Contos

Sede


Rio acima, os geógrafos e meteorologistas anotavam em blocos as impressões e pareceres técnicos que inferiam do fenômeno. A água subia em nuvens de vapor, precipitando-se em funis que ascendiam suaves até espessas nuvens que se formavam no céu. A chuva caía esparsa, contrastando com o aspecto pesado que todos sentiam ao olharem para cima. O completo absurdo daquilo estimulava mentes ardilosas. O fim do mundo, diziam os místicos, os apocalípticos, a imprensa marrom. Cientistas respeitados eram convidados à TV, para explicar o inexorável, tentando acalmar a população. Geólogos e Físicos teciam teorias sobre uma provável mudança magnética na terra, as medições não mentiam. Mas drásticas mudanças no magnetismo terrestre matariam todos os seres vivos e isso não aconteceu. Era tudo, de fato, inexplicável.

Anos se passaram, séculos, o tempo necessário para que todos se esquecessem do quão estranho aquilo era. A chuva, os funis de vapor sobre toda a água da terra, o mundo sempre cinza. Tudo era normal agora, era o ambiente. Animais que não suportavam a umidade excessiva foram extintos. A temperatura era sempre branda, o sol não mostrava mais o seu rosto. Vegetais com maior propensão a umidade subjugaram seus rivais xerofíticos. A paz voltara de certa forma ao mundo, confortavelmente.

Os seres humanos demoraram a se acostumar com aquilo. Doenças respiratórias foram uma constante no início, mas a humanidade sobreviveu. Todas as formas de gripe, todas as pneumonias; o mundo crescia imune. O clima fechado tornara as pessoas mais reclusas, as internets se multiplicavam, a comunicação era totalmente informatizada. As ordens mundiais continuaram seu infame assassínio sobre as populações pobres, a paranóia ainda era um problema nas pessoas. Séculos não mudam nada.

De repente, a chuva caiu de vez. Brutalmente, ela preencheu ruas, casas baixas. O mal eram doenças trazidas pela água, afogamentos, deslizamentos de terra, devastação. Uma mortandade realmente relevante se instaurou entre todos. Era o dilúvio; e, como num dilúvio, a paz se fez com o sol.

Mais uma vez, com a estranheza do novo clima, muitos seres morreram. Anos decorreram para que toda a água daquela chuva evaporasse, escoasse, tornando o planeta um lugar habitável de novo. A radiação solar não poupara os peixes. A água, bebida pelos seres sobreviventes, tomara um aspecto venenoso. Os que sobreviveram a mais esse cataclismo sentiam uma sede incontrolável. Homens, bichos, todos procuravam onde a água florescia, onde arrefecer aquela torturante sensação. Eles bebiam, se contorciam e retorciam seus corpos numa agonia piorada, traduzida em movimentos espasmódicos. Não sobrara vida, nada que lembrasse vida, nada que se movimentasse por si só, nada que fosse uma força da natureza por sua própria complexidade. O mundo era todo morte.

Gases foram preenchendo rapidamente a troposfera até que os reservatórios das naves foram completamente esvaziados. O planeta estava propício para abrigar a nova população. Os deuses puderam descer.

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