Contos

BlackJack


Voltou pra casa apressado e ansioso. Colocou a mão no bolso direito da calça jeans que vestia e sentiu o plástico que guardava aquela coisa. Caminhava tão rápido e distraído que esquecera o peso da mochila nas costas. Chegando à beira da estrada, esperou seu ônibus com um ar satisfeito.

A viagem era longa – uma hora e meia, no mínimo – então ele abriu a mochila e pegou um livro. Dostoievski parecia ser uma boa companhia. Aproveitou a mochila aberta, retirou o saco que estava no seu bolso e pôs nela. Fez isso num movimento rápido, para torná-lo imperceptível para os outros passageiros. Mergulhou de cabeça no livro… A leitura arrefece os sentidos e consegue transpor a ansiedade – Raskolnikov o fez perdê-la por alguns momentos.

O tempo passou com o ar torpe da leitura em movimento. Em determinado instante, emergiu de seu mundo paralelo e olhou para a janela: o correr rápido do asfalto era um bom descanso para a vista. Olhou o local; já estava perto de casa. Guardou seu livro e pediu parada. Foi em passos largos e anestesiados de quem tem pressa.

Continuou nesse ritmo até a sua casa. Precisava tomar um banho e comer. Quando chegou, jogou a mochila no sofá e a abriu. Pegou o saco e pôs na pia da cozinha. Foi tomar seu banho. Lavou-se com afinco – entrou em contato com muita sujeira na rua e odiava essa sensação. Saiu do banheiro e voltou para a cozinha. Pegou o azeite, picou um pedaço de tomate e um pedaço de cebola. Separou uma frigideira onde pôs o azeite e os condimentos. Abriu a sacola e pegou o pedaço de carne. O borbulhar do óleo fritando sua comida é apetitoso.

Algumas horas antes, estava envolto nas divagações e banalidades de quem caminha sozinho por lugares ermos. Uma estradinha de terra com mato alto em ambas as margens é um convite à pressa, ao medo e às reflexões. Alguns metros à frente, observou algo que chamou a sua atenção. Alguém estava deitado na margem esquerda da estrada – um pé denunciava isso, já que o mato encobria o resto. Andou vagarosamente até o local. A visão que teve o assustou.

O cadáver estava de bruços. Era um homem branco, não muito alto, que vestia uma camisa preta de banda de rock e uma bermuda vermelha de surfista. Estava descalço e havia um grande e belo buraco na sua nuca. O modo como o morto estava deitado o fascinou. Observou pasmo e maravilhado a sua ferida mortal. Porque um simples homem assassinado causaria tal sensação? Uma massa vermelha escura junto de uma lama dura, feita de sangue e areia, estava logo ao lado da cabeça do morto. O que havia de fascinante nisso?

Por algum impulso de contemplação, ele pensou que deveria guardar alguma coisa daquele instante – uma recordação. O momento era propício, pois não passava ninguém naquela estradinha. O encontro entre a vida e a morte no meio do nada. O que poderia guardar? Olhou para a cabeça mais uma vez. O pedaço mais simples e interessante de um ser humano apresentou-se a seus olhos. A orelha direita era pequena e poderia servir como lembrança. Abriu sua mochila e retirou um estilete. Segurou com o polegar e o indicador esquerdos a orelha e pôs a lâmina atrás dela. Fez movimentos de serra e um pequeno filete vermelho e frio escorreu. Havia pouco sangue, pois o sujeito estava morto. Na mochila havia uma sacolinha de plástico onde trouxera alguma coisa que não lembrava mais. Colocou a orelha nela, limpou as suas mãos com um papel e o guardou na bolsa. Limpou a lâmina na camisa do cadáver. Havia um nome escrito – BlackJack. Foi assim que o nomeou e era assim que o chamava quando se lembrava dele.

A sacolinha com o pedaço de carne ele guardou no bolso. Queria sentir aquilo em contato consigo. Pela primeira vez um pedaço de outra pessoa era de sua posse! Isso era um poder! Chamar algo que nunca foi seu de seu! Principalmente algo tão pessoal – era uma parte do corpo! Mas, aquilo iria apodrecer… Guardar, obviamente, não seria a melhor maneira de se ter um contato completo. A melhor seria absorver de alguma forma aquela coisa… Apressou-se. Dizem que o gosto de carne humana é bom. Saberia disso hoje.

Abriu um pão e colocou sua iguaria. Um suco de laranja era um ótimo acompanhante, por isso preparou uma jarra e pegou um copo. Sentou-se no sofá e ligou a TV. Passava um daqueles programas de fofocas. Enquanto assistia e não prestava atenção ao que diziam, mordeu o pão vagarosamente. A carne não era tão dura. Procurou um pedacinho da orelha com a língua. Como era bom aquele gosto! Ficou espantado com isso. Era uma carne saborosa! E o gosto da proibição, do profano e do macabro, tornava aquele sabor ainda melhor.

Mordeu de novo e de novo. O manjar antropofágico! Algo sublime e soturno com um gosto levemente adocicado. Terminou o sanduíche e bebeu o copo de suco. O lanche mais gostoso de sua vida… Blackjack o fez sentir-se assim. Mas a consciência pesou depois de alguns minutos. Que incoerência! Acabara de comer um pedaço de gente e agora estava com moralismos idiotas? Uma das coisas mais loucas e bizarras que alguém pode fazer! O misto de sentimentos o fez ficar bastante confuso. Deu um suspiro. Sabia que já estava feito, mas também sabia que não era certo, logicamente. O terror tomou conta dele por um motivo: havia gostado daquilo. Não queria desperdiçar tal experiência num simples lanche vespertino. Precisava de mais.

Anúncios
Padrão

Um comentário sobre “BlackJack

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s