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Aí é que tá: as coisas que espero com ansiedade dificilmente vêm. É só eu colocar um pouco de expectativa em cima e tudo vira fumaça. Até a Grande Chuva anunciada pelos meteorologistas, que eu tanto aguardava, não chegou. Já começa a esquentar, inclusive. O Universo conspira sempre para o inverso das minhas expectativas. Devo pensar “que grande merda” ou “que grande cara sou”? Será que há alguma importância oculta em minha contrariedade para os Andares Metafísicos?

Besteira. Qualquer uma das respostas não vai me colocar em algum Posto Ímpar onde o mundo gire em torno do meu umbigo. Não. O lance é outro. Um distanciamento implicante, talvez, ou coisa que o valha. Mas sem maiores destaques quanto minha identidade para qualquer entidade superior supraciente. Estamos eu e mais bilhões de pessoas, creio, ponderando qual é a do Universo para conosco. Esse sim é o lance: fantasiar uma importância cósmica que não se tem. Não seria esse o cerne da espiritualidade? Eu acho. É aí onde moram os deuses e os fantasmas.

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Temporal

Nota
Contos

1

Obviamente ele não sabia o que esperar. Deixou-se levar pela madrugada. Aquele frio na espinha que todos nós sentimos, amigo leitor, aquele calafrio que dá quando estamos sozinhos andando à noite pelas ruas fedorentas da cidade. Só – ele e Deus. O rio reflete as sombras, alguns cracudos andando, outros dormindo, gente passando a conta gotas, o amor é somente uma gosma naqueles baixos meretrícios. E lá vai o nosso herói andando ao redor do rio, sem saber o que esperar da vida.

Ele pensa que talvez um taxi passe, ou alguém lhe pergunte as horas, ou alguém tentaria assaltá-lo. Estava meio bêbado, uma garrafa de vinho vagabundo na mão esquerda, uma pedra invisível no pescoço ao atravessar a ponte entre goles. A bexiga apertada, enquanto o céu enganava um azul bem mequetrefe, céu sem lua, uma garça fedorenta balança as asas e nenhum pio de coruja.

Por que esse azul escroto? – questionou nosso herói, enquanto o dia tomava forma. Não sabemos, nem podemos te responder, cara. Continua teu vagar.

E lá vai ele, já do outro lado, entre estátuas, árvores, poças e buracos. A calçada mais bonita do mundo, toda fodida. Nosso herói samba entre a merda e joga a garrafa no rio. Estava amanhecendo. Parou num poste em frente à livraria. Bem, nessas horas que se foda a metafísica. Esperou um táxi, qualquer merda mesmo. Tava a fim de ir pra casa.

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Carcinoma

Disseram a você em azul
que não podia.
Ao seu ouvido disseram

que fazia mal.
Mas mesmo assim você
está
com um na boca.

Aceso.

Não é o da paz & do amor:
você sabe:
a paz é o último refúgio da atrocidade
& o amor o primeiro do desespero.
Você sabe que é mortal.

Foda-se.

Você gosta do sabor
e de saber
que em cada sopro dado
que em cada cinza caída
uma pitada amarga
de último suspiro
uma pitada a gosto

de sal queimado

de suor aflito
um pouquinho caído de alma.

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nós

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Contos

piadas de caserna

O general estava sempre cavalgando seu corcel ao redor da base e nunca falava com ninguém. Apenas dava voltas e ficava observando o comportamento de todos com seu olhar reprovador e semblante carrancudo. Às vezes algo dava errado – o que nós nunca sabíamos direito o que tinha sido – e ele mandava chamar alguém à sua barraca até que mais tarde o pelotão de fuzilamento estava pronto e tínhamos que cumprir nosso papel. Mas eram poucas as vezes em que isso acontecia, afinal não podíamos gastar munição com nossos companheiros tanto assim, de modo que tínhamos uma grande liberdade no acampamento. Passávamos a maior parte do tempo jogando cartas, esperando o chefe do Rancho trazer mais cigarros, vinho e álcool em barra para esquentarmos as latas de feijão e a água para o café.

Os dois capitães às vezes saíam voluntariamente da roda de cartas e iam até à barraca do general – que não era mesmo um general, mas um major – e voltavam com missões para nós. Isso não costumava se repetir muito nos últimos dias e a ideia de pegar nossos rifles, pistolas, facas, mantimentos e partir floresta adentro até uma cidade pequena ou vilarejo  saquear, matar, trocar tiros com inimigos até a morte nos entediava. Quando saíamos em missão o general ficava em seu corcel nos observando, fumando um charuto, com sua pistola prateada, talvez num gesto que considerava como fonte de bons fluídos e boa sorte para nós, mas não havia como saber suas intenções, pois ele nunca falava com ninguém.

