Contos

A envergadura das asas dos anjos


Azul de fumaça, cheiro de nicotina. Nem tanta luz, um bar discreto, fora o palco com as moças. Olívia enxuga o suor da nuca, quentura de matar qualquer cristão, acabara de sair do palco.

– Flor, seu nome é?, diz um homem, nem muito jovem, também não velho, óculos aro de tartaruga, pelo branco enrolando na narina esquerda, meio grisalho, entradas no cabelo – uma calvície que começa.

– Manuela, diz Olívia.

– Subir?

Se vão prum quartinho no andar de cima. Sobe e desce pela escada, risos e falatório. Música alta perto do palco estanca vozes dentro das gargantas, só se ouve ao pé do ouvido, sentindo o hálito ventar a nuca.

No quarto, acende a luz. Uma cama parece confortável. A lâmpada incandescente, teias de aranha no fio que balança e a pendura, esquentando ainda mais o ambiente.

– Fico de calça mesmo, ele diz.

– Por quê?

– Prefiro.

Não pergunta nada. Ele pede massagem no pescoço, beijo no cangote, ela faz. Beija molhado, sente o arrepio na pele do homem, tira sua camisa e vai descendo pelas costas. Ele se vira, beija o pescoço dela, a carótida pulsando vida, ah quem o dera ser vampiro!

– Tiro você daqui, ele balbucia.

– Amorzinho…

Olívia sabe que é doce. Pra eles Manuela, lábio cheio de cicuta, que mata de pouquinho em pouquinho. A cada beijo um pouco morte.

– Nunca mulher como você tive na vida.

– Anjo meu…

Olívia, que sabe usar a pele, os músculos, a voz. Ele não resiste – prazer tão impossível de medir, coisa que só se imagina, tal como a envergadura das asas dos anjos. Termina, explode, ela também diz que explode, quem não acredita?

Há banheiro, ele quer tomar um banho, ela vai ao bidê. Gargareja água e pasta de dente, manter o beijo fresco pro próximo. Ele pede que ela saia do banheiro, “não me veja sem calça”, ela não discute.

Veste a camisa, Olívia se penteia, batom pra rosar os lábios de carne macia. Nenhuma pele tão branca, que se cora a cada gozo, a perfeição de medidas de corpo, jeito de sonho besta, que a gente tenta esquecer senão enlouquece.

– Na cômoda?

– Pode deixar, ela diz.

O dinheiro enrolado. Beijo rápido e ele se vai. Olívia se tranca, deita na cama, lençóis molhados de suor.

– Ai meu Deus, estou morta…

Cruza o braço sobre a face, seria tão bom dormir agora.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s