Contos

Náilon


Capítulo 1

Os seios de Estela. Ela anda e o balanço, ah o balanço. Eu no corredor, copinho de plástico, a torneirinha com os cubinhos desenhados, a água gelando meus dedos, a bolha subindo no garrafão, Estela vindo pelo corredor, de frente, ah, os seios. Estela indo, a bunda, e o balanço. A goladas, esfriando o esôfago. Volto pro escritório, sento na frente do computador. Relatório mensal a caminho.

Capítulo 2

Essa linha piscando, quando o sol bate ela toma as cores do arco-íris. Náilon de violão, dóin, dóin, não sei que nota é.

Capítulo 3

– Aqui. Jucimar pediu para que você catalogasse esses documentos aqui, ok?

– Ok.

– E depois fizesse aquela planilha que ele te pediu.

– Ok.

– Tem café aqui?

Estela abre a garrafa térmica, cheiro de café pelo escritório, enche um copinho. Percebo a curva de sua cintura, os seios meio escondidos pelo blazer, a curva do colo, as sardas, a respiração.

– Quer café?

– Não, não…

– Então eu vou indo. Ah, gostei da gravata.

– Obrigado.

Capítulo 4

Play. O cachorro. Gosto de cachorros, percebo algo de errado com eles só de olhá-los. O batonzinho, a moça, japonesa, em dogstyle. É um dálmata, ele já começa sem dó, a japa faz uma cara de que está tendo a melhor transa da sua vida. O cachorro não. Nunca comeu uma cadela tão feia.

Capítulo 5

– Você fica me olhando.

– Confesso.

– Sabe, aqui é um ambiente de trabalho, não pega bem ficar se curvando para as mulheres.

– Me desculpe, é inevitável.

– É?

– É.

Ana abre um sorriso cativante para mim. Retribuo. Um brilho revolvendo o verde de seus olhos. Observo em volta: por onde anda Estela?

Capítulo 6

As facas mais afiadas são as que nunca cortaram nada. Nem ninguém. O amor só me deixa mais triste. Por quê?

Capítulo 7

– Junta de Pareceres.

– Alô?

– Alô.

– Com quem falo?

– Lucas.

– Lucas, poderia me passar para o Geraldo?

– Claro.

Olho para a mesa do lado, Geraldo pega o fone. Me levanto e saio. Caminho pelo corredor, encontro Bruno, ele carregando uma pasta amarela.

– Lucas, faz um favorzinho, entrega essa pasta na sala 13.

– Claro. E sigo para a sala 13. Da sala 9, sai Ana, loira, gordinha, mas bem feita, passa por mim, um meio sorriso, acompanho seus passos, olho para trás, ela também olha, meio sorriso que vira sorriso, então sigo para a sala 13.

Capítulo 8

– Pega com mais força!

Faço o que ela diz, a carne da coxa interdigitando pelos meus dedos, tiro a mão e lá está a marca na pele branca.

– Vai… Não para…

Gotas de suor grosso pela minha testa, pelo meu peito, o umbigo de Ana se mexendo. Uma geléia. Os peitos não, rocha, mexendo só pela base.

– Olha pra mim, no meu olho.

Atendo. O olho mais verde que sempre.

Capítulo 9

Controlcê, controlvê, “É imprescindível que o autor compareça à autoridade mais próxima para confirmar sua inscrição no programa…” O telefone toca.

– Junta de Pareceres.

– Alô?

– Alô.

– Geraldo, por favor.

Olho para a mesa do lado, Geraldo pega o fone. Me levanto e saio. Caminho pelo corredor, vou até o bebedouro. Copinho de plástico, a torneirinha com os cubinhos desenhados, a água gelando meus dedos, a bolha subindo no garrafão. A goladas, esfriando o esôfago. Ninguém. Volto pro escritório, sento na frente do computador. Levantamento de pareceres de 2008 a caminho.

Capítulo 10

E lá está ela, a ginsu. Só pelo nome. Nunca tinha comprado nada pela internet. Ginsu, cortar o quê? Deixo na caixinha, na estante, ao lado da televisão.

Capítulo 11

– A gente sai de novo hoje?

– Por mim tudo bem.

Ana pega a minha mão, me beija no rosto.

– Aqui não. Ambiente de trabalho.

Da sala 8 sai Estela. Ela vindo, anda e o balanço, ah o balanço.

– O que foi?

– Nada.

– Olhando pra essazinha aí?

– Não, só tenho olhos pra você.

– Seu cachorro!

– Aqui não. Ambiente de trabalho.

– Você me paga.

Tento beijá-la no rosto, ela se desvencilha, segue para sua sala. Vou até o bebedouro. Estela ainda caminha.

Capítulo 12

Demitido foi uma palavra muito forte. Eu não sei bem o motivo, contenção de despesas Vírigina-do-rh me disse. O triste é não mais ver Estela, Ana não quer mais nada comigo, ciumenta demais, nem quando a presenteei com minha ginsu dentro da caixa. Somos amigos, ela disse, aceitando o presente, tudo bem então, e dei um beijo no rosto dela. Geraldo assentiu com a cabeça, tomaremos umas cervejas, risos, eu estava só cansado. Fui pra rua, finalmente, gastar uns centavos. No camelô, comprei um filme. Voltei pra casa e Deus me livre, não mais relatórios, é melhor aproveitar.

Cerveja, putas e cama.

Capítulo 13

Nada como uma boa vagabundagem. Estico a corda contra o sol que entra pela janela, o arco-íris. Bonito, enrolo no meu pescoço. O controle remoto na outra mão. O último filme pornô dos japoneses.

Play.

Eu sou David Carradine.

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2 comentários sobre “Náilon

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