Papo furado

Jiron


Nunca tive um cachorro. Quer dizer, tive, mas não me lembro. E é muito angustiante não lembrar do seu cão. Esse eu só lembro o nome: Bidula, fêmea, meu pai quem batizou. Gaiatice é de família. Morreu envenenado, acho. Eu era pequeno. O cão que me lembro, o da minha infância, é o da minha avó. Jiron. Nome esquisito também. Na verdade, meu pai quem pegou o bichinho pra criar, e o tratava com paparicos e dengos, mas achou melhor dá-lo à minha avó quando nasci. Virei o cãozinho da casa, pelo menos na parte dos paparicos e dengos do meu pai.

Ele era quase um ano mais velho do que eu e tinha uma latido rouco. Seu pelo era marrom e se juntava em sua parte traseira numa forma que minha avó chamava de “calção.” Suas orelhas eram caídas e os seus olhos eram negros e vivos. Um vira-lata respeitável em sua viralatice. Eu tinha muito medo dele, pelo menos quando eu era menorzinho. Ele fazia suas festas, pulava e passava por mim abanando o rabo. Eu agarrado na perna da minha mãe. Cansei de ouvir os inúteis “ele não morde não.” Sempre preferi os gatos, seu jeito indiferente, quase boçal, e interesseiro. Minha avó tinha gatos, alvos de minhas festas e brincadeiras, principalmente os filhotes, já que os grandes sempre foram arredios demais. Jiron gostava de mim, eu me acostumava com sua presença, mas não o considerava meu amigo.

Na casa da minha avó, na época de minha infância, moravam alguns tios que tinham uma banda de rock. Um deles, Paulo, tinha um Fiat 147, que eu achava o máximo. Meu pai não tinha carro. Eu adorava brincar no volante do Fiat. Eu era o Ayrton Senna. Jiron sempre estava do lado de fora, latindo. Era isso: o rock dos meus tios, o Fiat 147 e Jiron, o rouco cão saltador.  E os gatos, que eu atiçava arrastando objetos delgados no chão, para que eles tentassem pegar. Do meu avô não me lembro. Eu era pequeno demais quando ele morreu.

Sempre me comparava a Jiron. A cada aniversário, lembrava para mim mesmo que o cachorro tinha um ano a mais. Brincando, meu pai dizia que ele era meu irmão mais velho. Eu não gostava disso. Minha avó dizia que ele era seu netinho. Eu era indiferente a isso. Pelo menos ela tinha esse companheiro.

Enquanto nós dois, eu e Jiron, envelhecíamos, fui me apegando a ele. Os seus pelos já estavam embranquecendo e os seus ganidos me faziam olhá-lo como um ancião. Ele ainda pulava e balançava o rabo. Às vezes eu afagava sua cabeça. Ele roçava nas minhas pernas, mostrava a barriga. Então eu me sentava e lia as revistas católicas e os jornais que ficavam – e ainda ficam – na velha cadeira de madeira da sala de estar, onde Jiron se acomodava embaixo e olhava a rua, esperando outros cães, para latir em cima deles. Minha avó vinha e me oferecia algum doce. Eu aceitava e esperava ela trazer, lendo. Não raro, me distraía com as cachorrices de Jiron enquanto aguardava. Sempre a mesma coisa, por um bom tempo.

Ele tinha 15 anos quando foi atropelado. Sobreviveu, mas nunca mais foi o mesmo. Mancava, e seu andar pendia para a esquerda. Seu latido, ainda rouco, ficou um tanto estridente. Seus dentes começaram a cair. O acidente foi o marco definitivo de sua velhice.

Desde então, ele era o cachorro deitado, cheio de dores no corpo, esparramado embaixo da cadeira de madeira. Dava dó ver as suas lágrimas e sua falta de vigor. Em raros momentos, se coçava com os poucos dentes que ainda tinha. Outras vezes, esforçava-se, lentamente, para morder o próprio rabo. Tinha enlouquecido de vez. Eu lia os jornais, as matérias das revistas católicas, as curiosidades de Seleções, mas sem as cachorrices de Jiron, a espera pelos doces não era a mesma coisa. Agora eu via TV. Era só um cachorro velho, em agonia.

E ele viveu mais dois anos ainda. O tempo passou e eu já não me importava com cães nem com gatos. Já não me importava com ganidos, com afagos, com rabinhos balançando. Eu era um adolescente tentando entrar pra faculdade de ciência da computação. Ele era uma presença, algo que representava a casa da minha avó e as lembranças que tenho de lá. Quando ele morreu, de velhice, ela chorou por dias. Eu não chorei, mas senti. Logo após sua morte, o vazio deixado por ele me lembrava, definitivamente, que eu estava crescendo. E nunca mais eu ouviria aqueles latidos roucos. Nem mais veria o focinho úmido do meu irmão mais velho.

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2 comentários sobre “Jiron

  1. Meu amigo, deixei para ler o seu conto em voz alta, sentindo bem todas as suas peculiaridades. Devo confessar, foi uma experiência maravilhosa. Acho incrível como você consegue pular de um polo a outro em suas histórias. Por exemplo, em seu conto “Só sexo”, a linguagem crua e violenta tem que ser encarada de estômago vazio, pois é lá que apanhamos ao ler a história. De repente você me vem com essa história, que é simplesmente a lembrança que tratamos com indiferença e que, ainda assim, nos emociona da maneira mais estranha. Me espanta a sua pouca idade e sua capacidade de escrita. Lê-lo foi uma experiência única. Parabéns.

    • fillipezato disse:

      Agradeço, Thomaz. É uma crônica, que aqui eu chamo de “papo furado”, quando eu quero falar algo mais veradeiro. Fico feliz com sua apreciação!

      Forte abraço!

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