Poeminhas

Baladinha pruma visão da rua


A mendiga do porto
com os pés dentro dágua

mordendo fumaça
de carro e navio

engolindo óleo:
é motor de barcaça

respirando o fumo
que atraca no fio

A mendiga do porto
parada no cais

os pés mergulhados
no mar que iridesce

retira da água
os pés sem jamais

raspar do joelho
a craca que cresce

A mendiga do porto
tão porca ela sua

tão parca é a sua
noção do que é limpo

e vai, gota a gota,
à crosta da grua

crescendo crescendo
agarrada no limbo

A mendiga do porto
de óleo de máquina

no porto ela é planta
do mar ela nasce

do mar preto e fundo
do mundo do imundo

tão sujo e profundo
do podre um enlace

A mendiga do porto
que come fumaça

que faz da carcaça
um banquete pro frio

tremendo ignora
todo mal que passa:

o olhar vagueando
e o mar tão vazio

A mendiga do porto
porto sujismundo

onde não se mexe
e ninguém estiva

os pés dentro dágua
remando um pra sempre

pra sempre pra sempre
pro tudo e pra vida.

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