Contos

Noitezinha mixuruca


Coloquei a mochila nas costas e deixei o telefone tocando, eu que não atenderia aquela porra bem na hora do meu passeio.

Sete da noite. No quintal fiquei olhando pra rua, a poeira levantada no asfalto sujo. Debruçado no muro, qual namoradinha do século passado. A campainha continuava seu grito desesperado lá dentro de casa, por isso saí de vez. Ganhei a rua, um cachorro preto me seguiu, ficou me cheirando até eu resolver dar um chute nele.

Peguei um ônibus pro centro, fiquei olhando o movimento das ruas aos poucos ir diminuindo. Sete e meia.

Parei no Cais de Santa Rita, os bares vagabundos funcionando. Sentei numa mesa, pedi uma garrafa de carreteiro, uma porção de fígado de alemão, coloquei meus amigos (uma carteira de derby, um isqueiro e a minha mochila) em cima da mesa e fiquei olhando pra eles, ouvindo kelvis duran, que a dona do barzinho havia posto no devedê.

Enxugava a garrafa, as quenguinhas passavam, mil sorrisos vazios.

Sentar sozinho num bar de filhos da puta, fumar cigarros de merda e beber vinho ordinário. Esperava por Deus, que havia de me abençoar.

– Olá, disse uma mulher, sentando à minha mesa. Morena, olhos negros de cão, lábios vermelhos, uma cicatriz na sobrancelha esquerda, grandes peitos moles saindo de uma blusa preta, apertada.

– Olá, respondi sorrindo.

– Esperando alguém?

– Sim.

– Quer que vá embora?

– Não, fica, estou esperando alguém que não virá.

Pedi mais um copo à dona do bar.

– Ah, que eu quero um pouquinho de vinho também, ela disse.

Ficamos ali calados por um tempo. Eu olhava o cenário à minha volta, algumas pessoas dançavam ao ar livre. Do outro lado da grade, uns poucos otários esperavam ônibus no terminal do Cais.

– Você não fala muito né?

– Não.

– Vem dançar, ela disse, se levantando. Tinha uma bunda grande, realmente grande, a calça jeans apertada.

– Não, prefiro observar você, ofereci meu sorriso mais simpático.

Ela ficou lá, rebolando, olhando pra mim com a cara da puta que ela era. O brega. Chegou um cara e a abraçou. Ficaram se esfregando. Terminei a garrafa, o gosto doce na boca, levantei, aplaudi os dois, fui até a dona e paguei minha conta, depois voltei até a morena e coloquei dez reais no decote dela.

– Obrigado pela companhia.

Oito e trinta e cinco. Caminhei em direção à ponte Maurício de Nassau, estaquei num poste e dei uma mijada deliciosamente reconfortante.

Continuei pela ponte, parei na estátua do poeta Joaquim Cardozo, ele sempre saudando quem passa pelaquela merda. O rio era a coisa mais negra que podia existir nessa cidade àquela hora. Um cara jogava tarrafa, fiquei olhando ele trabalhar, acendi um cigarro.

Um mendigo parou do meu lado, ficou falando um monte de maluquice. Estávamos eu e Joaquim observando o outro cara pescar. O mendigo falava qualquer coisa, mostrando uma garrafa de fanta vazia pra mim. Puxei uma moeda do bolso. Cinquenta centavos, ele devia estar com sorte. Estendi pra ele e ele foi embora. Nove horas. Também segui meu rumo.

Fiquei zanzando pelo recife antigo. Dei uma parada no Burburinho, tava rolando um Queen no som.

Cerveja cara, posso pagar no cartão?

Gente bonita e descolada. Deus havia de me abençoar.

Um cabeludo passou pela minha mesa.

– Opa, ele disse.

– Opa.

Era poeta, me ofereceu seus livros.

– Porra, velho, poesia não. Poesia é perda de tempo.

Assentiu com a cabeça e foi embora. Que tipo de escritor era ele?

Metade da carteira de cigarro, eu que já devia estar ficando louco por passar horas e horas sozinho, olhando os outros fazerem diversão de suas vidas noite a dentro. Ninguém mais parou na minha mesa, graças a Deus.

Puxei o caderno da mochila, alto de uma garrafa de carreteiro e seis cervejas geladas, e tentei cometer uma poesia também. O céu era um lilás fino, de poucas nuvens, o velhinho garçom disse: – Vamos fechar já já. Quatro e meia. Nem tinha visto o tempo passar.

Não cometi poema nenhum, nem porra nenhuma. Era melhor assim.

Terminei de amanhecer meu dia no marco zero, vomitando no mar. Uma das cenas mais bonitas que alguém pode viver.

Depois de vomitar, senti finalmente o baque do álcool na cabeça. Precisava de uma cama.

Já era dia quando resolvi voltar pra casa. Caminhei de volta pro Cais, todos os mendigos estavam estendidos no chão. Os carros já começavam seu movimento. Outro dia de trabalho. Grande sorte a de todos os trabalhadores.

No Cais, do outro lado da grade. Mais um otário à espera do ônibus. A morena ainda dançava no bar, completamente bêbada. Tinha outro cara agarrado nela. Me viu, sorriu e acenou. Respondi. Gente fina ela.

O ônibus veio vazio, fiquei cochilando, pescando sono até chegar no meu bairro, com suas ruas amareladas e fedendo a merda, como todo subúrbio do Recife, abençoados sejam todos os subúrbios do Recife. Um cachorro ficou me cheirando até eu entrar pelo portão de casa.

Abri a porta, calma total, vontade de mijar de novo, um sono filho da puta. Voltei do banheiro, sentei no sofá, olhei pro teto e deitei. Noitezinha mixuruca. Já começava a dormir, o telefone se pôs a tocar. Puta que pariu. Cobri a cabeça com uma almofada e dormi tão profundamente que voltei a sonhar, coisa que não acontecia comigo já havia algum tempo.

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