Contos

Reflexões que não servem para nada


Gosto do Caranguejo. Não que eu fique muito tempo lá, apesar da vontade toda vez que eu passo na Aurora. Eu passo por ali à tarde, poucos pedestres, a praça, o skate park, os cheira-cola por lá. Às vezes eu cuspo no mangue e dou um tempinho, procurando os xiés, mas raramente os vejo porque você tem que ficar muito tempo parado, olhando os buraquinhos na lama. Certa vez eu fiquei parado, olhando o Caranguejo de ferro por baixo, como um turista, mas eu tinha pressa; quando a gente quer contemplar a cidade, a gente tem que ir.

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O peneiramento automático, retiro as peneiras, lavo e separo os grãos em recipientes de porcelana e ponho nas estufas de acordo com a granulometria específica. Agitador mecânico. Depois anoto em fichas e insiro os dados no computador. Isso o dia inteiro. Coisas da companhia de esgoto. A melhor parte mesmo é sair, seguir pela Aurora de novo, ver o palácio do governo do outro lado, de saco cheio, querendo voltar pra casa.

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Lembro quando eu dava umas voltas por Santo Amaro, passava voando pelo 13 de maio, me metia alguns minutos na biblioteca, espirrando a poeira e ácaros dos leitores de tantos anos. Eu pensava que nunca teria coragem de abrir alguns dos Hemingways que me encaravam, “Adeus às armas”; os livros restaurados, que não têm ilustrações na capa, são interessantes, pois só o título é o chamariz, e normalmente são de coleções e não há orelhas. É só o leitor, o livro, dane-se o autor. Aquele beijo na boca artístico, numa capa vermelha e bonita, limava minha vontade ler o Hemingway.

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Pode não parecer nada, e realmente não é, eu estava na biblioteca, não lembro quais os meus empréstimos, quando havia um casal ao meu lado, no computador, pesquisando Nietzsche. Só que o cara não sabia digitar Nietzsche e eu soletrei essa palavra de merda com toda a arrogância possível na minha voz cansada. Pra quem sempre foi considerado um imbecil, isso satisfaz de alguma forma. Aí eu empurro os livros do meu empréstimo pra frente, faço cara de apressado, garrancho o meu nome. O 13 de maio de novo, mendigos sentados na grama, estudantes sentados na grama, patos, gansos, macacos nas jaulas e cágados. Vendedores de todo o tipo de bugigangas e o clima de ladroagem no ar.

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Você acorda todos os dias já acostumado com isso, mas uma vez eu atentei que o mundo é amarelo. O chão, as coisas, os prédios. Até a bosta na frente do portão do prédio, que eu empurro, irritado, com um pedaço de tijolo, maldizendo os cachorros da vizinhança. O olhar das pessoas sentadas na rua, nas cisternas, tudo amarelo, menos os negros. Todos os negros parecem não ter essa coisa amarela saindo deles, mas isso até você parar pra conversar com algum, e sentir a desesperança de não ter encontrado alguém superior. Todo mundo é a mesma bosta.

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Você fica procurando poesia em todo canto. Bueiros, no andar das pessoas, nas copas das árvores, a fofoca na frente das casas e prédios caixão. Você sente vontade de chutar os pombos, torce para que eles sejam atropelados, fica enojado com a massa cheia de penas dos pombos esmagados na rua. E por algum motivo, sempre espirra quando está caminhando na maldita rua amarela, enquanto faz versos para si mesmo, versos que serão devidamente esquecidos quando chegar em casa.

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A padaria não está cheia. Dois reais no bolso. Boas tardes e meio-sorrisos jogados a todo mundo que falou comigo. Espero, olhando o peso e o valor nos mostradores das balanças, o meu dá R$ 1, 95. Numa prateleira à frente, um jornal “popular”, com uma manchete escrota sobre uma mulher que arrancou o pinto do marido com uma faca. Fico pensando que é por isso que esse jornal não faz sucesso. Nota-se que é notícia escrita por gente metida a besta, achando que o povo é ignorante. Mesmo que você seja pobre e ignorante, nunca irá admitir. Ninguém tem paciência pra aquele pessoal culto, metido a inteligente, com aquele jeito sem-graça e um falar polidinho que habitam os telejornais, mas pelo menos eles transpassam mais segurança do que alguém que escreva uma notícia tão escrotamente. Minha vez, cinco centavos de troco. Assim que saio, um moleque pede uma ajuda. Dou a moeda pra ele, mas sinto vergonha disso. Quando você não anda com dinheiro no bolso e tenta ajudar alguém mesmo assim, não dá pra não se sentir um imprestável.

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