Contos

Um risinho de Luana


Eu queria deitar, mas tenho que ficar olhando pra cara dela. Não sei, meio tonto, uma dor de cabeça despontando nas nervuras do olho. Cheguei do banheiro e ela lá, rindo pra mim, como é linda. Mas não tenho por que aguentar o sorriso irônico, a voz estridente, o vinho vagabundo, doce demais, esse ambiente e essa música de que nunca gostei. Homem, fazer o quê? Ela me olhando, não sei, tem alguma coisa.

– Minha linda, eu digo, aqui ta ficando meio chato, não?

– Ah, eu gosto daqui…

– Não sei, tenho trabalhado muito, quero alguma coisa tranquila.

Estamos num bar, samba-rock último volume, fumaça azul no ar, cheiro de careta e baseado se misturando. Gente dançando, canhões de luz, coloridos, pra lá e pra cá. A gente fala quase gritando, se chegando no cangote um do outro, sentados à mesa.

– E esse vinho é muito ruim, lá em casa guardo alguns bonzinhos.

– Ah, é?, ela diz.

“Ah, é?”, ela diz, isso me dá um sono danado. Dá? Isso, horas e horas de papo furado.

Veja o contexto: três meses solteiro, como diria o Mark Renton (Trainspotting, viu?), “se não tem namorada, não trepa, se tem, é um saco”, mais ou menos nessa situação, sexo pago é bom, ótimo, mas é pago. Aí marco com uma colega de trabalho no bar. Ela me dá o bolo, isso eu já tinha esperado umas duas horas até o telefonema dizendo “não vai dar…”, fico sozinho, tomo duas cervejas, percebo aquela moreninha me olhando, sorrindo, vontade é isso.

– Tenho uma irmã.

– Mesmo?, me esforço pra não bocejar.

– Sim, ela vive em Curitiba, mas somos de Brasília.

– Percebi o sotaque, já ia perguntar.

– Espantei você não ter perguntado antes.

– Não sou curioso, quer dizer, sou, mas tímido.

– Ah é?

“Ah, é?”, bordão?

Noite se estendendo, e entre um papinho e outro, a gente se beija. Isso, duas, duas e meia da matina, e essa merda de bar que não esvazia?

– Seu nome é?, recuperando o fôlego.

– Luana, e o seu?

– Joaquim.

– Nome bonito, outro risinho.

– O…oobrigado, não consigo evitar o bocejo.

– Sono?

– Não, qué isso…

Ela fuma, eu não gosto muito disso, mas agora não to nem aí. Morena magrinha, cheirosa no pescoço. Conversamos mais um pouco, acende um cigarro, dou um gole e a pego pela nuca, joga o cigarro no meu copo de vinho pela metade, um beijo longo, fecho os olhos e quase sonho. Sono gostoso o beijado.

Luana, coisa de louco. Pra acabar com qualquer solidão. Ela estava lá e me viu, é intenso, agora mais ainda, maravilho-me até com seu cigarro sujo de batom, boiando no meu copo meio cheio. “Bebe, duvido”, ela me diz, risinho, outro, não sei, como era bonitinho seu jeito de rir. Eu bebo de uma vez, engulo a bituca, ela gargalha, me beija na bochecha, morde minha orelha, e o arrepio me faz esquecer a dor de cabeça. Tudo meio sonho, já aconteceu contigo?

É vontade, acaba comigo antes de começar, estou maluco por essa morena, assim meio de repente. Estou grogue? Cansaço de tudo, madrugada entrando louca, Luana tem uma boca macia macia, desejo de dormir nos lábios roxos. Tinha que ser essa noite. Areia caindo nos olhos, ela rindo pra mim, mas eu aguento, mesmo com essa enxaqueca, não perderia a oportunidade. Coisa louca, que se tem poucas vezes na vida. Até aquela porcaria de vinho tinha se tornado uma coisa boa. Bar esvaziando?

Aceita ir pra minha casa. Resto de noite, amanhã domingo. Coisa louca. Coceira danada nos olhos, a dor irradiando pra testa. Puta que pariu. Entrego pra ela a chave do carro. Vamos conversando e conversando. Não consigo segurar a cabeça, pendendo pra lá e pra cá. A última coisa que vejo é o movimento do seu busto suado enquanto respira, lá fora a noite vazia. A desgraçada pôs algum troço na minha bebida, só pode. E antes de sonhar qualquer coisa, ouço um risinho?

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6 comentários sobre “Um risinho de Luana

  1. silvia disse:

    Te li no Cronópios, Pequenas histórias brutais.
    Você escreve muito bem, prende o leitor e não o deixa satisfeito em ler um texto só.
    Pelos menos me deixou assim. Blog já nos links de favoritos, vou ler mais assim que tiver tempo.

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