Contos

De como Guijermo Castela, vagabundo espanhol, salva da morte em duelo desigual Anatoille de Avignon, duque de Stª Etienne, usando um enleio supostamente mágico. Depois, se casa com a filha do duque, Justine, e enriquece; e das consequências destes acontecimentos para uma pessoa distante.


A morte trabalha todo o tempo, espreitando e guardando os que, por acaso ou sortilégio, têm a desventura de merecer a sua atenção. Na nossa época, onde o comércio é feito a distâncias cada vez maiores, e onde as pessoas não se constrangem mais com os desígnios de Deus, graças à peste que nos atingiu por tanto tempo, ela – a morte – afia a sua foice em ossos cada vez mais inesperados e desmerecidos de tão odioso destino.  Algumas vezes, porém, o destino se encarrega de desviá-la de seus alvos pelos meios mais insólitos e inesperados. Por motivo de uma contenda ao dividir uma carga de azeite com um comerciante genovês, chamado Nicolau Milano, Anatoille de Avignon, duque da cidade de Stª Etienne, foi desafiado para um duelo. Talvez todos conheçam, mas para os que não sabem digo que o citado nobre não era um exemplo de coragem ou determinação ao enfrentar um grande desafio. Obviamente, se o comerciante fosse um homem de menor influência, o duelo se resolveria em alguma emboscada ou embuste para com o rival, com a total negação do duque de qualquer envolvimento no ocorrido. Entretanto, o duelo foi de conhecimento geral por toda a província, o que obrigava o nobre a defender sua honra, pegando em armas pessoalmente. Posso segredar-lhes que o nosso infortunado nobre tremia tal qual vara verde desde que constatara a sua obrigação.

Sua esposa, Simone, e sua bela filha, Justine, empenhavam-se em tentar acalmá-lo e confortá-lo. Não entendiam como um homem que tinha tão boa pontaria, pelo menos era o que contavam os companheiros de caça de faisões, poderia estar com tanto medo de um comerciante genovês, que pelo que diziam, era um homem gordo, sem agilidade e de modos atabalhoados, concluindo que uma pessoa com tais maneiras não poderia ser um atirador a se temer tanto. Porém, Anatoille tentava inutilmente disfarçar o seu temor, e se constrangia ao saber dos comentários a respeito de sua pessoa. Procurou entre seus aliados mais próximos os seus pajens e quanto mais se passavam os dias, mais problemas de determinação o atingiram. Sofreu dos intestinos durante toda a semana que precedia o embate, que se daria numa sexta-feira, ao meio-dia, ao lado do poço de Santa Augusta, no bosque ao redor do povoado de mesmo nome.

Entre os pajens estava Joane Belmondo, comerciante de tecidos, mas este teve que se ausentar justamente dois dias antes, para Paris, por causa de uma enfermidade grave em um parente próximo, tendo Anatoille, às vésperas do duelo, que arrumar outro pajem. Procurou entre os amigos novamente, mas, infelizmente, nenhum, por motivo ou outro, poderia entrar na contenda no dia e hora marcados. Soube, pois, de línguas ferinas, que namorava a sua filha homem de moral conturbada e espírito vigarista, estrangeiro, chamado Guijermo Castela. Não gostava daquele jovem tão vil rondando sua casa, porém, num momento de desespero, atinou para esse homem. Alguns diziam que, por vezes, Guijermo se metia em assaltos e duelos, sendo, pois, um bom atirador e entendido de armas. Não era certo para a sua estirpe ter entre os pajens homem dessa qualidade, mas Anatoille estava desesperado de uma forma tal, que acabou o convidando.

– Naturalmente, disse o jovem mequetrefe, pero tenho condições para aceitar vossa nobre propuesta, monsieur.

– Se eu obtiver êxito, farei.

– Sabeis de meu interés para com vossa hija Justine, meu Señor, pois este povo de língua tão pouco cristã já o deve ter comentado. Porém, quero que vossa senhoria saiba que meu interés é casto e puro, e pretendo começar um negócio com tecidos e especiarias do oriente, sendo assim poderei provê-la e ainda trabalhar para o Señor, expadindo vossa fortuna. Todavia, preciso de cinco mil francos para começar este negócio. Se ajudar-vos a vencer a contenda, o que ocorrerá de fato com a minha ajuda, quero que o casamento e os cinco mil francos sejam providenciados, e garanto que com o tamanho de vossa gratitud vossa senhoria não hesitará em providenciar tudo isso.

Assinaram acordo, sob a testemunha de homens de confiança dos dois e Guijermo Castela pôde, finalmente, ajudar o duque.

No dia marcado, os seis pajens, três para cada lado interessado, investigando uns aos outros, armaram quatro arcabuzes com boa pólvora e chumbo grosso. O sol brilhava como que a zombar do que aconteceria ali. Guijermo Castela observava o gordo comerciante que parecia confiante na vitória, tendo em vista seu rival, que não conseguia disfarçar o nervosismo na outra ponta do espaço entre eles. Guijermo observou o duque e teve certeza de que se o duelo se concretizasse, a derrota dele era evidente. No contrato que assinaram, constava uma cláusula que condenava Guijermo à morte se o pior acontecesse ao nobre Anatoille. Mas, sabia que o duelo se resolveria de forma diplomática, com satisfação de ambas as partes.