Uma noite fui em missão com um companheiro que chamávamos de rato. Rato e eu tínhamos que seguir dois quilômetros a sudoeste do posto 14 e cortar todos os fios que encontrássemos em meio às árvores. Mais meio quilômetro adiante havia um pequeno acampamento onde alguns fugitivos civis se escondiam. Lá eles não tinham muitos mantimentos, mas como eram fugitivos parte do nosso dever era fazer de suas vidas um pequeno inferno. Fomos. Levamos cada um uma granada, uma pistola de 15 tiros, fósforos e nossos punhais de lâminas de 20 centímetros cada. Era uma missão difícil, por isso quanto menos soldados envolvidos, melhor, para não chamar a atenção das tropas inimigas, que poderiam a qualquer momento atacar nossa base.

A parte de cortar os fios foi fácil, apesar de nossa curta caminhada ser chata e cansativa porque tínhamos que subir nas árvores a cada som suspeito que ouvíamos, e numa guerra qualquer barulho pode significar a morte chegando, certa, com seus dentes afiados e sua baba ácida. Encontramos alguns cabos e os cortamos com nossos punhais. Rato trouxera uma garrafa de aguardente e bebemos um pouco depois de terminarmos de cortar os fios.

Enquanto seguíamos ao encontro dos fugitivos ele me confessou que traficava maconha antes da guerra. Que vendia a estudantes universitários e que era um jeito tranquilo de ganhar uns trocados porque ele tinha cliente certos e de boa família. Disse a ele que eu limpava piscinas e ele me deu mais um pouco de aguardente, até que começamos a andar mais devagar e com os ouvidos mais abertos, sem falar. O acampamento de fugitivos nada mais era que uma pequena barraca de camping com brasas de fogueira, a fumaça subindo, branca, em frente, numa minúscula clareira no meio do mato. Fomos até lá devagar e sacamos nossas pistolas, eu parei na frente e rato do lado direito. Demos alguns tiros e algumas coisas gritaram lá dentro, então abri a barraca com meu punhal e pude ver que a barraca abrigava uma família, homem, mulher e um bebê entre os dois. O homem estava com muito sangue no peito e balbuciava algo virando a cabeça pra lá e pra cá. A mulher segurava um rifle, mas ela tremia tanto que só conseguiria atirar quando amanhecesse. O bebê chorava. Rato pegou o bebê e deu um tiro na cabeça do homem agonizante. Arrastei a mulher para fora e a joguei no chão. Com meu punhal rasguei seu vestido. Ela sangrava do braço direito e tinha um corte profundo na barriga. Passei um pouco de sangue na sua vagina e a estuprei, dando de vez em quando socos em sua cara para que se acalmasse. Rato tinha dado alguns chutes no bebê, que não mais chorava. Então ele desperdiçou o restante de aguardente no corpinho imóvel e acendeu um fósforo. Gozei dentro da mulher, que chorava baixo, e me levantei. Rato saiu de junto da bolinha de fogo e veio estuprar a mulher também. Dessa vez ela não gritou. Até gemeu. Acho que gostou. Levamos a mulher como prisioneira, mas ela não aguentou caminhar muito então rato cortou a garganta dela e voltamos à nossa base lamentando ter estragado a aguardente toda.

Outro dia, rato foi à barraca do general e horas mais tarde gastávamos algumas balas com ele em mais um daqueles pelotões de fuzilamento que só serviam para que gastássemos nossa munição à toa.

Ultimamente vínhamos jogando muito pôquer, e apostávamos cigarros, sendo que uma vez fiquei devendo quatro maços ao sargento e o chefe do Rancho disse que estava estritamente proibido de aumentar minha ração para mais de dois maços por semana. O sargento, que chamávamos de tampa, resolveu então que eu o pagaria deixando que ele me desse doze socos na cara, três para cada maço de cigarros. Aceitei, perdendo todos os dentes da frente e a visão do olho esquerdo, o que realmente me atrapalhava quando tinha que usar o rifle. O general viu toda a cena rodeando a base em cima de seu corcel e acho que foi uma das poucas vezes em que tive a impressão de o ver sorrindo, apesar deu estar ocupado demais cuspindo sangue para ver qualquer coisa ao meu redor.

