Contos

Ninguém é ninguém


Já vai dormir o velho. Tinha tempo que não era assim. Cabra macho, peixeira na bainha presa ao cinto. Afiava no meio fio, em paralelepípedo. Cuspia preto no chão, e onde ele pisava não tinha homem. Quem afrontava? Hoje todos veem, é aquele mesmo da cadeira de balanço, da faquinha picando cigarro de palha, do fumo de corda no colo. Aquele do boné verde, testa suarenta, porejando. Embaixo do pé de azeitona, folha seca cai no colo ele nem liga. Aquele da camisa furada de cinza de cigarro, dia todo fumando e olhando as moças. “Meu fio, compre uma carteira de Derby.”

Seu Galé. Tempo que furava bucho, que quebrava cadeira em lombo, puxava pelo colarinho. Agora, olha o cachorro lambendo a mão caída! O pé preto, cheio de varizes. A cabeça caindo pro lado, filete de baba da boca murcha. Ressonando na calçada. E o menino indo abusar, segurando fósforo com a mão. Vai acender entre os dedos do velho. O cachorro vai embora.

Fosse outro tempo dava um croque e o menino se ia, chorando. Hoje, nem percebe a travessura. Escolhe o pé pretinho, mas não faz nada. A mulher na rua gritando, “sai daí, João, deixa em paz o seu Galé!”, o menino corre. O velho acorda, vê o moleque levantando poeira ladeira abaixo. “Já ia fazer arte, o safado”, diz a mulher.

– Hehehe, deixa o menino, Zuleica!, levanta da cadeira de balanço, o fumo cai no chão, rola pela calçadinha e desce rego abaixo.

Nem percebe, coitado. Lento, põe a cadeira pra dentro. Três da tarde, vai dormir. Ainda pensando, “quem é quem nesse mundo?”. Boceja. Ninguém é ninguém e pronto.

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4 comentários sobre “Ninguém é ninguém

  1. Você com letras cria gente, mas não Frankenstein, gente do mundo mesmo! Vejo eles, conheço alguns assim, tudo tão vivo, cada detalhe… E João aí, sendo moleque de novo, agora coadjuvante, e você poderia me oferecer uma cidade inteira, eu sei.
    Também vou te acolher lá no Polifonia, pode ser??

    Beijo

  2. Concordo com a Polly. Gosto muito do conteúdo dos seus. Esse velho que descreve é Sr. Francisco, mora lá em Pirapemas, interior aqui do Maranhão. Escrevo velho sem receio, têm pessoas que realmente envelhecem.São estas manifestações humanas que me fazem crer, cada vez mais, que a natureza humana é paradoxal, é um mister de singular e plural, e às vezes o plural é totalmente suprimido pelo singular, fazendo com que acreditemos que as leis são gerais. Felipe Jardim, Mauristaad-PE, conhece profundamente Francisco Galvão, Pirapemas-MA, que diga se de passagem, são singularidades que nunca compartilharam o milagre do encontro. Parabéns!
    P.S – Ignore os outros recados ou melhor, apague-os, pois estão com erros de sintaxe.

    • fillipezato disse:

      Tantos desses por aí, não é Diana? Por isso o nome do livreto onde este será inserido: “Por aí”

      Obrigado pela visita mais uma vez!

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