Contos

Mais um filho da puta


Eu que não tenho amigos no mundo, sou só um filho da puta, mas quando eu tava no hospital, no meio do corredor do HR, adivinha quem aparece?, Lucas, o Chapinha. E sem interesse nenhum, na camaradagem mesmo. Ele disse, tudo bem aí, movéi, eu respondi, tudo bem, estava acordado mesmo, só essa sonda que ta me fodendo, é foda ter que esvaziar a urina toda vez, é uma vergonha do carai.

Ele ficou com pena, eu vi isso no jeito dele falar comigo, mas, quer saber, até eu tava com pena de mim.

E a conversa seguiu por um tempo, até a gente falar do Sport, que ta fodido, e ficamos falando de futebol até ele tocar no assunto, quem foi o filho da puta que fez isso contigo?

Não sei, respondi.

Eu sei.

É?

Esse puto merece se arrombar.

Então eu fiquei olhando pra ele, sem saber onde enfiar a cara, eu tava com muita raiva do cara que me deu essas facadas, e, na moral, eu queria que ele tomasse no cu mesmo.

Olha, disse o Chapinha, eu vou embora. Foi bom falar contigo.

Vá lá.

Toma aí meu telefone, quando tiver alta me liga.

Então.

E foi assim. Dias passaram, eu inchado, facada na barriga, no braço, no peito, minha vida era sopinha, enfermeira, maca, gaze, mijo, ah doutora, tem nada pra fazer, ah doutora, eu quero sair, porra doutora. E dormir, puta que pariu, nunca dormi tanto.

Um dia assim, minha irmã aparece no hospital. Gente pra carai no corredor. Nunca tinha visto ela daquele jeito, a puta, não tinha vindo um dia sequer me ver. Eu não disse nada, a gente ficou só se encarando, cada um querendo falar qualquer coisa, mas com vergonha um do outro. E ela tava com uma cara estranha. Situação chata da porra.

Então eu notei, a cara dela era raiva, véi, raiva de verdade, e eu digo, oi Dalvinha, então ela começa a chorar feito doida.

Eu de novo sem saber o que dizer.

Ela se sentou no chão, a mão na cara, eu não sabia de nada.

Ela se levanta e diz, seu filho da puta, foi seu amigo.

Como é?

Mataram o Rafael! Meu marido, mataram! Foi seu amigo quem mandou matar!

Ficou gritando, o resto do povo no corredor mandando ela calar a boca. Então chegaram dois vigias, eu fiquei dizendo que não, mas eles acabaram botando ela pra fora.

Mais cinco dias eu tava fora do hospital. Finalmente, né situação pra ninguém não. O foda é ter que carregar a bolsinha de mijo pra todo canto, sem ter onde dormir na rua, sem ter pra quem recorrer.

Liguei pro Chapinha assim que saí, mas o número que ele tinha me dado era errado. Sei lá que porra deu nele pra me dar um número errado. Fiquei vagando por aí, a bolsa de mijo de lado, na rua qual bexiga do mundo cicatriza?

Mas fiquei bom, graças a Deus, e voltei pro meu bairro. Alívio quando a doutora tirou os dois cateter.

Depois que eu soube de tudo, a história toda, foi um menor que pipocou o marido da Dalvinha, o viado que me esfaqueou quinze vezes. Eu fiquei feliz, velho. Sei que não foi nenhum amigo meu quem matou, não tenho amigos no mundo. Sou só mais um filho da puta.

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Um comentário sobre “Mais um filho da puta

  1. oi ! gostei muito da história,vc e engraçado pra carai…
    comentei aqui pra dizer que esse maluco que te esfaqueou tem que se fuder mesmo, tomara que ele esteja no inferno….e nunca mais vai encher a porra do saco de ninguem e nem esfaquear ninguem….foda-se ele….e não fica com pena da puta da sua irmã ela vai ficar melhor sem aquele filha da puta…..e da um alô pro menor ….valeu menor !!!
    apenas escolheu o cara errado… é isso!!!!!
    pô cara, um abração e sua história foi muito maneira……..!!!!!!!!!!!!!!!!

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