Contos

Dólmen


Osvaldo tivera um dia estressante e cansativo, e procurava denotar isso com um andar displicente, quase se arrastando pela rua, pra quem quisesse ver. Há dias que o serviço, e alguns outros problemas cotidianos, tiravam o seu sono. Para piorar, o carro ainda estava na oficina, o que deixava a situação um pouco mais irritante, mas isso não importa muito. O que importa é que, quando ele finalmente chegou em casa, para um descanso mais do que merecido, encontrou no meio da sala uma grande rocha. Chegava até o teto em altura e suas largura e peso, como Osvaldo pode constatar com tentativas frustradas de empurrões, eram absurdamente grandes para que tivessem passado pela porta. Bufando de espanto, raiva e insatisfação, fez a volta no gigantesco objeto. Do outro lado havia outra rocha, tão lisa, pesada e absurda quanto a outra. E essa teve um significado especial para Osvaldo, pois atravessava o sofá novinho, de couro de búfalo africano, bem no meio. Finalmente, gritou e se desesperou, como qualquer pessoa normal (não tão estafada quanto ele para esboçar qualquer reação enérgica).

Primeiro os vizinhos, depois a polícia, depois a imprensa. Osvaldo foi retirado de sua casa, “a perícia precisa trabalhar tranquilamente”, o fato é que desde então Osvaldo não tinha descanso. Em casa de parentes, em casa de amigos, não dava pra ficar tranquilo. Por mais que tentasse, não conseguia dormir. Ninguém o deixava em paz. “O caso do Dólmen.” Osvaldo definhava em estafa e estresse. Seu temperamento era explosivo e ao mesmo tempo preguiçoso. Olheiras monstruosas se encravaram em seu rosto. Havia em seu semblante uma expressão de desengano. O assédio era insuportável.

Resolveu fugir. Sua última estadia foi na casa de um amigo do trabalho. Isso, claro, ajudou bastante em sua decisão. Utilizando-se de forças que não imaginava possuir, realizou seu ensejo. Com algum dinheiro, boné, óculos escuros e uma roupa que julgava de aspecto comum, meteu-se na procura de um hotel. A recepcionista estranhou os modos daquele homem em sua frente, mas forneceu o quarto. “Preciso apenas de uma noite, uma simples noite completa de sono.” Carregou sua pouca bagagem e achou o quarto pequeno, mas aconchegante. Antes de dormir finalmente, decidiu tomar um banho. A solidão, a sensação da água quente tocando o seu corpo, sentiu os músculos relaxarem. O melhor banho de sua vida.

Saiu do banheiro enxugando o rosto. Pensava na cama macia e confortável que o esperava por pelo menos doze horas seguidas de um profundo e merecido sono. Porém, no lugar da cama, com uns 13 pés de altura, estava uma rocha. Era uma rocha negra, cheia de liquens, com um formato humanóide. Como não tinha mais ninguém para conversar sobre aquilo, perdera o uso da palavra, porém em seu pensamento. Observou a testa quadrada, o nariz reto e a boca como um traço truncado naquela negritude úmida. Recobrando o discernimento, reconheceu aquelas formas. Uma estátua da ilha-de-páscoa!

De cueca, saiu do quarto gritando. Funcionários e, pouco depois, outros hóspedes foram presenciar o estranho fenômeno. No meio do furdunço, Osvaldo recolhia suas malas e se vestia. E alguém, entre o espanto geral, reconheceu o homem que se vestia ali entre eles. “Pera aí! O cara da casa com os pedaços de Stonehenge!”. Osvaldo correu e correu. Como levava uma mala e uma mochila, deixou a mala cair no chão e conservou consigo a mochila, que só continha algumas roupas, sua escova de dentes e alguns trocados. Depois de correr alguns quilômetros, deitou-se numa praça.

Com esses dois mistérios, todos passaram a procurar Osvaldo, que foi facilmente encontrado, vivendo na praça onde parara. Recusara-se a sair dali. E, finalmente, foi deixado em paz, pois seu argumento era convincente: “depois disso tudo, desconfio fortemente que a próxima aparição tem a ver com a pirâmide de Quéops.” A praça e seus arredores foram isolados. Vez ou outra, um helicóptero vinha abastecer Osvaldo com mantimentos e outros víveres. Achavam perigoso chegar por terra, “vai que algo aconteça?” E na praça deserta, esperando um túmulo egípcio ou monumento pré-colombiano, Osvaldo pôde tirar uma boa soneca.

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