Contos

Pequena vingança


Minha irmã ainda morava no mesmo endereço, então não pensei duas vezes e fui pra lá assim que saí da prisão.  Seis anos e as coisas mudam, entrei na favela, desci a ladeira, seu Val do fiteiro acenou com uma vergonha danada, pelo menos ele não fez que nem os outros e fingiu que não me viu. Cheguei na frente da casa dela, bati palma, “Dalvinha!”, era umas duas, três horas da tarde. Ela limpando a mão na saia, “Tonho!”, que abraço.

O marido dela, o Rafael, não gostou, mas porra, expliquei minha situação, quase ninguém nesse mundo quer dar trabalho pra quem acaba de sair da cadeia, ainda mais eu, que caí no 157. Ele aceitou, mas desaceitando, disse que eu era pra ficar só um tempinho. Expliquei que eu só ficava o tempo deu achar um canto só meu, e que isso ia ser rápido.

Fiquei um tempo fazendo uns bicos, ajudante de pedreiro, limpava terreno, essas coisas. E porra, eu não fazia nada pra que ninguém me condenasse, não dava fio pra fofoqueiro puxar.

Lógico que vez ou outra eu tomava umas biritas, mas eu digo ao senhor, sou um bebo comportado, fico na minha, não sou de arrumar encrenca. Chegava em casa, ia pro meu canto – lá eu tava dormindo num colchonete na sala – pronto, eu me cobria, ou pegava o colchonete e ia pro terraço, algum lugar que ninguém ficasse incomodado.

Dia eu nem tinha bebido muito. Rafael ainda não tinha chegado do serviço, ele vendia água, saía de moto cedinho, rodava o bairro todo. Eu tinha tomado uns quartinhos, era sexta, ninguém tinha me chamado pra fazer nada, que o meu sistema é na base do chamou-vamo-nessa, então eu parei no fiteiro do seu Val e tomei duas.

– Ô, Tonho, você já bebeu de novo, disse minha irmã assim que me viu.

– Só um quartinho, Dalvinha.

– Olha, o Rafael reclamou ontem, disse que se você chegasse aqui bebo de novo, te botava de casa pra fora.

Fiquei olhando pro chão, sem saber o que dizer, então eu falei que ia deitar, escovar os dentes pra disfarçar o bafo e etc.

O que Dalvinha não sabia era que o Rafael, rodando de moto, já tinha me visto parado no fiteiro, eu vi que ele me viu, a cara desse tamanho, mas ele também tomava as suas, eu sou lá algum santinho que não posso me divertir? Tirar o estresse?

Mal deitei no colchonete, ouço a moto estacionando, a grade abrindo.

Eu de olho fechado, cochilando já.

– Esse fi de rapariga passa o dia todinho enchendo a cara, Dalva! E trazendo esse safado pra dentro de casa, a senhora!

– Eu vou fazer o quê? Ele trabalha, ajuda nas contas não ajuda?

– Sim, mas olha, eu não vou alimentar bebo não!

– Ele é meu irmão!

E eu ouvindo, o fresco subindo a voz.

– Isso aí é um resto! Um fi de quenga!

– Pois a mãe dele é minha também!

– Você entendeu que eu quis dizer!

O clima engrossando, ele gritando com a coitada da Dalvinha, eu já puto da vida, ponto de encher o cara de tabefe.

Levantei sem dizer palavra, eles brigando, ele gritando, botando o dedo na minha cara, na cara dela, eu agüentando a humilhação, arrumei minhas trouxas e fui-me embora. Minha irmã chorando, pedindo pra que eu ficasse. E eu sou algum abestalhado? Tenho pelo menos vergonha na cara.

Vou confessar uma coisa pro senhor, eu tava sem muito dinheiro, e vá que eu não tenho nem nunca tive muitos amigos nesse mundo, meus conhecidos tavam todos no Aníbal Bruno ou eu não sabia onde eles tavam. Dormi dois dias na rua, sabe o que rua faz com a pessoa, mesmo que seja por pouquinho tempo, não é?

