Contos

Uma tarde de sol quente


Uma tarde de sol quente, grudando a poeira nos pés suados das pessoas andando de sandália na rua. Taisson e Juvenal, a bebericar cerveja no quintal e falar besteira. A churrasqueira grudando cheiro de maminha nas costas altas do muro. A pintura deste, descascando, ganhando uma capa preta de carbono junto ao fogo. Juvenal olhava o quintal e desenhava a história dessas imagens na cabeça; o amigo a observá-lo, fingindo não perceber.

– Cadê a Telminha?, perguntou Juvenal.

– Sabe, ela foi na casa da mãe. Está enchendo muito minha paciência ultimamente…

Pega um pedaço de carne e mastiga, retirando um resto de gordura preso nos dentes, com a unha.

-… Coisa de mulher.

– Coisa de mulher. Aproveitando o tempo sozinho, então?

– É né?

– Massa esse seu quintal. Deu uma capinada no roçado, depois eu vou querer um daqueles cocos ali.

– Rá, beleza.

– E o facão? É novo?

– Novinho. Comprei para tirar os cocos.

Pega o facão que estava encostado na parede dos fundos da casa e empunha. Oferece ao amigo.

– Bom, diz Juvenal, bom. E aquela terrinha ali?

– Vou plantar alface.

– Sério?

– Sério.

– Pô, gostei do que tu fizesse aqui. Bom pra carai.

Ambos dão um leve gole nos respectivos copos de cerveja.

– Ói, já que minha esposa saiu, vou lhe ser franco.

– Seja.

– Ela não gosta mais de mim.

– Oxente! Como assim?

– Eu sinto. Pareia, eu não sou nenhum abestalhado. Ela fica me botando pra trás, me comparando com esses outros féla da puta, com o perdão a má palavra, porque eu to desempregado, porque eu não faço nada, porra, eu fiz esse caraio todo aqui atrás no quintal e a mulé vem com essas desgraças.

– Foda.

– E ainda vem dizer que to bebendo demais. Mentira, eu só bebo na sexta. O máximo é uma cachacinha depois do almoço, pra rebater, hehe (ambos riem), e ela reclama. Só reclama. Eu até dei um graças a Deus que ela saiu, posso comer o churrasco em paz.

– Tu é um cara todo certo, vai plantar até alface.

– Mas o caso é pior. Eu to pensando que ela ta de safadeza comigo.

– Oxe, como assim?

– (cochichando) Que ela ta me botando ponta. (gesticula)

– Conversa é essa rapaz…

– E o pior: com gente conhecida.

– Rapaz, isso aí é muito sério.

– Ela sai, vai trabalhar na cidade, volta de noite, tem vez que só no final de semana, no meio daquele povo metido à merda.

– Tu não devia dar confiança mesmo.

– Quer dizer que tu concorda?

– Óia, eu não duvido da seriedade da sua mulher. Mas sempre tem um frango que gosta de bulir com empregada, que nem nos filmes, e sua senhora, com todo respeito, é bem apessoada. Não duvido que já tenha recebido cantada por aí.

– Tô dizendo.

Taisson se levanta e entra na casa, aumentando o volume do rádio, fazendo o pagode ribombar por toda a vizinhança. Juvenal enxuga as mãos suadas no calção. Estava muito nervoso. Ficou pensando onde Telminha poderia estar naquele momento. Olhou o amontoado de terra que seria a plantação de alfaces. Taisson estava demorando. Sentiu que, ao fundo do cheiro de carne ao fogo, vinha um cheiro mais doce, mais sutil, que fez suas mãos suarem de novo. Olhou o monte de terra outra vez. Onde estava Taisson?

O golpe seco no pescoço não deixou ele perceber que o facão também sumira.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s