Contos

Reminiscências de um clube suburbano


O chão lembrava ardósia, mas era cimento batido, úmido, graças a goteiras que fabricavam poças e respingos nas pernas dos primeiros dois clientes do bar, sentados próximos a elas. Silva, o proprietário, providenciou três baldes e aumentou o som da TV, arrefecendo o tamborilar plástico da água no fundo dos recipientes. A manhã chuvosa deixava a espelunca melancólica. Era um dia de vagabundagem, dia inútil, abortado pelos sonhos viciados da noite anterior.

Antenor olhava para os quartinhos de branca, limões cortados ao meio, porta-guardanapo, saleiro, paliteiro, pimenta malagueta. Tudo em cima da mesa de ferro amarela. A fome enraizada em suas mandíbulas o fazia respirar em talagadas, precisava de pão com ovo, algo que cruzasse sua garganta e repousasse no bucho. Tirava gominhos do limão espremido e punha na língua. Otávio olhava pra cima, também com fome, mas circunspecto.

– Chuvarada, disse Otávio.

– Pois é; vai demorar muito, Silva?

Algo que parecia ser um “não” veio da cozinha.

– Ta vendo a velha ali na TV?, disse Otávio.

– Qué que tem?

– A cara da minha falecida avó.

– Hahaha, tua avó era feia pra burro.

Riu sozinho.

– Vai se danar, disse Otávio.

– Mas, o Peninha vai trazer o quê?, disse Antenor.

– Ele disse que o material era bom, relaxa.

Silva traz o prato com quatro pães com ovo. Eles se calam, questão de respeito.

Na rua, o canal vai enchendo, vê-se um camundongo, amedrontado, saltar entre o capim alto da margem. Lixo boiando na frente de uma casa entre árvores na margem oposta. Alguma coisa confortável e assustadora pesava no ar. Eles observam a cena, a chuva machucando o chão de terra, fabricando barro pra grudar nos pés.

Batuque de dedos no metal, revelando impaciência. Fome abrandada, mentes relaxadas pela cachaça. Um carro pára na porta do bar. Desce um homem, que corre pra não se molhar.

– Anísio? Cadê o Peninha?, exalta-se Otávio.

– Porra, eu não sei, opa, seu Silva!

O dono do bar acena com a cabeça. Antenor só observa.

– E o que é que você ta fazendo aqui?, pergunta Otávio.

– E então, eu to aqui pra esperar o Peninha, ele não foi lá em casa ontem, to aguardando o material. Sem nada.

– A gente também ta esperando. Ele vem aqui trazer o estoque.

– Com essa chuva, é capaz dele não vir, disse Antenor.

– Calmo aí, rapaz, ele não iria faltar com suas obrigações de Distribuidor.

O Distribuidor era a pessoa responsável pelo abastecimento dos Mercadores. Antenor, Otávio e Anísio já estavam mergulhados até o pescoço no clube. Era um caminho sem volta.

O clube, grafado assim mesmo, começara há oito meses. A sede era o bar do Silva. A comunidade estava cheia dos problemas com o crime, bandidos jovens, cheios de ímpeto, instaurando o terror. Uma moça, 17 anos, foi estuprada com a mais bruta crueldade por um grupo de bandidos que assaltavam constantemente naquelas redondezas. Ela era filha do seu Antenor.  Polícia era uma coisa praticamente inoperante.

Daí nasceu o clube.

A idéia não veio da cabeça do Antenor, mas sim do Otávio, policial aposentado. “Por que não expulsamos essa corja da nossa comunidade?” soltou certa vez numa conversa. Há turbidez na memória de todos quanto ao dia, mas só se lembram que era noite.

Arrumaram então dinheiro, um capital inicial. Foi duro convencer as famílias, as esposas, filhos, netos. Compraram armas, revólveres, fáceis de conseguir em feiras. A prática do tiro acontecia no terreno atrás do bar. Latas de leite perfuradas jaziam no chão, em meio ao mato alto, revelando os treinamentos daqueles homens.

O clube não tinha proposta inicialmente. Era apenas uma tentativa desesperada de expurgar os males daquela comunidade. A maior representação deles era Dinho, que chefiava o comércio de drogas da região. Começariam por ele.

Antenor nunca havia matado ninguém. Nem Anísio, nem Otávio. O certo é que foram rápidos. O tráfico ali era muito esparso, não havia uma organização definida, mas todos sabiam que era Dinho quem mandava.. Os homens do clube foram falar com ele, dois capangas ao lado, desprovido de preocupação, que recebeu aqueles senhores em sua casa, sentado no sofá. Otávio rendeu um dos capangas sem atirar, tudo muito rápido, mas Anísio não tinha experiência com aquele tipo de situação e então atirou na barriga de Dinho, que se curvou, num espasmo de dor suíno. Antenor atirou no outro capanga e Otávio terminou o serviço.

– Vamo levar essa droga toda, disse Otávio.

– Como é?

– Outros bandidos, até a polícia, vêm, pegam o material, e revendem. Nosso trabalho terá sido em vão.