Voltei pro bairro da minha irmã, fiquei assim, perambulando, tentando arrumar algum bico.

Então eu consegui arrumar um barraco, já tinha feito uns contatos com uns amigos que eu não via há muito tempo. Era descendo a ladeira da minha irmã, na parte de baixo, na invasão nova. Eu tava num bar com o Chapinha, um velho amigo, conversando:

– Esses caminhões vêm da Bahia, ele dizendo, tem de tudo: DVD, computador, televisão, celular, tudo pra revender.

– Porra, massa. Dá pra tirar quanto com isso?

– Meu véi, por alto, uns cem mil por carro.

– Porra… To precisando de um.

– Então tu tais a fim?

– Oxe…

De repente eu vejo o puto do Rafael carregando um bujão de água pra dentro do bar. Passa por mim e bota uma cara de raiva. Ele foi e foi embora.

– Oxen, disse o Chapinha, que porra foi isso?

– Relaxa, esse aí é o marido da minha irmã.

E ficava os dias nessa, Rafael passando de moto com a cara desse tamanho toda vez que me via. E eu tenho medo de cara feia?

Até que o puto ficava soltando gracinha, sabe como é, chamando disso, daquilo, provocação, mas ele era marido da minha irmã, eu não ligava, fingia que nem era comigo.

Então um dia eu tava indo pra cidade. Precisei passar na Imbiribeira pra pegar uma bicicleta que eu tinha comprado pelo jornal, quando eu passo por um barzinho. E quem eu encontro? Rafael, numa mesa, todo de chamego com uma mulatona, gordinha. Ah, safado, agora se fodeu na minha, eu pensei.

Se fosse outro, ou se eu tivesse na casa da minha irmã, ou se ele ficasse na dele, sem tirar onda comigo, eu me calava. Mas eu fui na casa da Dalvinha,  e isso fica só entre nós dois, entregar o safado.

Não sou entregão, mas eu já expliquei os motivos.

E o fresco tava lá no dia em que eu fui dizer pra ela.

– Você fica por aí, se agarrando com puta, enquanto tua mulher se arromba trabalhando que só uma condenada em casa!

– Seu puto!

Dalvinha perguntando se era verdade, a gente se gosta muito, ela sabe que não invento mentira pra ela.

Na mesminha hora ela começou a bater nele, ele se protegendo, me chamando de safado. Eu queria era rir, mas me agüentei.

Não é que o miserável ficou todo brabo? Foi na cozinha, buscou a faca de carne da mulher e veio pra cima. Eu só tava esperando por isso, ia dar-lhe um bombão, e ele me furou no braço. Nem pegou em cheio, raspou, rasgou minha camiseta, e na hora eu nem senti, quando eu vi foi só o mel escorrendo. Aí eu parti pra cima.

Coitada da Dalvinha, querendo ficar no meio da gente, mas chorou pra ela. Quase que eu também acerto ela. E foi um quebra pau do carai.

No rolo, segurei a mão dele e consegui tirar a faca.

Os vizinhos entraram, ouviram a gritaria, a coitada da Dalvinha gritando, pedindo socorro.

Me seguraram, seguraram ele.

– Vai embora, Tonho, vai embora, a vizinha falando.

Sei que foi uma confusão da porra. Fiquei encarando o Rafael, ele querendo se soltar pra me pegar, a turma querendo me levar pro hospital.

– Intrigueiro filha da puta! Eu vou matar você, seu safado!, ele gritando.

Me deixei levar por quem queria me socorrer. Fui pro Pan de Areias, tratar do braço. Jurado de morte eu já fui um monte de vezes. Eu, aos pouquinhos, to refazendo minha vida. O senhor acha que eu vou ter medo de um otário que nem o Rafael?

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