Uma vez o diabo em pessoa, com cascos, chifres, tridente e cheiro de enxofre, veio desafiar-nos no pôquer. O general ficou bravo com a presença de lúcifer e desmontou do corcel para se enfurnar em sua barraca, de modo que os dois capitães foi que tiveram que ouvir o que satanás tinha para dizer. E ele disse que queria nossas almas caso perdêssemos, o que aceitamos de cara. Foi um jogo emocionante, mas o diabo acabou perdendo um dos chifres para o chefe do Rancho e como não tinha charutos para dar ao sargento, teve que pagar levando dezesseis socos no rosto. Nunca mais ele voltou.

Comíamos feijão e era uma manhã de sol quando o chefe do Rancho e um dos capitães trouxeram um prisioneiro da floresta. Disseram que se tratava de um major inimigo, e o general montado no corcel veio para junto do prisioneiro para vê-lo melhor. Fiquei incumbido de amarrá-lo a uma grande tora de madeira e de meia em meia hora bater-lhe com uma barra de ferro nas pernas. No começo achei divertido levantar da mesa de carteado e bater no major inimigo, mas depois minhas mãos começaram a criar calos e ele não gritava mais de dor, apesar de ainda estar vivo. Depois da oitava surra que apliquei nele preparei uma caneca de café bem preto para aguentar melhor fazer o meu serviço. Tomei alguns goles de vinho também. Depois da décima surra as pernas dele não pareciam mais pernas, então perguntei a um dos capitães se eu poderia bater mais em cima. O capitão viu o estado das minhas mãos e disse que eu já tinha feito um ótimo trabalho e que poderia jogar minhas cartas e descansar. Um soldado que chamávamos de pudim ficou no meu lugar com as surras e depois eu soube ele tinha que bater nos braços do major inimigo.

Certo dia eu estava bêbado e estava brigando com um soldado que chamávamos de sarampo quando vimos um clarão seguido de um grande barulho. Uma enorme explosão vinda da parte sudoeste à nossa base fazia subir uma coluna gigantesca de fogo, a qual olhamos assustados enquanto pegávamos nossos rifles e o maior número de mantimentos possível para fugir dali. O general estava em sua barraca e saiu fulo da vida com a confusão, mas mesmo assim ninguém ouviu sua voz. O corcel estava amarrado ao lado da barraca, agitado, empinando as patas dianteiras e relinchando. Esperamos alguns minutos até o general acalmar o cavalo e um dos capitães foi para junto dele, para receber ao ouvido a ordem. O general queria que ficássemos a postos mas sem sair da base. Eu estava com os dois olhos abertos e o rifle apontando para a direção sudoeste. Era muito ruim usar o rifle sendo cego de um olho. Tive a oportunidade de reaprender a atirar quando fuzilei um grupo de civis que tínhamos recolhido de um outro refúgio, bem maior e organizado. Era um grupo de crianças em torno de nove anos de idade, e foi muito difícil pegar a prática de acertar bem no meio da testa, de modo que tive que matar umas doze para pegar novamente o jeito. Todos estávamos alertas esperando as tropas inimigas finalmente virem ao nosso encontro. Ficamos assim por horas, mas nada veio. Aos poucos fomos relaxando nossas posições e o general subiu novamente em seu corcel para rondar a base. Sarampo e eu esquecemos nossa briga, mas quando relembramos já estávamos com o sangue frio.

São recordações que guardamos dentro do coração. Um dia as tropas inimigas finalmente vieram, e desde então nunca mais tivemos paz.

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Contos

Dia de caça

O coletor A2-SXS, como um falcão, adejava o ar com cheiro de ovos podres acima das ruínas que brilhavam intensamente, num dourado ofuscante e opressor. Se ele pudesse captar os sons externos, a despeito do paramento que o protegia da alta concentração de H2S, ouviria o chiar constante dos toneis de combustível enterrados abaixo da há muito inabitada Tóquio.

No peito de Tóquio chorava um blues, diria alguém do século XX. O coletor analisava minuciosamente a superfície em busca de duendes.

Os duendes vieram com o gás, quando os grandes reservatórios vazaram. E tudo a ver com o século XX, onde a síntese de ouro estava em alta. Com o grande vazamento de 1983, e a consequente morte de todos os alquimistas japoneses, as grandes Torres de Alimentação e Síntese explodiram em uníssono, sendo o som mais alto já registrado no planeta até então. O metal fumegante voou e cobriu toda a superfície da cidade, e quem não morreu queimado e mumificado pelo ouro, morreu intoxicado pelo gás sulfídrico que vazava de todos os poros da terra.

