Contos

O desfile


Forçou a gengiva, pois sentira escorregar a chapa, “maldito corega!”. O sol hesitava entre aparecer e se esconder. Desde cedo, o povaréu já tomava conta da avenida. Ajeitou no peito as condecorações. A neta trouxera a câmera nova, mal sabia como mexer no equipamento, mas sempre fora entusiasta das inovações tecnológicas. “Leve com o senhor, vô, pra filmar o povo.” Ajeitou a boina, desbotada, e puxou o uniforme em suas últimas imperfeições.

O governador chega a carro aberto, depois desce, junto com e General de Brigada, para inspecionar a formação do desfile. Cumprimentaram ao velho e seus companheiros. Todos os anos, a mesma cerimônia. Era o primeiro da fila, e fez questão de apertar as mãos das autoridades. Depois de uma pequena conversa, eles foram embora. Então, ele observou as escolas, a bagunça dos jovens, fazendo sua balbúrdia antes de se perfilarem com as bandas marciais. Sentiu uma saudade estranha, e tremulou indicadores numa desajeitada forma de pegar um cigarro. Desde a guerra, não perdera o costume.

Quando as crianças partiram, pediram para que ele e os outros se preparassem dentro dos caminhões. Nunca gostava de ser amparado, mas com as dores musculares que já o acompanhavam há tanto tempo, não havia como evitar que o primeiro soldado colocasse os braços em suas costas, com aquele tom de voz que mistura paciência e pena, “vamos, senhor, vamos logo.” Sentado no carro, esperava ansiosamente. Acenou para sua família e sorriu para a neta. Ligou a câmera e se divertiu com suas funções.

Finalmente entram em movimento. Aquelas manhãs de setembro, mesmo com tanto tempo fazendo aquilo, o deixavam numa felicidade tremenda. As pessoas o olhavam, gritavam, mandavam beijos e sorrisos. Ele respondia a todos com orgulho. Verificou se a câmera estava filmando. De repente, seu peito se apertou num sentimento que ignorava. Olhou os seus companheiros no veículo e sentiu o mesmo ar em seus semblantes. Eles dividiam uma coisa que mais ninguém poderia saber, experiências de uma Europa que ajudaram a não existir mais. O mundo escurecia e voltava ao normal, se enchendo de velhos sons e estrelas que estouravam rapidamente em suas pupilas. Arfou, relaxado, enquanto a dentadura cedia por sua boca abaixo. Não sentia mais dores. Sorriu para todos, o Brasil era soberano e livre.

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “O desfile

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s