Contos, Papo furado

Saliva


Você chega aos vinte anos e não amou ninguém até agora. E isso nunca foi considerado um fracasso até ter amado fortemente alguém pela primeira vez. Grande coisa, você diria, se o destino, porra, esse tremendo lugar-comum, tivesse força o bastante pra acabar com a sua festa, foder com sua barra, tentar te matar.

E você tem vinte anos completos e só não morre porque lembra que alguém disse uma vez que ninguém morre aos vinte anos.

E mesmo que isso seja tão forte para que você sinta vontade de cuspir fogo ou que se sinta moído por dentro, um invólucro, um pote sem nada dentro, você não tem lágrimas e continua achando que elas, as lágrimas, são coisas ridículas demais pra que você as use.

Como se você fosse forte o suficiente.

E litros de cerveja só te afogam. Como ela, a cerveja, entrou nesse assunto eu não sei, quando vi era só mais uma lata aberta. E mais outra, e mais outra, e mais outra, e seus lábios estão grudentos e você não tem fome.

E você sabe que antes de tudo isso, tristeza, amor, decepção, sentimento, essa merda toda era só uma coisa que os outros tinham e que você analisava com prazer. Com prazer.

Os sentimentos dos outros sempre são coisas engraçadas.

E ver eles se fodendo também.

Pimenta nos olhos dos outros e mais quilhões de lugares-comuns disfarçados por neologismos e câmeras tortas.

Seus dedos batendo no teclado são um tiroteio como o de Hemingway. E você está cuspindo palavras, umas atrás das outras, e elas simplesmente não são o suficiente.

São apenas saliva. Algo parecido com lágrimas, essas coisas ridículas.

Como se fosse o final de tudo, um texto é um perdigoto.

Como se tudo fosse forte o suficiente para que você sofresse, que se dane todo esse sentimentalismo, você diria, mas o pior é que ele está arraigado nas suas tripas.

E todo o texto são suas tripas, que alguém as guarde e acondicione abaixo dos 3 graus Celsius.

E outra lata aberta, a espuma fazendo os seus lábios ficarem grudentos. Para bloquear lembranças, a tagarelice, as dezenas de latas abertas. O tiroteio de Hemingway.

Você não sabe a hora de parar de escrever. Mesmo que já tenha enchido o saco, mesmo que ninguém mais queira ler essa lenga-lenga toda. Isso se chama catarse.

Eu chamo de foda-se.

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2 comentários sobre “Saliva

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