Mas os espíritos das matas são imortais. Atraídos pelo ouro em abundância, atravessaram os oceanos em cima de suas mães d’água para conseguir o seu quinhão.

O ouro, após tantos anos da era sintética, era obsoleto para os homens. Aquele planeta tóxico quase não interessava ao restante da humanidade, na base lunar. Mas a caça, com a morte total da fauna não humana, era moda. E os únicos seres que se mostravam naquele planeta falecido eram os duendes, refestelando-se no ouro abaixo das nuvens de ácido sulfúrico e tempestades dignas de Vênus.

O coletor A2-SXS voejava por entre os trovões. Já estava ali há duas horas e sabia que não restava mais do que vinte minutos para que precisasse retornar à nave e renovar a camada de proteção do traje.

Acelerou e percebeu um duende negro, nu em pelo, como eles ficavam em Tóquio,  em cima de um ônibus fóssil dourado. Tinha que ser rápido, então ajustou o lança-redes acoplado a seu braço esquerdo à potência 80, o direcionou e disparou. O duende negro se debateu a princípio, mas a malha da rede era de um material fino e resistente, então ele parou de se mexer quando sua pele começou a sangrar. O coletor carregou a rede com sua caça pelos ares e, um pouco mais ao sul, adentrou sua nave.

Depois da desinfecção, o duende foi guardado numa pequena jaula de ouro onde havia sido deixado um pouco de frutas frescas, fabricadas na cozinha da nave. O pequeno duende começou a comer imediatamente, afinal há anos, desde a morte severa das árvores, não comia frutas frescas. O coletor A2-SXS, sentado em uma poltrona de feltro azul manejando uma taça de vinho tinto, observava sua nova aquisição, satisfeito.

O duende comeu todas as frutas, que estavam cortadas em cubos, e soltou um arroto fino. Depois se agarrou a um lingote de ouro que estava dentro da jaula e dormiu, serenamente, afinal a única coisa que pode deixar um duende tranquilo é uma boa quantidade de ouro.

O coletor terminou seu vinho e foi até um painel na nave, em outro compartimento, onde inicializou o processo de dissecação e curtume.

O pequeno duende negro foi agarrado por garras mecânicas e estripado por um braço robô de ponta afiada e cortante como um bisturi. Deu um grito fino enquanto suas pequenas tripas escorreram moles por fundo da jaula, e sua pele foi posta ao contrário pelas garras que o seguravam, com o bisturi mecânico desfiando os músculos, extraindo, assim, o esqueleto sem desmontá-lo, com perfeição. O cérebro ainda dentro do crânio, os olhos ainda mexendo. As tripas e os músculos foram engolidos por um buraco que se abriu no fundo da jaula de ouro. Um outro braço mecânico, de ponta fina, extraía o cérebro do duende, depois de furar os olhinhos e puxá-los, com acurácia.

A pele foi mergulhada numa solução salina num compartimento no fundo da jaula; depois, secada rapidamente, envernizada, e expelida para uma câmara de aquecimento.  O esqueleto, após a extração de todo o seu conteúdo e limpeza, também foi mergulhado na solução, secado e envernizado, porém foi envolvido numa redoma de plástico transparente, que foi preenchida com silicone e uma base colada em seu fundo.

O coletor A2-SXS aguardou 40 minutos e foi até a jaula. O esqueleto e a pele já estavam preparados. Gravou um nome numa placa de prata no suporte do recipiente onde estava o pequeno esqueleto do duende e puxou uma tela onde estava estendida a pequena pele, agora desidratada e com uma boa aparência.

A nave, após as 4 horas de viagem habituais, se acoplou, automaticamente, à Base Lunar XIX, setor IV, compartimento SXS, onde o coletor morava com sua esposa. A casa do coletor era agradável, e não havia nada muito diferente de uma casa terrestre dos anos 80 do século XX.

Sua esposa, após beijá-lo com ternura, expôs o esqueleto do pequeno duende na estante, e pediu ajuda ao seu marido para pendurar a pele na parede. Um duende negro era uma aquisição e tanto. E trazia boa sorte, dizia o costume, pois a energia vital daqueles pequenos seres se voltava a outras funções, boas, já que não havia mais o que fazer com o corpo completamente mutilado. Os duendes são imortais, mas não podem se mexer sem os músculos, como qualquer um de nós.

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