Contos

Tortinho


Manco, ao portão, uma sombra cinza escondendo parte da face, a boca torta a sorrir umidade – babando a baba de sempre e amém.

– Olha ali seu Zé Tortinho!, grita João correndo pro campo. Moleque abusador.

Zé Tortinho arrastando o pé esquerdo, vai pro quintal, pra baixo do pé de acerola. Um filete brilhante ligando a boca ao peito, a mancha molhada na camisa, crescendo, crescendo.

Anos que ir pro quintal era passeio, desde o derrame. Era homem de beber madrugada, braço forte, mão grossa de marcenaria. Cuspia pra cima e não caía de volta. Mulher era divertimento.

Fora casado com dona Cessa, que chorava demais, conta da boemia.

– Mulher não sai, homem precisa, falava Zé, arrumando o cabelo sarará, loiro brilhando de gel, se perfumando no espelho, mais uma noite por aí.

Cessa assentia com raiva e amor, coração dividido. Homem é homem, fazer o quê?

Ele a esmo na rua. Todos os cabarés do Recife.

Oito da manhã um dia. Bêbado, voltou pra casa. Dona Cessa no sofá, televisão ligada, Ana Maria Braga.

A porta abrindo devagar.

– Tem café, Cessinha?

Ela ali olhando, indignada, entronchou a boca e disse que sim, tinha na cozinha.

Arrastando pela parede ele foi, o cheiro doce no corpo: vinho, suor e alfazema. Sentou à mesa da sala, xícara tremendo no pires, saco de pão francês noutra mão.

– Que… que cara é essa, porra?, Zé falando embromado.

– Nada, ela respondeu, nada não.

– Humpf, pensei que fosse.

Zé raivoso, sempre certo, era o homem da casa.

Terminou de comer foi pra cama, sem banho, sem nada.

Dona Cessa na cozinha, adiantando o almoço. Ocupada, até mais tarde não foi ao quarto. Foi no mercadinho, nem viu quando Zé acordou, gemendo dor de cabeça, levantou e chamou Cessinha, por favor.

Ela chegou ele no chão, boca torta, olho revirando, desesperada ligou pro SAMU, chamou vizinha e vizinho. Meu Deus, que aconteceu contigo?!

Tempo no hospital. Apenas dormia, o safado. Dona Cessa sempre do lado, alisando, cuidando.

Foi levado pra casa, a vida toda deitado numa cama, diziam.

Acordado, falar não podia, a língua grossa, grossa.

– Agora você me paga, dona Cessa sussurrava com carinho.

Trouxe um homem pra dentro, ele nem se mexer podia. Um negro forte, cara de ruim, ela pegando na mão dele.

– Na cama?, perguntou o tição.

– Sim, na cama, dengosa dona Cessa.

– Mas e ele?

– Doente, não vai nem perceber.

Os dois se espremendo ao lado de Zé, ouvindo e vendo tudo. A cada gemido dela, uma lágrima grossa no canto do olho do homem da casa.

Nenhum dó ela sentiu ao vê-lo deitado, cada olho uma bola de fogo. Ela riu com maldade e deleite: estava um pouquinho vingada.

E como se vingou, a megera.

Quando ela foi embora que ele se aliviou de tudo. Recuperou-se lentamente e sozinho. E sozinho, também, virou o Tortinho na boca da criançada.

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2 comentários sobre “Tortinho

  1. Impressionante como a vida faz da gente o que bem quer. Hegel estava certo quando citava o Espírito Absoluto como categoria central de sua filosofia. Depois que essa força, que é muito maior que nós, se satisfaz, nos deixa entregues ao tempo.

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