Contos

Brincadeira


Ali com ele uma garota. Bonita de rosto, tão nova. O mamilo rosado, seio só um inchaço, picada de marimbondo.

– Posso ver o outro?

– Um real.

Ninharia, a moeda mais bonita de todas.

Baixou a blusa do outro lado. O outro inchadinho. Ele desejoso, bolhinhas de espuma nos cantos dos lábios.

– Quero pegar.

– Cinco.

– Não tem.

– Então não deixo, levantando a blusa.

– Tem dois.

– Serve.

As mãos grossas. Aqueles peitinhos. Era como acariciar outros calos. Com os dedos, a pressão leve, “não aperta que dói.”

– Deixa eu correr com a mão, e já fazendo o que pedia.

– Não, não, ela dizendo e permitindo.

Queria beijar, mas ela não deixava, nojo da barba muito grande. “Fede a sebo.” Se quisesse, poderia agarrá-la com seus braços fortes, dominá-la para si, mas pra quê?

– Safadinha.

De repente ela, “chega, ta bom por hoje”, ele querendo mais e mais, puxou-a com força.

– Não!, ela arranhou o peito nu do homem, levantou-se e correu um pouco pra longe.

– Vem cá, meu amor!

– Aqui você não me pega.

– Olha que pego.

– Duvido.

Ele impulsiona o carrinho de rolimã com os dois braços, pra ganhar mais velocidade. Ela um pouco mais pra longe.

– Você não me pega!

– Olha que pego.

Ela correndo, ele arrastando a carcaça. O som das rodinhas trepidando no chão de cimento. A tarde findando. A hora que os ratos saem. E o barulho surdo dos carros vindo lá de cima, o alto do viaduto.

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7 comentários sobre “Brincadeira

  1. Henrique disse:

    Camarada, não entrei nos pormenores, lá no bde, acerca do texto, mas vim só ratificar que seus narradores são muito foda. E essa técnica que você utiliza de dizer sem dizer; insinuando e diluindo questões importantes ao longo da narrativa de primeiro plano é fantástica. A exemplo:

    “Se quisesse, poderia agarrá-la com seus braços fortes, dominá-la para si, mas pra quê?”

    O texto aponta para outras questões que estão além da superfície.

    Valeu!

  2. Li poucos textos teus, mas o suficiente para notar o teu jeito arrojado de tratar o sexo. Este deixa meio solto esse meu achismo. Se eu o trabalhasse para uma melodia, por exemplo, não passaria de uma ordinária letra de axé. Acho eu que retratar a vida de quem vive na rua, pode ir muito além do que realçar um mamilo, apelando assim para o esdrúxulo. Gosto muito do que escreve, mas aposto mais nos temas universais, como o estupro que descreveu num dos seus escritos e que me toca até hoje. Ainda sou daquelas que aposta no que toca a alma, ao contrário de muitos que adoram ler aquilo que tocam o corpo.
    Um abraço!!

  3. fillipezato disse:

    Amigos, estive afastado um tempo, viajando. No meio do mato por toda a semana. A estória é isso aí mesmo, esse questionamento, o preenchimento da vida ordinária do pobre aleijado, buscando algo que ele nunca terá, mesmo que seja através de um artifício pra lá de sórdido. Mas o que não é à sombra do desespero velado?

    Obrigado a todos pela visita!

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