Tempos antes, Guijermo fugia entre as florestas de sua terra natal, por perseguição de um gentil homem, ligado aos militares, que o pegou em flagrante com sua esposa, reunindo uma tropa de assassinos para matá-lo e expor seu corpo em praça pública. Passou por diversos infortúnios, fome, febres e acontecimentos tão sombrios, que é melhor não serem relatados para que não nos assombremos. Viveu, então, uma vida de armações e esperteza, para sua própria sobrevivência e, nesse contexto, vagou por diversas cidades da Europa. Na ocasião de sua entrada no território de Stª Etienne, teve a impressão de ouvir um som estranho, uma música estridente, que o assustou e fascinou. Parecia ser uma cantoria, uma voz feminina e licenciosa, numa língua que lembrava a inglesa, que fez seu corpo entrar num frêmito que só a luxúria pode explicar. Além da voz, havia estrondos, trovões, bumbos e outros sons que nunca sequer imaginaria que um dia ouvisse. Estando perto de um bosque, atentou para a direção daquela estranha música, cuja fonte estava escondida num arbusto. Vasculhou e observou que o som vinha de um estranho objeto, de formato retangular e cor negra, que em muito lembrava uma espécie de caixa. Havia nele um vidro brilhante, onde se formavam imagens que remontavam a alucinações que aconteciam caso alguém ingerisse um tipo de fungo especial que conhecia de suas andanças. Entre fascinado e assustado, observou um pouco o estranho objeto e pôde perceber algumas pequenas teclas, as quais, curiosamente, apertou todas. O som parou. Completamente maravilhado, apertou novamente as teclas, a luz voltou ao vidro, e a música de novo se fez. Aprendeu a utilizar o objeto, o qual denominara Orquesta de placer, e o guardou para si, pensando que, talvez um dia aquilo se fizesse útil.

E qual não foi a felicidade quando, já instalado em Stª Etienne e enamorado da jovem filha do nobre local, e conhecendo toda a história do duelo, soube que poderia utiizar-se de seu engenho para conseguir a vitória para o pai de sua amada, pois, em farras na cidade dias antes, conhecera a inclinação de Nicolau Milano por música e objetos fantásticos. Tomou um porre de vinho com o genovês e mostrou-lhe sua Orquesta, este, fascinado, ofereceu-lhe três mil francos por ela, mas, mesmo bêbado e tomado pelo amor, Guijermo negou a proposta de Nicolau e lho disse que o daria de presente, mas no dia do duelo, se este o ajudasse a poder cortejar Justine. Nicolau concordou de pronto, e Guijermo através da esperteza, conseguiria mudar sua condição.

As armas foram apresentadas. Usando de moeda viciada, Guijermo tirou a sorte, dando cara, lado escolhido pelo genovês, que assim daria o primeiro tiro. O duque Anatoille embranqueceu de medo. Um dos pajens ofereceu um arcabuz a Nicolau, que fez mira na direção de Anatoille, que suava e olhava para Guijermo, num misto de medo e raiva. Quando foi anunciada a permissão para o tiro, Guijermo interrompeu, num átimo, o progresso do duelo. Nicolau, sabendo do enleio, recolheu a arma.

– Antes que vós, gentil homem, atire na direção deste nobre, vos tenho uma propuesta.

– Fale, espertalhão, não seguirei o vosso conselho, mas quero ouvir o que tendes a dizer, para depois me rir.

O duque não entendia a situação, mas estava aliviado. Guijermo mostrou para o genovês o sua Orquesta de placer, que pôs para tocar, assustando e encantando a todos.

– Um objeto maligno!, disse um.

– Música do inferno!, disse outro.

Porém todos estavam, de fato, maravilhados.

– Recebi este presente de um mouro em Castela, disse Guijermo, e ele é um objeto único, que pertenceu a Saladino. Este usava da Orquesta para deleitar-se em seus momentos íntimos. Garanto-vos que o frêmito do desejo percorreu vossos corpos assim que pus a caixa para tocar. Pois isto é um poderoso engenho da magia muçulmana, e quem o detém tem todos os seus dias repletos de gozo e liberdade. Limo estes prazeres de minha própria vida e ofereço-vos, Señor Nicolau, para que pare com este duelo, satisfazendo todas as partes interessadas. Aceitai, pois, para que eu possa casar com minha amada Justine e começar o meu comércio, para mudar desta vida para algo mais cristão e feliz.

Entre conversas, todos aceitaram a proposta, tendo o duque Anatoille até readquirido a cor de sua face. Nicolau foi embora para Gênova, satisfeito, ouvindo em seus momentos de deleite a Orquesta, porém com moderação e por poucos instantes, afinal tamanho era o prazer que o tomava, que não precisava mais do que poucos segundos para que se satisfizesse. Guijermo teve sua recompensa, casando-se com a bela Justine e abrindo o seu comércio de tecidos e especiarias, aumentando em muito a fortuna da família do duque Anatoille. O rei, quando soube da história, nomeou Guijermo Visconde de Stª Augusta, o povoado onde ocorrera o episódio aqui narrado. Todos viveram muitos anos, e felizes.

***

– Manhêêêêê!

– O que foi, filha?

– Meu mp10 sumiu!

– Como assim, filha?

– Sumiu!

– Arrrrrr, não sumiu nada, mocinha! Eu quem escondi!

– Ah manhêêê… Por quê?

– Vi o seu boletim, suas notas estão sofríveis!

– Ah mãe, eu tinha colocado minha discografia da Britney Spears inteirinha nele…

– Só devolvo quando suas notas melhorarem, mocinha. E não adianta procurar. Nunca irá encontrar!

De fato, a mãe sabia dos hábitos da filha. Havia escondido o mp10 na biblioteca, última estante, entre os empoeirados exemplares do Decamerão e Heptamerão, nunca lidos por ninguém naquela casa.

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