Contos

Sábado


Bem, já que não lembra da história, vou contar como você me contou. Você estava com os nossos amigos, Bruno, Otávio e Luís, no Bar do Lagarto, e se você não lembra como é o bar eu te conto também, lembra da mesa de sinuca?, onde ficam aqueles caras que vendem o pó e o fumo, e a mesa de totó onde todo mundo vai jogar às vezes? e as mesas de plástico com o nome skol e o bar propriamente dito que é só uma casinha pequena, com as paredes pintadas de cal? E é aquele tipo de bar onde vai todo tipo de gente, os riquinhos que querem ser alternativos e os pobres que são pobres mesmo e todos se misturam pra ouvir Raul Seixas e fumar baseado e sentir o clima, porque é perto da praia e sempre tem pessoas bonitas por lá a fim de fazer novas amizades. Isso aí, lembra? e vocês estavam numa mesa como sempre, conversando, umas nove e pouca da noite e estavam com pó e bolinha meio que escondidos, mas todo mundo sabia que vocês estavam com pó e bolinha, mas eu não sei se lembra que a gente nunca toma nada demais, só pra ficarmos acordados a noite toda e ter disposição pra noitada e etc, menos o Luís que sempre exagera e tem um bafo horrível de tanto tomar bolinha, lembra? Bem, então teve a mulher, que você me disse que era gringa e você realmente ficou a fim dela, que era americana e se chamava Sarah ou Sally ou qualquer coisa com s e que ela era magra e tinha um nariz pontudo, mas charmoso, e que tinha uma marca de sol muito branca subindo pelo ombro, marca de biquíni, enquanto o resto da pele estava rosinha, um rosa sensual, e que ela tinha os ossos das clavículas bem pontudos e os seios grandes, que pesavam na blusa amarela que ela vestia. Você também falou dos olhos azuis e do sotaque, que não vou imitar, não é possível que você tenha esquecido até do jeito que os americanos têm quando tentam falar português, pois o médico disse que sua perda de memória é apenas para os fatos das últimas semanas. Enfim, lembro também que você disse que ela chupava mexendo a língua pra esquerda e pra direita bem rápido na cabeça do pau, o que deixou você louco, e que mesmo só tendo conhecido a Sally ou Sarah ou qualquer coisa com s apenas naquela noite, ficou com ciúme quando o Bruno, o Otávio e o Luís também foram chupados e você também disse que ficou com ciúme quando vocês fizeram aquela suruba com a galega, porque de alguma forma sentia alguma coisa que parecia paixão por aquela piranha. E você também disse que ela tomava bolinha como se fossem acabar para sempre do mundo e você ficava dizendo take it easy mas ela respondia fuck off e sorria meigamente e isso te desarmava, isso foi antes de vocês foderem com ela, então ela começou a falar da vida, dizendo que era filha de uma executivo ou industrial, um grandão qualquer, e que tinha grana pra gastar com o que quisesse então ela pediu pó e vocês deram pó e ela cheirava como um aspirador e o Bruno queria colocar sal no pó dela, mas vocês não deixaram e disseram que queriam deixá-la doida pra que ela desse pra todo mundo então o Bruno concordou e é só isso que eu lembro dos pormenores do Bar do Lagarto, porque depois disso você falou que foram prum motel, um meio vagabundo, só um frigobar com cerveja e vinho e uma cama que rangia, e ficou contando como vocês comeram Sally ou Sarah ou qualquer coisa com s, então eu te disse que essas gringas vinham pros nossos países latinos atrás de pica mesmo, então nós rimos, lembra?, mas só até aí é a parte engraçada. Porque é óbvio que a puta loira exagerou e cheirou e bebeu e tomou bolinha demais, e todos estavam bêbados e nem ligavam pra nada, você contou que ela espalhou carreiras na mesa de telefone ao lado da cama e fungava enquanto algum de vocês a enrabava, e que ela tomou duas bolinhas engolindo porra de alguém e que tomou todas as garrafas de carreteiro que pôde, então você disse que ela ficou meio mole e depois desmaiou e começou a babar uma espuma feiosa e fazer um barulho que era uma mistura de gargarejo, como se estivesse usando listerine, com rosnado de cachorro, então alguém disse ela ta vomitando e realmente ela tava engasgando com o vômito, você virou ela de bruços, a levantou e apertou o corpo dela por trás, fazendo aquela manobra pra desengasgar pessoas. Você falou que apoiou os braços logo abaixo dos peitões, que cobriram seus antebraços de uma forma bem macia, e então ela vomitou o chão todo, e vocês ficaram morrendo de nojo pois no vômito tinha macarrão, a carne que vocês beliscaram no bar, porra, pelo menos algo que parecia porra e devia ser mesmo pois ela engoliu porra de todos, e bolinha, muitas bolinhas. Então você jogou ela na cama e ela parecia dormir, por isso vocês ficaram mais calmos mas de repente ela começou a se tremer e do nariz dela começou a escorrer um sangue meio preto, do nariz, da boca, e você disse que até do ouvido e manchou o lençol branco da cama do motel, então vocês se desesperaram, tiraram a gringa da cama, jogaram ela no chão e ficaram sem saber o que fazer pois não queriam chamar médico pois poderia dar polícia na onda e aí acabava com a gente, então Bruno, Otávio e Luís decidiram que não poderiam fazer nada por ela e você ficou puto e disse que vocês tinham que ajudar a gringa, mas enquanto você choramingava já era tarde demais pois ela parecia morta. E o negócio é que ela estava morta mesmo. Mas, tudo certo, vocês simplesmente pararam um pouco pra respirar e, mesmo meio bêbados, desceram as escadas e você carregou a gringa até o carro, como se ela estivesse dormindo e você me disse que ela estava feia, a cara retorcida, mas você ficou no banco de trás apoiando a cabeça dela no colo, fazendo carinho no cabelo dela, escondendo aquela careta, e o Bruno também no banco de trás, segurando as pernas dela, mas isso não acabou sendo necessário, pois o cara da guarita nem olhou pra quem tava no carro e só pegou o cartão de crédito do Luís e disse boa noite. E enquanto vocês andavam por aí, ficaram confabulando onde e como se livrar daquela porra e ficaram quase uma hora rodando pelos bairros, então o dia já começou a amanhecer e vocês resolveram jogar a defunta na beira da estrada mesmo, perto do mato, pois ainda não tinha ninguém na rua e vocês tinham que aproveitar a hora. Você me disse que ficou morrendo de pena de deixar a defunta ali, como se fosse lixo, mas era isso ou a polícia então vocês foram embora voados. Você disse que o clima ficou meio tenso no carro, mas aí alguém falou que há anos não aparecia um defunto tão bonito naquela estrada e todos ficaram risonhos de novo e o Otávio deixou todo mundo em casa, pra cuidar das próprias vidas, pois o carro é dele, lembra? E então eu te disse ainda bem que não pude sair com vocês naquele sábado, hehehe. Bem, mas agora meu tempo acabou e eu vou indo nessa, cara. Melhoras pra você. Se cuida.

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Um comentário sobre “Sábado

  1. Realmente, tem algo muito parecido entre meu conto e este. Os dois poderiam até se tornar uma história só. Por sinal, eu escrevi o meu depois de ouvi runs comentários sobr euma festa num motel, o que torna os dois ainda mais parecidos.

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