Papo furado

A Noite dos Peregrinos – Henrique Bon


Essa semana terminei de ler “A Noite dos Peregrinos”, de Henrique Bon. Trata da imigração suíça para o Rio de Janeiro, se instalando em Nova Friburgo, na época do Brasil metrópole, e primeiro e segundo impérios.

Nunca fui muito fã de relatos históricos. Gosto de coisas mais cotidianas, atuais, mais frenéticas. Gosto do hoje, em todos os sentidos. Tinha tudo pra não gostar desse livro, e foi o que pensei ao comecar a leitura. Continuei pois conhecia a prosa do Bon de outras paragens, e sempre comentei que não era algo pra se ler na internet, onde a pressa está enraizada em qualquer leitura que se pense em fazer. Como estava com o impresso em mãos, deixei-me levar ao máximo. E lhes garanto: foi bastante proveitoso e prazeroso.

O começo, quando o protagonista, Henri Cougnard, está na Suíça, em casa, é um tanto lento.  Cougnard é um jovem de família burguesa, que sobrevive da fabricação dos famosos relógios e de religião calvinista, que resolve se meter na empreitada de fazer a vida no Brasil. Tive que me acostumar com a linguagem utilizada, com as descrições da Helvécia. Por isso pensei que não gostaria, mas, como eu disse, é um livro para ser degustado. Quando os imigrantes se instalam nos pântanos de Mijl, nos são apresentados uma porção de personagens interessantíssimos. Grandjean, o bruto, Porchat, o ex-combatente, Porcelet, o capitão puxa-saco, e muitos outros que acompanharão o Cougnard em sua jornada. A partir desse momento, o livro se torna mágico. Ler é quase inevitável.

No navio, finalmente, depois de muitas demoras para a saída dos peregrinos, nos é apresentado o John Both, meu personagem preferido. Um “lobo-do-mar” que se torna um amigo fiel de Cougnard. Suas observações ao “mão-verde” são uma coisa muito divertida e um ponto a ser destacado. A partir daí, reminiscências da viagem, dos sofrimentos, das dificuldades que nunca abandonarão aquelas pessoas, que se meteram num, como é bastante dito no livro, “caminho sem volta”. Cougnard, que saíra da Suíça aos 21, passa a vida inteira envolto em saudades das pessoas que viu por menos tempo na terra natal, vivendo com essa angústia, mesmo depois de fincar os pés de maneira irretornável na terra pitoresca que escolheu para fazer riqueza. O lado humano dos personagens é uma crescente durante o romance, o que por vários momentos torna a narrativa muito emocionante.

O que quero destacar: reconheci dois contos que o autor publicou na internet em separado, fora o fragmento que já tinha lido antes, inseridos nos romance. São “O Inverno dos Lagartos”, onde dois velhos tecem comentários sobre recordações de suas vidas e “A calma enganosa da noite”, que mostra um soldado, marcado por uma existência efêmera, que se perda numa guerra. Não vou contar em que momento eles estão inseridos, para não estragar uma enventual surpresa de futuros leitores.

Henrique Bon mostrou-se um autor de preocupação humana gigantesca, num relato ficcional sobre algo a ver com sua genealogia, e que, com esta leitura, fez crescer todo o respeito que tenho por ele como escritor. Fora o gesto de me enviar o livro, que pretendo retribuir em breve.

Quem por acaso tiver a oportunidade, não hesite em ler esse livro, de narrativa cativante, profunda e envolvente.

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Um comentário sobre “A Noite dos Peregrinos – Henrique Bon

  1. -Acabei de ler o livro, interessante, gostei muito. Demorei para pegar no breu, entrar mesmo na história, com os tantos detalhes iniciais, mas depois peguei gosto, acabei, quero ver se disponho de tempo para fazer uma resenha critica. Fruto de estudos e pesquisas, o auitor médico fez uma obra que nos dá uma exata visão de como foi a leva histórica da primeira imigração nos entremeios da escravatura em fase terminal, do meio pra frente a obra pega, muito bem escrita, densa, daí é uma beleza, até o final. Trabalho de fôlego, um romance e tanto. Abraços. Silas Correa Leite

    E-mail: poesilas@terra.com.br

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