Poeminhas

Infantilidade


Queria parar.

Não ter coragem de escrever
poemas pra cada pensamento besta
– ou não.

Queria não estar tão bêbado
de convicções.

Querer demais é sempre
um problema.

Queria ter coragem
de assumir certos erros,
mas todo mundo quer isso
e não faz, então estou bem.

Queria amar mais a quem me ama.

Aliás, queria saber se o que sinto
às vezes é amor.

Se é isso, estou bem.

Queria estar bem.

Estar e ser para os ingleses
é a mesma coisa.

So, i’m fine.

Sou bem.

Queria ter opiniões adequadas,
não me deixar levar por impulsos.

Nem ser um saco de batatas
sem batatas: só pano sujo
esparramado no chão da existência.

Me encher de prêmios
humanitistas e ser como todo mundo:
apenas sujo.

Não é, Quincas?

Queria ter bons costumes
e beijar na boca da Madre Tereza,
musa da moral e dos bons costumes.

Talvez eu devesse rezar mais por quem reza por mim.
Minha avó, por exemplo, sempre gastava
um bom pacote de velas com as minhas costas.

Talvez eu devesse recitar umas ave-marias
para ela no céu. Talvez ela não morresse
tanto dentro de mim.

Mas desde que me entendo por gente
ela está morrendo.

Tem gente que morre demais.

E eu sei que Deus tá olhando.

Por isso eu me escondo.

E eu queria não escrever mais nada
tão egoísta que só tenha coisas
como “eu quero”, “eu sinto”, “eu devo”,
“eu vejo”, “eu amo”, “eu ouço”, “eu faço”.

É hora de não fazer nada.

Deus tá vendo.

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