Contos

O menino que queria ser invisível


“3 horas da manhã. Eu vejo tudo e ninguém me vê.” A gente fala baixo, porque senão alguém pode acordar e botar a gente pra correr. “BOLT”, passo o spray pro Tartaruga, “CHAPA”, ele escreve do lado da minha botada. “G.T.I.”, escreve, e vamos embora, seguindo as ruas escuras, procurando muros claros. Quase não tem mais muros limpos na cidade, pelo menos aqui no IPSEP. Mas sempre tem um otário que pinta de novo. Tamos eu, o Tartaruga, o Johnny e o Tácio. Tácio ta com a bolsa, que tem os sprays, o nugget, a latinha de tinta, o rolinho e os tubinhos de loló. Peço a ele um tubinho e dou uma cheirada. O gelinho descendo goela abaixo. Me tremo todo, fico tonto, dou uma risadinha, mas não posso fazer barulho. “Para de zoada, carai”, diz Tartaruga. Ele é velho; não sei a idade dele, mas acho que tem mais de vinte. Mas tem cara de pirraia. Johnny também cheira, mas não faz nada. “Essa merda não funciona comigo”.

– Por que o Cuzcuz não veio?, eu digo.

– Ô, e eu sei lá?, fala o Tácio, Parece que tava doente.

– Amanhã o bicho vai pra escola, Tartaruga diz.

– Oxe, ele num disse que ia faltar a semana todinha?

– A mãe dele deu uma pisa nele, soube que ele tava gazeando pra jogar bola. Ela falou que ia botar ele pra fora de casa se ele reprovasse a oitava de novo, disse o Johnny – ele era calado, mas de vez em quando falava.

– Também, dois anos na oitava, eu disse.

Todo mundo riu, menos o Tartaruga, que mandou a gente calar a boca e disse que por isso ele não gostava de sair pra botar com pirraia.

“Bateu de frente
É só lamento
Não adianta correr
G.T.I. é pau na cara
A gente bota pra foder”

– Cala a boca, Toca!

Meu nome é Toca, esqueci de dizer. Eu quando to no piche, tenho mania de cantar. Entrei pra galera por causa do Cuzcuz. A gente é amigo do colégio, tira onda lá que só. Eu pichava na escola, aí ele me chamou pra botar na rua. Na primeira vez, tive que fugir. Minha mãe não deixava eu passar a madrugada na rua, mas agora ela trabalhava a semana toda na casa de uma mulé, tomando conta de um menino. Aí eu pude sair. Quase todo dia a gente sai. Vai em outros bairros, botar, com os chegados da galera da gente. A gente pega o bacural às vezes. Tem vezes que a gente só volta quando amanhece. Hoje a gente tava no nosso bairro. No sábado, só de vez em quando eu saio, pra ir pro baile funk, pro pagode ou pro brega. Às vezes a gente encontra os caras da T.P.C., e a gente briga. São uns otários. Só levam reversal, mas de vez em quando pegam um dos da gente dando vacilo. Eles são do Patrício Costa. Mas pra ir lá tem que ter uma galera grande. Eles também têm medo de vir aqui, por isso a gente só se encontra no baile, que é na Avenida General Teixeira, na divisa dos dois bairros.

Parede alta, brancona. Todo mundo se coçando pra pichar. Mas era da TransSec, e o vigia prometeu que metia bala em quem tentasse botar lá. Quando ele pegou a gente da outra vez, bateu muito. O cara era forte. Jogamos pedra, corremos, mas ele deu um pau no Johnny, coitado. A gente riu demais da cara dele no outro dia. Johnny ficou todo quebrado e pintado de azul, já que o vigia tomou o spray dele. Demorou uma semana pra sair. “Podia ser pior”, falou Hugo, um cara lá da escola, da oitava C, “Ele podia ter tomado o loló de vocês e derramado nele, que nem a polícia fez com o Bilica. Ele ficou com o pescoço todo queimado, ainda tem as marcas.”

Mas Johnny era doido. Prometeu botar bem grande “JAY” e escrever “vai tomar no cu vigia!” A gente pensava que ele não ia ter coragem, mas ele disse pro Tácio, “me dá o nugget”. E o viado tava escrevendo mesmo! Até o Tartaruga tava rindo!

– Poooooooorrrraaa!!!!

Quem gritou foi o vigia. Ele viu tudo pela câmera, mas deu tempo do Johnny colocar tudo. Mas ele escreveu errado “vai toma no cú vijia!”, hahahaha. O cara veio correndo e a gente correu também, cada um pra um lado. Eu não agüentava de tanto rir. A madrugada é gelada. Massa demais correr com o vento na cara. “PÁ”, achei que foi um disparo. Foi um pouco longe. Meu coração disparou. “Fudeu, o puto atirou!”, pensei. Aí que eu corri mesmo. Não agüentava correr mais, mas corri. A dor de viado no peito, mas eu agüentei. O medo foi maior.

Eu tava quase na ponte. Sozinho. Olhei pra trás e vi a rua vazia. Nenhum carro, nem uma luz, a não ser a luz amarela dos postes. Eu tava com medo. Semana que vem eu ia fazer 14 anos. Tava na ponte e vi o horizonte, o mangue. O rio fede. O vento é mais forte na ponte. A água escura, só com o reflexo dos postes e da lua. O céu já tava ficando roxo, pois o dia tava amanhecendo. Fiquei debruçado, pensando. Quando clarear vou poder andar mais tranqüilo, ir pra casa, comer. Dormir. Acho que hoje ninguém me viu.

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