Contos

Estação do sol


O sonho que tive: a escuridão na Rua da Aurora, não mais prostitutas na Rua do Riachuelo, não mais edifícios em Parnamirim. Tubarões e banhistas, juntos, boiando a morte de barriga pra cima em Boa Viagem. E dos bueiros a fumaça verde, a terra se abrindo na Mascarenhas de Morais, de longe as chamas ardendo o Aeroporto dos Guararapes.

Quem sonhou, sonhou. A Rua do Sol à lua cheia, preta de inferno, contraste com o vermelho do céu. E as espadas de fogo dos anjos explodindo nos peitos nus de Recife, essa Gomorra de lama. O sonho que tive: acabaram-se as balas nos tiroteios, os prédios furados de guerra. Não mais os pedintes, derretendo, escorrendo e se espalhando pelo chão podre as mãos que se estendem em miséria. Todas as pedras de crack fumadas ao mesmo tempo.

O bebê sugaria o peito seco e choraria, o lábio em fogo de cada beijo tentado, os dentes caindo em sangue a cada sorriso. Máculas no Morro da Conceição.

O pagode explodindo, o poeta cantando as próprias tripas. O céu nublado de urubus.

Recife à deriva no Atlântico, essa laguna do Beberibe com o Capibaribe. Os rios voltando o seu curso, chupados às terras que os merecem, não Recife, não a sífilis que estoura em cada braço, em cada peito, no céu da boca. Recife, Veneza dos rios secos, gôndolas aos demônios. A escultura de Brennand derretendo: a última vela acesa aos santos da cidade. Freiras correndo de volúpia na Praça do Carmo. Carniça, crânios de mil meninos sonhadores na Dantas Barreto. Os santos de olhos vermelhos no Pátio de São Pedro.

E a praga correria a Agamenon Magalhães, a Conde da Boa Vista, não mais shopping, não mais os bares. Monstros de ferro engolindo o Cais de Santa Rita, arrotando os esqueletos dos punks, dos pichadores, dos assaltantes, dos trabalhadores. Não mais as pontes, não mais a maçonaria, o Lions, o Rotary, não mais a Academia Pernambucana de Letras. Cortiço de fezes o Paço Alfândega, o buraco do inferno na Rua da Moeda. O silêncio dos maracatus, não mais a maconha, o amor dos estrangeiros.

O Ibura, o Jordão, o Cordeiro, a Várzea, Estância, Jardim São Paulo, milhão de vezes as maldições dos subúrbios, a fome, a peste, a guerra. Recife se calando, suspirando a paixão da morte, veio de sofrimento na rocha dura. Em cima o céu se abrindo, todos os olhos do Recife queimados pelo sorriso de Deus. A última estação do sol.

Agonia, a chama preta do Hades, a tocha sulfurosa na Praça do Derby, todos os cachorrinhos estrebuchando no Parque da Jaqueira. Sem dia, sem noite, a chuva de destroços, não mais os edifícios, o ardor das palafitas, a tapera Recife babando raiva, epilepsia, afundando no piche. Os morcegos comeram todos os jambos, o azedume de todas as acerolas. A última visão: lama escorrendo fedor, acima todos os caranguejos e xiés do Recife sem as patas, os olhinhos em torre, piscando dor de crustáceos. Não mais os fantasmas da Praça Chora Menino.

Santo Amaro, Santo Antônio, Espinheiro, Graças, Madalena. O ralo aberto, os bairros roídos pelos seus ratos, que depois de roerem tudo, assim seja a profecia, roerão os próprios rabos de fome. O sonho que tive: Recife não mais cidade, espaço aberto de nada. Olinda do alto da Sé, tremendo de medo, livrai-nos de todo o mal.

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2 comentários sobre “Estação do sol

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