A pressa não os deixava raciocinar direito, mas aquela observação fazia todo o sentido. Aquela droga toda seria confiscada por alguém. Era melhor que ficasse sob a guarda deles. Pegaram toda a mercadoria que a pressa poderia deixar.

O triplo homicídio não foi noticiado com destaque, a imprensa e a polícia trabalhavam com a hipótese de briga de gangues.

E a matança continuou. O bar do Silva reunia os senhores do clube, que cada vez aumentava mais. Homens de bem, indignados com a violência, aderiram à causa, comprando armas. Outros resistiram de início, mas viram que era a única solução para aquilo tudo. A comunidade passou a proteger-se por si só. Os criminosos temiam atuar por ali, pois nunca se sabia de onde poderia surgir algum membro do clube. Os assaltos sempre terminavam em tiroteios, surras, morte. Nos dois primeiros meses, a violência cresceu absurdamente por aquelas bandas. Até a criminalidade perceber que não teria mais vez por ali.

Não se sabe de quem partiu a idéia, mas muita droga confiscada estava sendo estocada nos fundos do bar. Precisavam se livrar daquilo.

Silva era um homem inteligente, mas não queria se meter naquela confusão. O bar era sede porque ele concordava com a causa, mas também temia a própria morte, ser alvo de vingança. Ele não se considerava membro, mas a organização do clube foi uma idéia sua.

O clube se dividia em três grupos: Soldados, Mercadores e Distribuidores. Não há hierarquia definida, mas os membros fundadores eram respeitados como chefes. Os Soldados cuidavam da patrulha do local; andavam por vezes em grupos, mas trabalhavam em plantões quando não saíam em ronda. Cada homem era responsável por sua rua. As rondas, em grupos de seis a dez, eram para evitar a invasão do local por bandidos. Todos os membros eram Soldados antes de tudo. Os Distribuidores eram os responsáveis por coletar o material apreendido e levar aos depósitos, que inicialmente era apenas o bar do Silva, mas depois foram descentralizados. Os Mercadores eram os responsáveis pela venda do material a pequenos traficantes de outras localidades. Droga não era mais consumida ali. O dinheiro servia para fortalecer o clube, que comprava armas mais sofisticadas, sustentar os membros, que trabalhavam e se arriscavam bastante, e subornar os policiais, que já atentavam para uma organização tão grande. O problema era a imprensa.

Peninha era pai de duas filhas moças, que não moravam mais por lá e um filho pequeno. Ele era um desses Distribuidores. Antenor e Otávio apenas fiscalizavam o depósito, cumprindo a função de veteranos. Anísio precisava sempre de um dinheiro a mais, a sua aposentadoria era parca, por isso se arriscava como Mercador. A chuva daquela manhã não poderia servir de desculpa para uma falta tão grave.

Tudo isso por um motivo simples.

No começo, o clube só vendia material apreendido com os viciados e bandidos que eram pegos dentro da comunidade. Mas, com o tempo, os Mercadores tinham uma clientela definida, que também eram traficantes, pequenos, mas perigosos e, mesmo explicando que o material seria pouco, pois só era o capturado, pediam mais, aproveitando o total desconhecimento dos preços praticados no comércio de drogas daqueles senhores enfurecidos. Isso até eles se inserirem no mercado de vez.

Com a desculpa de aumentar a qualidade do armamento, aumentar a remuneração dos membros, fortalecer o clube, os mais antigos se reuniram. O conselho teve uma resistência árdua de Antenor e Silva, mas Otávio e Anísio, que já era Mercador, conseguiram convencê-los. Eles já eram grandes demais e não sabiam.

O clube passou a ser respeitado na cidade. A imprensa começou a tentar decifrar quem comandava o crime naquela região, impondo pulso firme, mas, curiosamente, com a aprovação de todos os moradores. Havia algo estranho ali. O tráfico pequeno quase inexistia na comunidade, sendo reprimido com os membros que, por algum motivo, abriam exceções e o praticava. Eles agora precisavam de um código.

“Para casos de tráfico inapropriado, intimidação de vizinhos, usar de condição de membro para obtenção vantagens, pena mínima: apreensão das armas e expulsão.

Para casos de ação violenta imprópria, acarretando ferimento em pessoas inocentes, ou agravando os crimes citados anteriormente, pena média: apreensão das armas, expulsão e surra.

Para casos de denúncia, comprometimento do clube por razões consideradas indevidas, pena máxima: morte.”

Otávio e Antenor escreveram esse texto.

A chuva parecia ficar cada vez mais forte. Antenor acendeu um cigarro e se encostou à porta do bar, abrigado pelo toldo de metal. O vento molhava suas pernas, causando-lhe uma sensação fria de abandono. Agora passava todas as suas manhãs no bar do Silva. Sua filha Júlia e sua esposa, dona Conceição, não concordavam com o clube. No início elas o apoiavam, mas com o crescimento do clube, excessos cometidos pelos membros com os moradores e a punição quase sempre violenta destes, elas agora queriam sua saída. Não queriam imaginar seu pai e marido aplicando a pena capital a ninguém. Antenor sabia que sua saída significaria a morte, o clube era uma coisa que já tinha vida própria, continuaria sem as suas rédeas, talvez piorado, virando uma organização “criminosa” (na sua concepção) de vez. Ele precisava ficar.

