Contos

João


João, moleque sambudo, mãe de fogo, pai morreu. Só vive na rua catando fruta, fazendo besteira, subindo em pé de manga, pé de jambo, pede cigarro escondido pra entregar pro Nego Velho, o bêbado.

E pula muro, cai se rala, joga bola e quebra vidro, pede dinheiro ao moço distinto, “dá um real aí?” Perna toda suja de barro – é a chuva caindo no campo.

E o canal? Raso, se mete a nadar. Rouba bola de gude dos meninos. Pesca beta e tricongate, tilápia põe no samburá.  Papagaio com cerol, descaindo – torança. Ponto ficão mutucando os piões.

Rasga o dia, cruza a noite. “Menino, tu não almoça? Come, janta?”, vai correndo todo canto, mesmo não tando ta por aí. Ri de tudo e todo mundo, briga com os outros meninos, vezes leva cascudo e chora, remelento. Nariz que escorre, mela o lábio, suga ranho, salgadinho, salgadinho.

Moleque sambudo, mãe de fogo, pai morreu, só vive na rua. Cantando, às vezes. Mãe melhora, volta pra casa. Preso até a próxima garrafa que ela beber.

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3 comentários sobre “João

  1. Sâo tantos com esse nome e essa sina, vida de gente da vida, da rua, vivendo do jeito que dá, mas com poesia, nem que seja poesia escrita com sangue e barro… Uns Joões que cresceram na magia dos dias, bichos soltos no mundo!
    Abraço do meu João pro teu! Ótimas letras!!
    =)

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