Contos

Fim de tarde


Ladeira muito íngreme, gente na frente da casa aberta. Chega a polícia. O tenente André desce da viatura, cansado, meio gripado. Soldado Cavalcanti vai ao local do crime. Um dia agitado. O tenente vê um cidadão.

– O senhor, vem cá!, diz o tenente.

Acanhado, cidadão se aproxima.

– Alguém ouviu alguma coisa?, pergunta.

– Nem sei… Ouvi ele quebrando o chão, depois parou. Eu tava ali em cima, no fiteiro. O dia todinho o homi quebrando o chão.

– Posso recolher seu depoimento?

– Sim senhor.

As pessoas se aglomeravam em frente à casa. O portão aberto, entra e sai. O tenente para de falar com o homem, abrupto, irritado. Cavalcanti faz um v de vitória com os dedos. Dois defuntos no local.

– Cavalcanti, tira esse pessoal aí da frente! Ta bom, meu senhor, pode ir, pode ir!

O homem vai embora, sobe a ladeira.

Pega o rádio. Chama a central.

– Afirmativo, vamo isolar o local, dois corpos QSL

Ajuda o companheiro, “circulando, circulando”, dois carros de emissoras de TV chegam.

Em meio aos pedregulhos, arbustos cortados, espalhados. Uma roseira, sem flores, espalhada pelo chão, um pé de lírio com as folhas amassadas, cimento quebrado das caqueiras e do pavimento. Um buraco não muito fundo, picareta e pá jogados lá perto. Na beira, dois corpos abraçados, um homem, feridas no pulso, sangue ao seu redor, e outro cadáver, sexo feminino, avançado estado de putrefação. Cavalcanti pega a identidade do defunto. Ele e o tenente começam a fazer uma busca. Os repórteres vão junto.

– Liga a câmera, diz um dos repórteres ao seu cinegrafista. Pode me informar o nome completo da vítima, policial?, arrumando o bloquinho para tomar nota.

– Claro.

“Dois corpos, Rogério Humberto de Lima, 30 anos, e uma mulher, que ainda não foi identificada, foram encontrados…”

– Tenente, posso fazer uma entrevista?, diz o outro repórter.

– Pode ser.

O tenente não sabe pra onde olhar, coceira no nariz, vontade de escarrar, o pontinho vermelho piscando na câmera.

– Afirmativo, funga, ao que tudo indica a mulher estava enterrada e o homem, após retirar o corpo do solo, cortou os próprios pulsos.

– Testemunhas?

– Os vizinhos dizem que apenas o ouviram quebrando o pavimento, de resto não sabem informar, com licença. – cospe no chão – não bota isso na filmagem.

– Tranquilo, tenente.

“… sua esposa estava desaparecida há duas semanas, segundo Rogério, viajando, a suspeita é que o corpo encontrado seja mesmo o de Elisa Barros de Lima, esposa de Rogério…”

Celular tocando. Repórter atende. “Desculpe.”

– Incêndio em Casa Amarela? Indo pra lá. Duílio, pega a câmera, vamo embora.

A outra equipe ainda filmando o local. Nenhum parente de Rogério. O tumulto ainda lá fora.

– Obrigado, Tenente, diz o outro repórter. Vamos à Casa Amarela.

– Às ordens, boa sorte. Cavalcanti, tranca esse portão, só abre quando chegar a Científica.

Outra equipe de reportagem, jornal impresso.

– Cavalcanti, informe a imprensa. Só quando chegar a Científica.

Tempo passa. Impaciência. Dentro da casa, nada de mais. Bagunça normal de homem sozinho. TV ligada, um copo d’água sobre ela. “Que porra é essa?”, pensa o tenente.

Chega a Científica, comissário Josué comanda a partir de agora. Lá fora, multidão cerca o local. Vendedor de algodão doce e tudo.

Corpos retirados, casa isolada. Perícia por concluir. “Pontes”, diz o comissário, “recolha uns depoimentos.” Nada mais a se fazer.

– Porra, tenente, calor, diz Cavalcanti.

– Pois é. O doido botou um copo d’água em cima da televisão. Burro, lugar de merda, cai, fudeu.

– Né isso não, senhor, coisa de crente.

– Crente um cara que mata a mulher e corta o pulso?

– Do cu quente.

Em frente à casa, multidão já se dispersa. Dois guardas tomando conta, investigador Pontes tomando depoimento de um velho. Batem no portão.

– Ô, seu guarda, pega pra mim uma muda de rosa?, diz uma velhinha, apontando uma tesourinha, Seu Rogério tinha me prometido, coitado.

O tenente acende um cigarro. Garganta inflamada, escarra verde num pedregulho.

– Claro, minha senhora, claro.

Vai desviando das manchas de sangue, a velha apontando, escolhendo um bom galhinho. “Esse aí ta bom”, “Ta?”, cigarro cai no sangue, “Merda!” O primeiro turno acabando, as seis horas já subindo, trazendo o anoitecer. Entrega a muda à velhinha. Coça a garganta.

– Puta merda.

Escarra no muro, o catarro escorrendo.

– Já é noite, sete horas é minha hora, diz o tenente.

– Vou com o senhor, diz Cavalcanti.

– Podem ir, diz o comissário, aqui já está sob controle.

Os dois se vão, cansados. Pouca gente na rua, ligam a sirene, giroflex luzindo na noite jovem de céu roxo. A viatura em velocidade. E a cidade ainda nem tinha começado.

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