E sua alegação era que nenhum membro do clube precisou ser julgado com a morte.

Antenor avistou o carro de Peninha chegando na outra esquina. Ele desviava das poças de lama, cuidadoso também para que não caísse no canal. Antenor avisou seus companheiros e se sentou. Olhou os desenhos animados na TV.

– Porra, Peninha, disse Otávio, o que aconteceu?

– Rodei todo interior procurando material do bom. Negociar com esses matutos é difícil, bicho. Capim ta em falta, farinha e pedra também.

Todos se calaram, respiraram fundo. Alguma coisa estranha.

– Meu amigo, conversei com gente da Vila Santos e ta tudo normal, disse Anísio.

– Não. Ta difícil sim, fui buscar na fonte.

– Você não é o único Distribuidor, disse Otávio.

– Eu to precisando comer. Silva, põe um pãozinho com ovo pra mim, disse Peninha.

– Eu acho que você deveria falar com sua esposa, disse Antenor a Peninha.

– Precisa disso não, rapazes, não precisa.

Peninha era um rapaz muito falastrão. A imprensa havia o procurado algumas vezes, mas ele era advertido apenas, pois era um membro dos mais antigos, de confiança, bom negociador.

Mas Anísio sabia de mais coisas.

– Olhe aqui, rapaz, eu sei de tudo.

O bar observava Peninha, as gotas quase se transformavam em filete, caindo nos baldes. A umidade crescia negra ao redor dos furos no telhado de amianto.

– Como é? Sabe do quê?

– De sua conversa com Ranulfo Cesar.

– Que história é essa?, disse Otávio.

– Nada rapaz, ta de sacanagem?, disse Peninha, Cadê a consideração?!

Antenor se levantou, segurando as pernas, com cansaço. Ele também sabia. A noite havia sido de uma longa conversa com Anísio. Otávio era exaltado demais, não saberia administrar a situação.

– Nós sabemos de tudo, disse Antenor, colocamos homens na sua cola, você conversou com um repórter ontem.

Os lábios de Peninha clarearam, numa expressão que era uma confissão de culpa. Balbuciou umas negativas. Otávio tomou-lhe a arma da cintura.

– É melhor você ir conversar com a sua família, disse Antenor.

Os carros iam driblando as poças de lama com dificuldade. Peninha morava perto do bar. As janelas dos carros se enchiam com a precipitação carbônica da ansiedade. Alguns cães tentavam se esconder embaixo de marquises. Parcas pessoas venciam a rua, entortando guarda-chuvas, tentando seguir sua lida.

A rua onde Peninha morava estava alagada, de modo que os homens tiveram que seguir a pé, enfiando o pé na água suja. O cortejo era calado, barras de calças levantadas, urina de rato penetrando os poros. A chave hesitava um pouco para girar, e os cães no terraço sentiam o cheiro do medo, mas a intimidade evitava o ataque. Ensopados, adentraram a casa.

– Bom dia, rapazes, disse dona Vera, que é isso? Todo mundo ensopado. Esperem aí fora.

– Não vai dar, disse Antenor.

– Como assim?

– Escuta eles, Vera, disse Peninha.

– O que aconteceu?

– Onde está o seu filho, Peninha?, perguntou Anísio.

– Gripado, no quarto.

– Vamo lá.

– Não sem antes explicar!, disse Vera, pondo-se tesa à entrada.

– Verinha, sai da frente, diz Peninha.

Os homens esperam a resolução do impasse. Aquilo não iria durar para sempre.

– Vamos entrar?, disse Otávio.

– Sai daí, porra!, disse Peninha, empurrando a esposa para dentro.

Os homens sacam as armas. Vera percebe, ela bate em Peninha, histérica. Ele a abraça e chora. Marejam os olhos de Antenor. Peninha leva a esposa para o quarto do filho, os homens logo atrás. Beija a testa do garoto, trinta e oito graus do corpo deitado, que se perde em sonhos alucinógenos. Peninha não quer acordar o filho. Já era a hora.

Os homens vão embora deixando pra trás soluços e latidos na casa ilhada. Caminham até os carros, que seguem atrapalhadamente entre as ruas de esgoto. Vão até o campo de futebol, até o sombreiro, todos olhando para o chão, Peninha bebendo a água que escorria pelo seu rosto.

Chegando à arvore, um último pedido.

– Antenor, eu quero que seja você. Cuide bem do meu filho, da minha esposa.

– Cuidarei.

O cano do revólver encostado ao coração. Antenor fecha os olhos e puxa o gatilho. Peninha cai sentado, uma golfada de sangue escorrendo pelo pescoço, o fio rubro saindo do peito queimado. Os homens se abraçam e rezam um pai-nosso. O exemplo estava dado.

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