Contos

Recolhendo miséria


Criadouro de mosca, a casa toda tapera. Tempo que só tinha rato, lixo e mato. Entravam pra fumar, beber e trepar. Pichada de frente a fundos.

– Furdunço, muquifo de ladrão, esconderijo de alma sebosa, dizia uma senhora.

– Menino, não passa na frente da casa!, exclama a mãe aflita.

Culpa tinha a construção? Gente pousou por ali fazendo vida – vida que é sempre cheia de maldade.  Toda casa é uma maldição. E por ela, maldade da vida, ninguém mais morava ali.

Cinco, seis horas, a noite entrando, começava o movimento. Furtivo, pulava um. Depois outro, outra, outro, outra. Bolso cheio de dolinha, de perronha, cachimbo, de sedinha. Seringa, borracha, colher e isqueiro, pra sonhar mais fundo. Camisinhas espalhadas pelo chão imundo. Cheiro de mato queimado. Gemido, gritaria, risada, a vizinhança indignada.

Vezes que a polícia batia ali. Correria, recolhiam as coisas, vez em quando um com a mão na parede, levando borracha na canela. Depois, tudo de novo.

E a casa ali, recolhendo mais miséria.

Criadouro de mosca, a vizinhança pediu arrego. A ladeira ganhando má fama.

– Imoral, seu guarda, ali só tem maconha!, ao telefone um morador.

Defesa civil de marreta, prefeitura tinha tomado o terreno, falta de pagamento, donos todos mortos, herdeiros nada. Até aplauso das crianças quando as paredes caíam.

Os drogados, as putas, os degredados, os ruins. Espalharam-se todos. Havia por aí outras praças, outras bocas, becos, matos, lixos. Só destroços agora, onde um dia se cheiravam rosas.

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