Contos

O amor não é à prova de balas


Estava um calor do caralho.

Na minha mesa estava a garrafa de cerveja dentro da camisinha, copo só por protocolo, não bebia no gargalo por pudor, mas mal dava pra encher o bicho. Só golando. Eu estava na quarta garrafa. Ela ainda não tinha chegado.

Pouca gente, um bar de subúrbio, segunda-feira. Três da tarde. Só os cachaceiros estavam presentes.

Mesmo por isso: era carnaval, as pessoas estavam na rua, brincando. Estridentes orquestras de frevo passavam todo o tempo pela rua. O único bar aberto tinha que ser esse pega-bebo. Mas prefiro esperar aqui, assim, relaxado. Gosto disso, é tranquilo, as pessoas são miseráveis, ou parecem ser, mas se respeitam até certo ponto. Ninguém incomoda ninguém.

Quer dizer:

– Boa tarde, disse um velho.

– Boa.

– Tu tá aí, todo calado, vai brincar o carnaval não?, disse, se sentando.

– Vou, sorri, vou sim, estou só esperando uma pessoa. Velho abusado, pensei.

– Ah, legal, ele tinha uma boca estranha, parecia herpes ou, sei lá, estava roxa de vinho.

– O que o senhor quer?, eu disse, sendo direto.

Ele pôs no rosto uma expressão de desesperança com a vida.

– Só um pouquinho de cerveja, eu não tenho dinheiro, você sabe, tá calor e…

– Seu Zé!, eu disse.

Pedi que trouxesse mais um copo. Eu devia ter chutado esse rato idoso da minha mesa, mas simpatizei com a cara dele. Imagina se ela chega e me vê conversando com um tipinho que nem esse? O que ela pensaria de mim?

– Toma essa comigo, chefão.

– Obrigado, meu rapaz, um sorriso vazio de dentes.

Ficamos calados, eu olhava para o meu copo. Ele olhava ao redor.

– Tinha uma época, meu fio, que esse bar era melhor. Tinha umas mulherzinha, sabe?

– Hum…

– Eu gostava de uma chamada Uíle.

– Hum…

– Rapaz, ela dançava uma gafieira de primeira. Esse nome é americano, Uíle, ela era bem pretinha de carvão, mas queria ser do estados unidos.

– Hum… Tem pretinhas de carvão nos estados unidos também.

– E tem é?

– Tem.

– Oxe…, pensei que só galega dos olho azul.

Ficamos pensativos. O mundo era estranho, e sempre tinha a capacidade de nos surpreender. Via isso nos olhos do velho.

– Rapaz, eu achava que essa Uíle era mentirosa. Mas se tem pretinha de carvão no esteites, sorriu.

Esvaziei meu copo. Enchi o meu e o velho ofereceu o dele pra que eu enchesse também. Ele já tinha tomado há muito tempo.

– Vai ver era mentirosa sim. Esse bar não tem cara de ter abrigado estrangeiras.

– Meu jove, eu te digo: isso aqui era uma gafieira de primeira. Mas derrubaram a outra parte, agora tem essa oficina mecânica do lado. Era um salão, tinha uns quarto, algumas moças até morava aqui.

– Hum… Então derrubou mesmo o negócio.

– Oxe, se. Caiu, meu fio. O coisa é que a gente vai ficando por aqui mesmo. A vida é assim, ela te dá umas rasteira.

Ficamos mais um tempo calados. A cerveja estava acabando.

– Esperando quem?

– Uma moça.

– Ah, nem quero atrapalhar, fio.

– Tá um calor do caralho.

– É…

– Se quiser, peço outra.

– Deus te abençoe.

Outra garrafa chegando na mesa. Ele tomou um copo numa golada, sorriu-me com os olhos. Continuou:

– Sabe fio, Uíle era só charme. Ela dançava colado, rebolava, ela tinha mola no lugar dos osso.

– Hum…

– E eu te digo…

Chegou um pouco mais próximo, o hálito dele era horrível.

-… Ela sabia agradar um homem.

– Sei.

– Mulher tem que saber agradar homem, senão não presta. Só pa botar dentro de casa e fazer as coisas, que eu sou do tempo, fio, que a gente não fazia as coisa boa da vida com esposa não, mãe de filho é pra gente respeitar, to certo?

– Tá sim, tá sim.

– Pois então. Mas a danada da Uíle me deu uma chave de priquito.

– Hahaha.

– Acabei levando a dita cuja pra dentro da minha casa.

– Foi mesmo?

– Foi. Pense no falatório do inferno. Mas eu era feliz, fio.

– Devia ser.

– Ela nem era esposa, só ajuntado. Eu queria safadeza.

– Hahaha, está mais que certo.

– Hahaha, mas ela me lascou, fio. Hoje eu sou assim por causa dela.

– Hum…

– Se ajuntar com puta o cara leva gaia, disse tristemente.

Não deu pra agüentar. Gargalhei. Muito. Quando gargalho minhas orelhas esquentam. Deviam estar vermelhas. Quase caio, bati a mão na mesa e o meu copo rolou, derramando o resto de cerveja e se partindo no chão. Todos no bar olhavam pra nós. Meus olhos estavam cheios de lágrimas. Os do velho também, mas por outro motivo, acho. Sua expressão era de tristeza. Uíle significava alguma coisa pra ele que eu, sozinho, ainda não poderia explicar. O amor deve doer assim mesmo. Ele nunca foi à prova de balas.

Nos encaramos com um sentimento estranho, como uma pasta. Ele levantou a cabeça e disse “então já vou, meu fio, obrigado pela cerveja.” Se levantou com dificuldade, devia estar bebendo desde cedo. Eu ainda ria enquanto ele mancava até a porta do bar, indo embora. Assim que ele saiu, ela entrou. Sorriu quando me viu. Olhei em volta e mostrei 15 reais ao dono do bar, deixando o dinheiro embaixo da garrafa. Peguei-a pela mão, como era linda. Pretinha de carvão, os olhos retintos, a pele brilhosa, o corpo firme. Gostosa. Todos nos olhavam. Então saímos abraçados, felizes, para brincar o carnaval. Os sons do frevo na rua embalavam o nosso futuro. E o sorriso vazio de dentes do velho, sem querer, passou pela minha cabeça enquanto eu e ela demos nosso primeiro longo beijo na boca do dia.

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