Contos

Dois de paus no pé da mesa


O baralho passava entre os dedos, como era bonitinho ver a corte, valete, rei e dama, pretos, vermelhos, losango, pontinha, folhinha e coração. Primeira coluna dois, segunda três, e assim por diante. Sentado no chão, concentrava-se nisso. Pés de vento vez ou outra entravam pela janela, espalhando as cartas, arrastando-as pro pé da mesa, pra debaixo do sofá. Não tinha como fechar, não agora, calor. O jeito era colocar um livro ao pé da cortina. Da estante puxa grossa Bíblia.  Às vezes se distraía com buraquinhos no azulejo. Puxou a caneca da mesa, levando pro chão. Deixou cair uma gota de leite, e as formigas já fizeram fila, seu pequeno rebuliço.

Da parede uns ais baixinhos, mas já estava acostumado. Mamãe pensava que ele não percebia. Mexia nas cartas apenas, nem tapava as orelhinhas, mamãe disse que não era nada. Valete era jovem, Rei velho e altivo, Dama tinha uma cara séria, Ás não era nenhum número.

Vez em quando punha a mão na testa, sentia pulsar a artéria, ais vindo da parede ao lado, formiguinhas pretas se juntavam no pingo de leite. No pescoço, no peito e no pulso, o mesmo ritmo pra se distrair.

Não podia bater na porta, mamãe não gostava, precisava de tempo. Doutor lá com ela, que será que eles faziam?

Que será que eles faziam?, ficava olhando pra parede, vendo nos quadros os jangadeiros, vendo os livros na estante. Organizando as cartas do baralho, vendo as formigas no chão, mais um gole na caneca, pé de vento empurrando a cortina. Que será que eles faziam?

“Nada não, meu filho”, dizia mamãe, “nada não”, ela dizia, ele sorria uma dúvida, fingindo que entendia.

Ela sai lá da salinha, puxando a barra da saia, pegando o menino na mão. “Tchau, moleque”, “Tchau, doutor”, ele respondeu. Pé de vento empurrando a cortina, vai embora sem completar o baralho. Ainda a pilha esperando. O vento levando tudo. Ganhou chiclete do doutor, “Quarta-feira aqui de novo”, nem se importou com o baralho. “Recolhe isso, menino”, “Deixa, mulher, deixa, que eu arrumo”, diz o doutor. Trocam beijos no rosto.

Mascando o chiclete, se vai, pegado na mão da mamãe. O vento espalhando as cartas, dois de paus no pé da mesa, cartas todas pelo chão.

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2 comentários sobre “Dois de paus no pé da mesa

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