Contos

Escrivaninha


Garrafa de uísque quase vazia, penumbra de toco de vela. Faltava luz. Escrivaninha com papéis espalhados, sobre ela vidrinho de perfume, a pena no tinteiro, garranchos num papel com o cheiro dele, prela nunca mais se esquecer.

Ele, coitado, já dorme. Ressonando o ritmo de morfeu. O nariz dá leve apito, olho todo grudento, fechado por tristeza e cansaço. No chão, um copo vazio, perto dele marcas úmidas em círculo secando, secando.

.22 no bolso do paletó. Ela é de outro, daria então tiro no peito. Carta prela chorar quando caísse a noite, dor prela sentir ao travesseiro.

Antes de dormir, beijou a ponta de cada bala. A carta sofrida num papel. Noutro cem vezes Manuela, em letra caprichada.

Colocou as balas no tambor, sofrimento correndo dos olhos inchados. Soluçava, babava, a besta.

Primeiro bebeu, bebeu que bebendo se tem coragem. “Manuela, Manuela, olha o que fez comigo?”

Garrafa foi esvaziando. Cansado de sofrer, a arma no bolso, já já o tiro onde doía.

Sono chegou ele nem viu. De repente cai o braço, despenca a cabeça pro lado, a mão aberta de sonhar.

Quem sabe quanta tristeza mais quando acordasse?

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