Deus não nos fez imagem e semelhança?

– E o que a morte tem a ver com o amor?

– Tudo.

– Nada.

– Pois é. São a mesma coisa. Ambos não existem.

– Morte e amor?

– Morte, amor, tudo, nada…

– E a cretinice?

– Essa existe e é contundente.

– Como o câncer.

– Claro. A maior das cretinices é não aceitar o câncer.

– A morte dolorida é o amor que devemos ter.

– Todo amor, pra ser amor, tem que ser ferido. Quem não amou nunca, deve morrer sofrendo. Já basta.

– Já basta? Amar, amigo, nunca foi necessário.

– Quem nunca sofreu não viveu. Quem é feliz ou é burro ou está morto.

– Então, o amor é felicidade.

– Não, a morte é felicidade.

– Então devemos morrer?

– Hmm… Sim. Mas aos poucos, senão não vale.

– Então todos seremos felizes um dia?

– Claro que não. Apenas os eleitos. Apenas o câncer liberta.

– E o que a cerveja tem a ver com tudo isso?

– Nada. Por isso é tão boa.

Levantaram os copos e brindaram. Respiraram fundo. Livres. Era uma noite longa.

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